domingo, 24 de novembro de 2013

Brasileiros de outras terras

Nacionalismo em literatura e em qualquer arte é xenofobia das grossas.

Se for para existir alguma proteção à nossa produção cultural, esta deve se restringir às questões pertinentes às desigualdades de mercado.

De qualquer forma, acho pouco provável que esse tipo de regulamentação seja viável, sem que tenha o ranço esquerdista que faz com que cada passo para frente seja obscurecido por dez dados para trás.

No tocante às ideias e à produção em si, nem pensar.

Glauber Rocha debochou do sectarismo nacionalista de alguns dos seus colegas cineastas no auge do cinema novo.

Glauber Rocha
Estes alegavam que existia uma “cultura multinacional” norte-americana, cuja finalidade política estratégica era transformar cada brasileiro numa toupeira alienada, afastando-o das questões consideradas prementes para o país.

Glauber foi mais objetivo: devemos evitar Hollywood, sim, porque a maior parte dos filmes que vêm de lá é uma bosta...



Enquanto os daqui persistiam na cruzada nacionalista, o baiano atravessou o Atlântico e foi colaborar com a revista Cahiers du Cinéma, para discutir questões mais importantes relativas ao cinema internacional, ao lado de Jean Luc Godard e François Truffaut.  

Nenhuma produção cultural realmente expressiva nutre-se apenas do que ocorre em seu território.

A população de língua alemã, espalhada por vários países, além da própria Alemanha, proporcionou ao mundo grandes pensadores e movimentos artísticos de vanguarda.

No entanto, sua cultura sempre foi aberta às influências externas. Sobretudo as provenientes da Grécia antiga.

Os alemães tiveram gerações de excelentes tradutores de filosofia e literatura clássicas. 

Dentre os quais o principal poeta romântico: Friedrich Hölderlin (1770-1843).

A literatura russa, tão gigante quanto as proporções territoriais do país, nutriu-se das literaturas de todos os povos vizinhos – chineses, alemães, búlgaros, persas, etc. – e da literatura da Europa ocidental.

O enriquecimento da produção cultural local também ocorre por meio dos fluxos imigratórios de artistas que levam seu repertório e capacidade criativa para outras terras.

Foi assim que a Inglaterra ganhou um dos seus mais importantes escritores modernos: o polonês Joseph Conrad, autor de Heart of Darkness, com base no qual o cineasta Francis Coppola produziu seu melhor filme, Apocalipse now.

Joseph Conrad
Da migração russa e polonesa a literatura dos EUA obteve numerosos reforços importantes. Entre eles o autor de ficção cientítica Arthur Azimov e o romancista Vladimir Nabokov (que também escreveu obras em francês).

No Brasil, nem se fala. Toda produção de artes e ideias nacional seria muitíssimo inferior ao que é não fosse a adição de importantes artistas e intelectuais de origens culturais diversas.

Já citei neste blog o alemão especialista em literatura francesa Otto Maria Carpeaux. Aproveito para destacar outro alemão: Anatol Rosenfeld (1912-1973), um dos nossos principais estetas das artes dramáticas.

Rosenfeld, ao lado de Sabato Magaldi, Antônio Cândido, Décio de Almeida Prado e Paulo Emílio Sales Gomes, colaboraram enormemente para qualificar a crítica de arte no país.

Magaldi, mais tarde, foi para o Rio de Janeiro, onde exerceu papel fundamental para solidificar o reconhecimento de Nelson Rodrigues como o mais importante dramaturgo brasileiro.

Anatol Rosenfeld chegou ao Brasil em 1937. Tal como o importante sociólogo brasileiro Florestan Fernandes, puxou enxada como colono em fazendas de café.

Um dos livros de Rosenfeld produzidos no Brasil
Depois trabalhou como caixeiro-viajante, até dominar o idioma e se tornar colaborador e, por fim, editor do suplemento cultural do jornal O Estado de S.Paulo durante anos.

Ajudou a traduzir e divulgar no país obras dos seus conterrâneos Schopenhauer, Goethe e Schiller.

Foi membro do conselho editorial da Editora Perspectiva (São Paulo), permitindo que chegasse até nós obras fundamentais para a formação cultural dos brasileiros nos últimos 50 anos, por meio das coleções Debates e Estudos.

Há muito mais o que revelar sobe a atuação de Rosenfeld em nosso país. Precisamos, portanto, ser muito gratos por estrangeiros como ele e tantos outros terem chegado até nós.

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