sexta-feira, 8 de novembro de 2013

De onde as pedras rolam

Amigos de fé, irmãos, camaradas, minha formação “literária” nunca se limitou a livros. E é evidente que o romance que me motivou a criar este blog (O homem que sabia ouvir) reflete isso.

Passei a me interessar por literatura na infância, por meio dos gibis. Destes fui para os folhetins.

Bertolt Brecht, em sua fase comunista, escreveu e encenou Mãe coragem em Berlin, peça muito admirada pela esquerda brejeira na passagem dos anos 1960 para os anos 1970.

O poeta piauiense Torquato Neto (1944-1972), entre a ironia cáustica e o deboche, criou a linda letra de Mamãe, coragem, musicada por Caetano Veloso.

Numa das estrofes, sugere à mãe o tipo literatura que líamos no interior:

Pegue uns panos pra lavar leia um romance
Leia "Elzira, a morta virgem", "O Grande Industrial"


Veja aqui a letra completa e ouça a canção interpretada por Gal Costa.
  
Na infância também ouvi novelas de rádio. Me lembro de Jerônimo, o herói do sertão. Foi criada por Moysés Weltman, no final dos anos 1950. Mais tarde foi adaptada para televisão.

Tratava-se de um bem-humorado pastiche dos faroestes norte-americanos. O vídeo a seguir é sobre a primeira versão televisiva da novela, pela extinta Tupi:


Literatura da pesada vim a conhecer em São José do Rio Preto (SP), por meio das publicações do grupo de Hamilton de Almeida Filho: a excelente revista Bondinho e o tabloide Jornalivo...

Jornalivro foi minha bandeira de sobrevivência no colégio naqueles anos. Me isolava da zoeira para ler coisas sobre Dostoiévski, Poe, Baudelaire e outros bichos.

Depois vieram o cinema, o teatro, as artes plásticas, a música...

Por meio do rádio ouvia muita, muita música. De qualquer gênero. Rural e urbana. Brasileira e internacional.

Até hoje meus amigos urbanos se espantam quando cito Ferreirinha (de Carreirinho) como exemplo de uma das melhores canções populares compostas no país. Mas de fato é.

A apresentação no vídeo a seguir, de uma das edições do programa de TV de Inezita Barroso, Viola Minha Viola, é com a dupla Carreiro e Carreirinho.



Na minha adolescência, Beatles e Rolling Stones dominavam o imaginário de milhões de jovens por todo o mundo, inclusive o meu.

Os dois grupos ingleses formaram-se no vácuo dos grandes pioneiros do rock norte-americano: Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Elvis Presley, Little Richard e outros.

A excelente performance vocal dos Beatles me parecia muito próxima dos ótimos duetos da música sertaneja que tanto ouvira na infância.

Os Stones, mais instrumentistas, eram muito ligados ao blues e a outros gêneros da mais tradicional música popular norte-americana.

Foram influenciados principalmente por Muddy Waters e demais blueseiros de Chicago.

A influência de Waters começa pelo próprio nome da banda: Rollin’stone é o título de uma canção dele – também conhecida como Blues Catfish – de 1950.

Em novembro de 1981, em meio a uma turnê pelos EUA, integrantes da banda fizeram uma visita ao clube de Buddy Guy, em Chicago, onde improvisaram algumas canções com Muddy Waters, o próprio Buddy e Lefty Dizz.

A seguir, a apresentação de Baby Please Don’t Go, inicialmente com Watters e seu grupo, e depois com canjas de Mick Jagger, Ron Wood e Keith Richards:



A partir do convívio com o compositor e guitarrista de country rock Gram Parsons,  os Stones incorporaram também elementos rurais da música norte-americana.

Parsons deixara o grupo The Byrds em 1968, por não concordar em se apresentar na África do Sul, naquele tempo sob o apartheid.

Como estava na Inglaterra, tornou-se amigo de Jagger e Richards, com quem passava horas mostrando antigas canções rurais do seu extenso repertório.

É nítida sua influência em Wild Horses e Honky Tonk Women. Parsons foi inclusive o arranjador da versão country desta última, gravada como Country Honk no álbum Lei It Bleed.

A influência de Parsons permeia três dos melhores discos dos Stones: Beggars Banquet, Let It Bleed e Sticky Fingers, de 1968, 1969 e 1971, respectivamente.

Em 1973, ele morreu de overdose num hotel da Califórnia.


Jagger, Richards e Parsons

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