domingo, 24 de novembro de 2013

Conversa com o artista plástico Alexandre Tiago


Para bom entendedor, meia palavra basta. Foi mais ou menos assim que rolou meu trabalho com o artista plástico Alexandre Tiago, responsável pelas ilustrações do livro que motiva a criação deste blog: o romance O homem que sabia ouvir.

Admirava seu trabalho, mas não o conhecia. Em nosso primeiro contato, expliquei rapidamente do que tratava o livro e minha proposta de trabalho. Não apontei nem exigi nada.

Apenas dei uma cópia dos originais a ele, para que fizesse sua “leitura” em forma de desenhos.

Em duas semanas estava tudo pronto, sem tirar nem pôr. Perfeito. Inclusive os desenhos da capa e da quarta capa.

Alexandre Tiago trabalha com várias técnicas de desenho e pintura, colagens, esculturas, design de móveis e objetos. Suas habilidades são impressionantes. De suas mãos já saíram uma infinidade de trabalhos, dos mais lúdicos aos mais práticos.

Além de artista plástico, ele é monitor de terapia ocupacional do Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, de Campinas.


Alexandre Tiago (ao fundo suas telas) fotografado por Rosana Romanelli

Na entrevista a seguir ele fala sobre suas origens, formação, experiências de vida e visão das artes...


Origens

Nasci em 1949 em Guaraciaba, Minas Gerais, Zona da Mata, próximo do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Convivi com meus pais até os 11 anos. Meu pai foi professor e também coordenou a formação de outros professores. Por sinal, estudei com uma das suas ex-alunas. No primeiro dia de aula essa professora já notou que eu tinha facilidade de desenhar.
 
Desde muito novo gostava de desenhar. Quando compravam chapéus lá em casa, eles vinham numas caixas de papelão com boa textura para desenhos e eu sempre pedia essas caixas. Desenhar para mim era um brinquedo, assim como jogar bola e outras atividades comuns para a meninada da zona rural.


Eu desenhava cenários da fazenda onde morávamos. Paisagens, animais e porteiras. Gostava muito de desenhar porteiras, com todo o simbolismo que representam. O mais interessante é que eu já desenhava com alguma noção de perspectiva. Isso entre oito e nove anos. Havia profundidade nos desenhos, não com muita técnica, claro, mais havia.


Livros e revistas

Algo que me marcou muito foram as revistas que meu pai recebia. Quando tinha oportunidade, ele comprava também jornais. Me lembro principalmente das revistas O Cruzeiro e Manchete. Chegavam com atraso, mas eram sempre muito interessantes para nós que vivíamos afastados de tudo.

Cada um de nós gostava mais de algumas partes das revistas. Eu gostava, sobretudo, da página do Amigo da Onça, da revista O Cruzeiro, e dos desenhos de propaganda. Enfim, desde cedo eu tive essa percepção visual mais apurada. Mas também lia bastante. Meu pai tinha uma estante com vários livros. Mantinha-a trancada, para que não bagunçássemos a organização dos volumes. Quando notou que eu gostava de ler, passou a deixar a estante destrancada e até me sugeria o que ler.


Perda dos pais

Éramos quatro irmãos, dois homens e duas mulheres. Eu era o caçula. Morei na fazenda até os 11 anos. Quando meus pais faleceram, cada um foi para um lado. Eu ainda fiquei por algum tempo morando na fazenda, porque cuidava de uma roça e também tinha uma criação de galinhas. Até que um dia tomei um ônibus para Belo Horizonte, na companhia de uma senhora que trabalhava por lá.

Eu tinha uma irmã em Belo Horizonte, mas nem a procurei no início. Só mais tarde é que a encontrei. Embora tenha chegado na capital mineira com apenas 12 anos, me virei bem por lá. Meus pais haviam me preparado para enfrentar aquela situação. Tinham me dado boas noções sobre a necessidade do trabalho, de respeitar as pessoas e da importância da educação.


Juventude em Belo Horizonte

Meus primeiro emprego foi como carregador de mercadorias, nas feiras. Residia no Bairro Lagoinha, onde moravam na ocasião muitas prostitutas. Uma delas, chamada dona Ivone, se simpatizou comigo e passou a me orientar sobre uma porção de coisas. Mas eu já sabia bem o que queria. Procurava oportunidades de trabalho mais estáveis, para poder continuar os estudos.

Até que encontrei um anúncio num jornal para trabalhar numa granja de porcos. Depois de um tempo a granja foi vendida e o comprador me ofereceu outro trabalho, bem mais próximo de Belo Horizonte. O que facilitou meu propósito de continuar os estudos. Completei o ensino médio, fiz cursos de desenho técnico e de desenhos para projetos de arquitetura. Quando cheguei aos 18 anos, fui fazer o Exército, onde atuei por dois anos como desenhista.


Ida para São Paulo

Depois do Exército, fui para São Paulo trabalhar como desenhista em escritórios de arquitetura. Na época se desenhava em pranchetas. Havia margens no papel manteiga utilizado para os desenhos dos projetos, nas quais eu fazia os meus próprios desenhos. Uma arquiteta os viu e sugeriu que eu me matriculasse num curso de artes plásticas.
 
Foi então que estudei a fundo as técnicas de desenho artístico e pintura. Além dos cursos, eu e essa amiga arquiteta passamos a fazer estudos de desenho com modelos vivos. Ou seja, tive uma formação autodidata, mas muito consistente.


Técnicas que mais utiliza

Conheço bem as técnicas de pintura, desenho a bico de pena e grafite. Gosto muito de colagens. Também faço esculturas e gosto de transformar objetivos utilitários em objetivos estéticos. Trabalho bastante com madeira e papel. Também faço design de móveis que eu mesmo projeto e monto. Gosto ainda de fazer intervenções nos espaços e de mudar as funções dos objetos.

Minhas duas principais séries de intervenção foram com cadeiras e tábuas de carne. Para ambos os casos, utilizei peças que tinham sido bastante usadas. Ou seja, que tinham toda uma história. No caso das tábuas de carne, eram peças sulcadas pela utilização, durante anos, em açougues e churrascarias.
 

Vinda para Campinas

Estou há mais ou menos 15 anos em Campinas.  Aqui também fiz uma série de trabalhos com sapatos femininos. Também realizei várias intervenções em espaços. Neste espaço onde estamos conversando agora, aqui no Cândido Ferreira, fiz esta mesa, o armário, o suporte de TV, entre outros objetos. Conto tudo isso como arte. Também gosto muito de fotografia. Fotografo constantemente.


Embora meu trabalho abranja diferentes técnicas, é mais centrado nas colagens. Mas nem toda ideia que tenho, sinto a necessidade de executar. Uma ideia bem concebida já existe por ela mesma. Posso, por exemplo, sugerir coisas para que outros colegas artistas executem.

Principais influências

Minhas influências no desenho, que é o foco da nossa parceria, foram diversas. Gosto muito do gravurista francês Gustave Doré, cujos trabalhos conheço por meio de várias obras clássicas por ele ilustradas. De quando era jovem, muito me marcaram os traços do já citado personagem do Péricles, o Amigo da Onça.

Desenho do personagem Amigo da Onça (no centro), de Péricles

O Carlos Zéfiro era muito popular na minha infância e adolescência. Gostava dele não só por tratar da sexualidade, mas pelos traços simples, porém eficientes, dos seus desenhos.
Desenho de Carlos Zéfiro
As experiências de vida também foram muito importantes, inclusive para os desenhos produzidos para este livro. A vida, seja em seus momentos ruins ou bons, é uma coisa só. Sempre procurei aprender tanto com as leituras quanto com a vivência do dia a dia. Não separo as coisas. Junto-as no mesmo processo de aprendizado. Fiz vários cursos, e tudo mais, mas aprendi grande parte das técnicas que domino observando e fazendo.


Embora não tenha curso superior, conheço as fases de evolução das artes plásticas. Também conheço, por meio de livros e da internet, os principais acervos dos grandes museus. Quem muito me marcou, por exemplo, foi Salvador Dali. Não propriamente por sua importância para o surrealismo, mas pela série de pinturas e desenhos nos quais ele deforma ou dá novos sentidos a objetos de uso comum para as pessoas. Como um relógio, por exemplo.


Também gosto muito de Hieronymus Bosh. Que é renascentista, de escola e época completamente diferentes do Dali.

Quadro do pintor renascentista holandês Hieronymus Bosh
 Universo da artes
 
Para mim todas as artes são uma coisa só. Evidente que as artes plásticas, por sua natureza, exigem muita observação visual. O artista plástico tem de ver os objetos e também enxergar a partir deles. Assim como o movimento é fundamental para a dança, a observação dos objetos é determinante para o artista plástico. Dada suas características, cada arte exige determinada percepção de quem a ela se dedica. Mas, no fundo, as artes todas fazem parte de um mesmo universo.


Sobre o nosso trabalho, acho que um diferencial importante foi a maneira pela qual optamos por desenvolvê-lo. Você me deu liberdade para conhecer a história e fazer minha leitura dela por intermédio dos desenhos. Identifiquei-me principalmente com o enredo do personagem principal, pois há coincidências da trajetória de vida dele com a minha.


Entusiasmo é tudo. Quando há identificação, tudo sai melhor. Se foi relativamente fácil identificar cada personagem e seu contexto no livro, não foi tão difícil desenhá-los. Quando produzo algo, já imagino a forma como será apresentado. Então para cada desenho que fiz para o livro, já imaginava seu formato impresso e como chegaria aos olhos de cada leitor.

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