sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Do concreto ao abstrato

Tédio, certo ar depressivo, timidez.

Assim aparentava Walter Benjamin (1892-1940) nas poucas fotografias deixadas.

Sempre de cabeça baixa e evitando expor seu olhar míope a quem quer que desejasse vê-lo.

Walter Benjamin
Esse homem dúbio, que parece querer se esconder de si próprio, está entre os que melhor compreenderam a meleca cultural com a qual nos lambuzamos há décadas.

Ele, Marcel Duchamp (1987-1968), Marshall McLuhan (1911-1980) e Andy Warhol (1928-1987).


Marcel Duchamp
Mas Benjamin é uma grandeza à parte...

Vinculado à chamada Escola de Frankfurt teve, naturalmente, uma aproximação inicial com o marxismo.

Depois flertou, por um período, com o judaísmo místico, por intermédio do escritor e amigo Gershom Sholem (1897-1982).

Profundo conhecedor da língua e cultura francesas, traduziu para o alemão as obras de Charles Baudelaire (1821-1867) e Marcel Proust (1871-1922).

Charles Baudelaire

Então partiu para rumos independentes, escrevendo obras essenciais para a cultura contemporânea:

A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica (1936), Teses sobre o conceito da história (1940), Paris, capital do século XIX (não concluída), Tarefa do tradutor (não concluída), entre outras.

Esta última é incrivelmente coincidente com opiniões de Ezra Pound (1885-1972), outro descendente de judeus.

Pound, diferente de Benjamin, se insurgiu contra o judaísmo.

Foi para a Itália apoiar Mussolini, o principal aliado de Hitler. Preso, foi execrado publicamente após ser levado de volta à sua pátria, os EUA.

Pound enjaulado em um hospital psiquiátrico

 A Escola de Frankfurt, da qual Benjamin foi talvez o principal expoente, reúne importantes pensadores de duas gerações.

A primeira conta com Max Horkheimer, Theodor Adorno, Herbert Marcuse, Friedrich Pollock, Erich Fromm, Otto Kirchheimer e Leo Löwental.

A segunda: Jürgen Habermas, Franz Neumann, Oskar Negt, Alfred Schmidt, Albrecht Wellmer e Axek Honneth.

Dois agrupamentos predominantemente à esquerda. Benjamin idem, além de judeu.

Não havia outra saída: com ascensão do nazismo teve de se safar.

Refugiou-se na Itália até 1935, até que Mussolini chegou ao poder.

A partir de então Benjamin caiu na clandestinidade, escapulindo da morte de esconderijo em esconderijo. 

Mesmo vivendo de maneira rústica e precária, concluiu em 1940 suas Teses sobre o conceito da história.

No mesmo ano, ao fugir da perseguição nazista nos montes Pirenéus, matou-se com uma doze excessiva de morfina.

Há um lado pouco divulgado sobre ele, que é o pendor pelos paraísos artificiais. Como Baudelaire, gostava de ópio, haxixe e outras coisitchas.

A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica concentra-se na destruição da aura que envolve as obras artísticas, enquanto objetos próprios, com autoria definida.

Com o progresso das técnicas de reprodução, Benjamin previu – isso ainda nos anos 1920 – que as obras de arte perderiam o sentido de originalidade.

O que, na sua visão ainda marxista, tinha por trás a crise da aristocracia e a dissolução de suas dimensões sociais.

Na época, o filósofo identificava no cinema a causa principal dessa mudança radical.

O que previu é condizente, por exemplo, com o advento da internet, que está extinguindo com uma série de outros meios, dentre os quais a imprensa.

Quando Benjamin desapareceu, sua obra, dispersa pelos esconderijos por onde passou, corria sério risco de também desaparecer.

A guerra chegara ao fim. Gershom Sholem, ciente da importância do amigo, saiu à cata de suas anotações, por onde quer que tivesse andado.

Graças à admirável figurinha abaixo temos hoje o privilégio de poder ler quase tudo o que Benjamin produziu.


Gershom Sholem
Quem ainda não conhece Benjamin, leia por favor. É o fino do fino. Infinitamente superior a quaisquer lero-leros sobre quem ele foi e o que produziu.

Se não achar nas livrarias e sebos, baixe. Forneço alguns links a seguir. Só não tenho opção confiável para Teses sobre o conceito da história.

Mas os demais livros aqui citados estão acessíveis em pdf:

A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica

Paris, capital do século XIX

Tarefa do tradutor

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