quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Busca inglória pela perfeição

Escritor algum é indispensável. Mas os que procuram fazer com que os gêneros literários avancem para rumos mais interessantes se esforçam para parecer o contrário.

Talvez seja até por isso que passem despercebidos do grande público que flui para as livrarias, para os sites de encomenda de livros ou para as compras de livros digitalizados.

Muitos dos clássicos – a presumível alta literatura – nem de longe representam o que de melhor foi produzido na época em que foram concluídos.

Tampouco as escolhas consensuais das editoras, dos meios de comunicação e, principalmente, do público converge para o que é melhor.

Inclusive porque o que é bom é pouco digerível – não necessariamente chato – e exige esforço maior dos leitores. O que leva a ter pouco apelo comercial.

No entanto, alguns bons escritores – como o o norte-americano Howard Philips Lovecraft, o brasileiro Nelson Rodrigues e o russo Fiódor Dostoievski – produziram literatura popular e suas obras foram fartamente consumidas.

 
H.P. Lovecraft
 
Nelson Rodrigues
 
Fiódor Dostoievski
                                           
Lovecraf, o da primeira fotografia acima, foi assim como seu conterrâneo Edgar Allan Poe um dos melhores escritores de contos de todos os tempos...
Ter domínio da língua culta e ter bom texto é essencial? Se assim fosse, baxaréis de letras e jornalistas seriam baitas escritores.

Um dos textos mais perfeitos da prosa realista dos meados do século XX é o do alagoano Graciliano Ramos. O escritor trabalhou durante anos para o jornalismo impresso sem produzir uma linha de sua autoria. Foi revisor apenas, embora dos melhores.  

No mesmo período em que Ramos revisava textos de outros, a melhor prosa nacional era produzida por escritores marginais: Raduam Nassar, que trocou a literatura pela agricultura, e José Agripino de Paula, que a trocou pelo teatro e pelo cinema.
 
Raduan Nassar
 
A seguir, o link para o filme Hitler no 3º Mundo, de José Agrippino de Paula:
 


Um texto é um texto é um texto é um texto...

Escrever é um ato profano e arbitrário, dizia Gertrude Stein. Por isso “uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”. Repetição que induz à diferença. Mas quanto mais elaborado o texto, maior a indiferença do público.

Se formos mexer a rigor em nossos textos, nunca cessaremos de modificá-los. E o que é pior: nossa insistência em aperfeiçoá-los nem sempre será para melhor.

Escritores perfeccionistas viveram o paradoxal dilema: chegar à perfeição ao mesmo tempo que sabiam que se tratava de uma ilusão.

Há escritores tão perfeccionistas – como o espanhol Miguel de Cervantes, o alemão Robert Musil e o irlandês James Joyce – que mesmo que vivessem 500 anos jamais concluiriam a contento suas obras.

Embora imperfeitas pelos menos conforme os respectivos autores desejavam as novelas O engenhoso cavaleiro Dom Quixote de La Mancha (1615), O homem sem qualidades (1030) e Finnegans wake (1934) estão entre as melhores de todos os tempos.

Mas há alta literatura quase perfeita. Rara, mas há.

Três possíveis exemplos: a Divina comédia (1314), poema épico-teológico do italiano Dante Alighieri, Meu tio iauaretê (1962), conto do brasileiro Guimarães Rosa, e O corvo (1845), poema lírico do norte-americano Edgar Allan Poe.

 A seguir, o poema de Poe interpretado pelo ator inglês Vicent Price, com legendas da  versão para o português de Fernando Pessoa:




Dicas

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Quanto a esse papo sobre perfeição, a música Meio de Campo, de Gilberto Gil, diz um bocado. Quem tiver interesse, ouça!


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