quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Como se tornar escritor

Reza a lenda de que à sombra da literatura de entretenimento, que sustenta o mercado editorial, resiste uma outra literatura referencial menos integrada.

Supõe-se que tal literatura exija maior esforço construtivo por parte de quem a produz e, por seu lado,  maior empenho para assimilá-la por parte dos que a consomem.

Assim sendo, talvez tal literatura exiba também alguns graus de dificuldade.

Qualquer que seja a literatura, referencial ou de entretenimento, entende-se que para produzi-la o candidato a escritor tenha algumas qualidades: repertório, dedicação, talento...

Também reza a lenda que o talento seja nato de cada um. Sou levado a crer que quem não o desenvolve morre na praia. Estaca-se na performance espontânea e vira motivo de chacota: “Tá lento!”...


Em agrupamentos de jovens escritores é comum que os mais falantes, que mais se destacam inicialmente, nem sempre se efetivem como tal.

No entanto, aquele sujeitinho feioso do grupo, tímido, que está na lateral do enquadramento da foto seminal, acaba revelando uma produção mais consistente que a dos colegas tidos como talentosos.

Há escritores que trabalham com discrição. Dalton Trevisan é um dos. Devido ao isolamento, pouco se sabe sobre seus procedimentos de trabalho.

Dalton Trevisan


Marcel Proust, além de viver isolado, era misógino. No entanto, quanto mais solitário melhor retratou sua época.
 
Marcel Proust
 
De 1909 até sua morte, em 1922 – quando nos legou os melhores volumes de Em Busca do Tempo Perdido – há poucos registros de quem tenha convivido com ele.

A poesia norte-americana mais avançada dos meados do século XIX foi produzida por uma senhorinha solteirona e tímida: Emily Dickinson. Tão discreta que poucos da família sabiam que ela escrevia.
 
Emily Dickinson
 
Jerome David Salinger abominou o reconhecimento que a literatura lhe proporcionou.

Após o sucesso de O Apanhador no Campo de Centeio perdeu boa parte do seu tempo mudando de endereços para fugir de jornalistas, intelectuais e outros chatos.
 
J.D. Sailinger
 
Se talento, habilidade, pretensa erudição, etc., nunca foram garantia de competência, o que dizer da intuição? Sempre esteve associada às atividades artísticas em geral.

Tem importância relativa – como tudo.

O crítico Frederico de Morais, em estudo sobre Arthur Bispo do Rosário, lança dúvidas sobre as opiniões dos que afirmam que o artista plástico sergipano foi um intuitivo.
 
Arthur Bispo do Rosário



Só porque passou por internações psiquiátricas? Antonin Artaud esteve internado durante mais de década. Também foi um intuitivo? Só diz que sim quem não conhece nada da sua dramaturgia e produção teórica.

Edgar Allan Poe também foi um intuitivo?

Filosofia da Composição, sobre como gestou o poema O Corvo, descreve passo a passo procedimentos construtivos de alto rigor que influenciaram, via traduções de Charles Baudelaire, toda a poesia simbolista.

Edgar Allan Poe
 

Boa literatura, aquela que do meu modesto ponto de vista é realmente referencial – por superar velhas vertentes e abrir perspectivas para novas – exige, sempre, experimentação.

Mas para experimentar é preciso conhecer. Muito embora o memorialista Pedro Nava tenha ironizado que a experiência é um farol voltado para trás.

Forma? É quase tudo. Forma é a cara e o espírito da coisa. Talvez por isso este blog se chame Transinformação?

Negação que se afirma, a forma também tolhe e, se não se transforma, vira fôrma. Por isso requer que esteja sempre se superando. Necessita de experimentação: tanto de quem produz quanto de quem lê.

De resto, os escritores fazem o que fazem, cada qual à sua maneira. Alguns são metódicos e abusam das regras. Outros são caóticos e abusam das drogas (inclusive literárias).

Há os megalomaníacos que se referem ao próprio trabalho como "criação". Serão deuses os artistas ou os artistas deuses?

Existem cascatas aos montes a respeito dos escritores.

Dizem que Camões, viajante, trazia os manuscritos de Os Lusíadas num saco, junto com as roupas e outros pertences. O calhamaço com o principal poema épico em língua portuguesa comumente lhe servia até de travesseiro.

Como era displicente o homem! Não é o que nos parece pela complexidade construtiva do poema e pela perfeição dos sonetos deixados pelo poeta, os quais estão no mesmo plano dos de Petrarca e de Shakespeare.

Maiakovski costumava rascunhar nas laterais em branco dos livros que lia. Os volumes da pequena biblioteca do poeta estavam repletos de anotações. Ao decifrá-las, saltaram aos olhos versões preliminares de alguns dos belos versos do poeta.

Quem tiver dúvida sobre a qualidade técnica e perfeccionismo de Maiaikovski, leia seu fascículo Como fazer Vvrsos e as ótimas versões dos seus poemas por Augusto e Haroldo de Campos, supervisionadas por Boris Schnaiderman.

 
Vladimir Maiakovski
 
Pressupõe-se que os escritores – qual nos filmes em que aparecem como camaradas sofisticados e enigmáticos – se cerquem de toda uma rotina de trabalho com princípio, meio e fim.

Como teria sido a de Ferdinand Céline enquanto escrevia Viagem ao fim da noite? Na época ele era trabalhador braçal de um navio cargueiro.

Após se formar tardiamente em medicina, Céline foi clinicar para a população pobre da periferia de Paris. Com o lançamento de Viagem, caiu nas graças do público, em especial o de esquerda.

Tal afinidade ideológica durou pouco, pois o autor aproveitou a notoriedade para espinafrar a inteligência francesa, inclusive a de esquerda. Isso enquanto os franceses eram trucidados pelos invasores nazistas.

Teve de fugir da França para não ser linchado pelos muitos que o considerava um traidor colaboracionista.

Depois teve de escapulir às pressas da Alemanha, porque os nazistas estavam em vias de enviá-lo para um campo de concentração, por considerá-lo maluco.

Em meio a peripécias e desconfianças de todos os lados, ainda assim Céline, o renegado, produziu a melhor prosa francesa do século XX.


Ferdinand Céline
 
Nelson Rodrigues e Ferdinand Céline tiveram personalidades parecidas. E humor brilhante. Rodrigues passava quase todo seu tempo em redações. Foi criado nelas, já que o pai era dono e editor de jornais.

Foi em meio à zorra e falatório dos repórteres que escreveu as melhores obras da dramaturgia nacional e uma prosa tão imperfeita quanto genial.

Claro que existem escribas de vidas ordenadas, que dispõem de condições bastante favoráveis para se dedicar com rigor e disciplina ao que fazem.

Evidente que esse não foi o caso de Graciliano Ramos, cujos contos de Insônia foram escritos no Presídio de Ilha Grande, onde se encontrava recolhido por ser militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Mais tarde, já solto, redigiu a maior parte de sua obra enquanto ganhava o magro pão de cada dia como revisor de jornais.
 
Graciliano Ramos
 
Jack Kerouac, como Graciliano, também não tinha grana. Mas vivia de modo tão espartano que pouco precisava tanto dela.

Para escrever, bastava-lhe qualquer papel, iluminação para enxergar o que estava datilografando ou manuscrevendo, uma namorada chegada ao bem bom e um bourbon para levantar o ânimo.

Jack Kerouac



No tocante ao amor, Henry Miller foi mestre. Em Paris, começava a trabalhar de madrugada, após ter chegado à casa de mais uma noitada, quase sempre com uma nova acompanhante.

Depois de fazer coisas que só os amantes fazem juntos, acendia um cigarro e se incumbia das anotações do que viria a escrever durante o dia. Voltava a dormir para curar a ressaca e trabalhava no período da tarde.

Estabelecia metas de produção e as cumpria, a seu modo. Mas à noite, sem falta, voltava à esbórnia, da qual tirava seus enredos e personagens.

Henry Miller
 
Ao contrário dele, Willian Faulkner detestava vida social e, sobretudo, intelectuais. Trabalhou numa universidade, sim, mas como empregado braçal. 

Quando precisava concluir um livro, procurava sossego num hotel barato (qualquer pulgueiro ao alcance das suas mirradas economias), onde se concentrava no trabalho, dia e noite, até conclui-lo.

A exemplo de Kerouac, Faulkner gostava de ter ao lado da máquina de escrever uma garrafa de bourbon.
Willian Faulkner
 
 “Criar” (eta verbo piegas!) é ir além das questões pessoais. Alguns escritores se dedicam tanto às suas obras que se tornam personagens delas.

Daí à existência (ou não) paradoxal de Isidore Ducasse. À obra na qual se encontrava por inteiro – Os Cantos de Maldoror – assinou com o pseudônimo de Conde de Lautréamont.

À obra que pouco teve a ver com ele – Poesias – assinou, como que por ironia, com o próprio nome.

Ducasse negou-se de tal forma, que ninguém sabe ao certo se ele existiu. Ou será que foi um pseudônimo do tal Conde de Lautréamont? Se bem que tanto um quanto quanto o outro só existam na forma de registros literários.

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