quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Literatura, por princípio

Literatura vem de littera, que quer dizer letras. Assim sendo, tudo que se fixa pelo meio letras é literatura: romances, contos, poemas, textos dramáticos, obras científicas, biografias, notícias de jornais, receitas de bolo, etc.

Não tem propriamente caráter fictício ou imaginário. Mesmo no universo das chamadas “belas letras”, no qual se insere a literatura de ficção,  há literatura ficcional e não ficcional.

Exemplos de literatura não-ficcional: Sermões (Antônio Vieira), Carta a meu pai (Kafka), Memórias do cárcere (Graciliano Ramos), Cartas aos poderes (Antonin Artaud) e Os sertões (Euclides da Cunha).


O poeta francês Antonin Artaud
 
Por princípio, a literatura surgiu com a escrita? Não necessariamente.

Os primeiros registros de escrita literária foram de origem oral, transmitidos boca a boca por gerações e mais tarde transpostos para letras por escribas.

A seguir, algumas das obras mais antigas da história da literatura. Quase todas de tradição oral...

O Poema de Gilgamesh, epopeia do povo sumério, foi registrado há cerca de 2.000 anos antes da era cristã, por meio de tabuletas escritas em caracteres cuneiformes. Narra aventuras do rei e herói que lhe dá o nome.


 


O Livro dos Mortos ou Livro de Sair Para a Luz, de cerca de 2.000 antes de Cristo. É uma coletânea de orações, hinos e litanias colocados em escrita hieróglifa registrada em papiros nos túmulos das múmias egípcias.

Papiro com trecho do Livro dos Mortos
 

Ressalta os elevados ideias da sociedade egípcia. Seu presumível objetivo: ajudar o morto em sua viagem para o outro mundo.

O Rig Veda (Livro dos Hinos), escrito há cerca de 1.700 anos antes de Cristo, é o documento mais antigo da literatura hindu. E também o texto mais antigo em língua indo-europeia, da qual provém a maioria dos idiomas europeus.


Original de registro do Rig Veda



É composto por 1.028 hinos referentes a sacrifícios e às suas relações com variados cultos. Trata-se de literatura oral preservada durante séculos até ser registrada por meio da escrita.

O Pentateuco, possivelmente escrito há cerca de 750 anos antes de Cristo, compõe os cinco primeiros livros da Bíblia.

Entre os judeus é chamado de Torá, palavra associada a ensinamento, instrução, filosofia e lei. É atribuído a Moisés, patriarca do povo hebreu.

A Arte da Guerra ou Estratégia Militar de Sun Tzu teria sido escrito pelo estrategista militar chinês de mesmo nome por volta do século IV antes de Cristo.

 

Exemplar em tabuletas de bambu
 
Apesar de antigo, nenhum tratado é tão complexo, sintético e atual. Foi traduzido em quase todos os idiomas ocidentais, inclusive o português, a partir de três versões com discrepâncias de conteúdo: a russa, a alemã e a inglesa.

É o principal best seller de todos os tempos. Sobretudo nos meios militares e políticos (tanto à esquerda quanto à direita). Era livro de cabeceira de Napoleão e de Mao Tse Tung. Até políticos brasileiros o citam.

As duas mais representativas referências autorais da literatura antiga são do também chinês Confúcio (filósofo e legislador) e do grego Homero (principal poeta épico de todos os tempos).

Ambos não teriam registrado suas obras por meio da escrita. Os pensamentos do chinês, que viveu em período próximo do estrategista Sun Tzu, foram documentados por seus seguidores.

De Homero pouco se sabe. Seria o autor (oral) dos poemas épicos Ilíada e Odisseia. É um personagem tão curioso quanto os heróis e protagonistas de suas duas obras: respectivamente, Aquiles e Odisseu.

Como poderia ter descrito com tanta precisão técnica e detalhamento as cenas da Guerra de Troia, pano de fundo de Ilíada, se esta ocorreu 100 anos antes do período em que ele viveu?

Odisseia seria uma sequência do primeiro. Narra as peripécias do retorno do herói Ulisses à sua terra, após ter participado da Guerra de Troia ao lado de Aquiles.

A linguagem homérica combina dialetos diferentes, inclusive reminiscências antigas do idioma grego, resultando, por isso, numa língua artificial, porém compreensível.

Com a literatura grega e, depois, com a continuidade desta – a latina – definem-se os parâmetros do que se conhece por obras clássicas, cujos modelos são referenciais até nos dias atuais.

Da literatura grega antiga provêm quase todos os gêneros ainda vigentes na literatura ocidental. No caso da poesia, não só a precisão técnica dos versos épicos como também a dança da música por meio das palavras da poesia lírica.

Dos gregos antigos também provêm os padrões para os textos científicos, a dramaturgia, as descrições históricas e até o texto jornalístico, cujo encadeamento lógica foi formatado desde Aristóteles.

Ao longo dos séculos, os gêneros criados pelos gregos e seus seguidores latinos ganharam novos matizes. A poesia e a prosa se dividiram. Desta surgiram subgêneros como o romance, os contos, a novela e a crônica.

Mas na literatura ocidental não há nada infalivelmente novo que não possa ser atribuído às invenções pioneiras dos gregos.

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