sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Dostoiévski e o jornalismo

Para vários escritores o ganha-pão foi o jornalismo.
 

Julio Cortazar, Cabrera Infante, Truman Capote, Albert Camus, Edgar Allan Poe, Tom Wolf, Eça de Queiroz e Henrik Ibsen lá fora.

Aqui no Brasil: Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos (como revisor), Nelson Rodrigues e muitos outros.
 

Os irmãos Fiódor e Mikhail Dostoiévski passaram boa parte de suas vida nas redações de jornais e revistas russas.

Fiódor, que se tornou um dos maiores romancistas de todos os tempos, tirou a maior parte dos seus enredos do noticiário.


Ibsen na Noruega e Nelson Rodrigues por aqui, também.

Fiódor Dostoiévski

A trama de Os irmãos Karamazov teve início com uma série de reportagens do próprio autor sobre crianças maltratadas...


Fiódor e Mikhail criaram duas importantes revistas culturais: Vrêmia (O Tempo) e Epokha (Época). Ambas de oposição ao regime czarista.
 

Devido às suas atividades como jornalista, Fiódor foi preso várias vezes.

Numa delas quase foi fuzilado. Escapou na última hora, mas passou um período infernal na Sibéria.

Seu livro-reportagem Memória do subterrâneo (1864) retrata esse recolhimento forçado.
 

Graciliano Ramos contou sua própria experiência em presídios políticos no livro Memórias do cárcere, publicado postumamente.

Graciliano Ramos
 O título do livro do brasileiro faz óbvia referência ao da obra do escritor russo, a quem tanto admirava.

Como ganhar dinheiro não é uma virtude preponderante entre escritores e jornalistas, Fiódor Dostoiévski viveu sob grandes dificuldades financeiras.
 

Chegou a afirmar: “A pobreza e a miséria formam o artista”.

As perseguições políticas e a piora do estado de saúde (voltou com epilepsia da Sibéria) o levou a se concentrar somente na literatura.

Escreveu obras atrás de obras, em prazos muitos curtos, não propriamente para ganhar dinheiro, mas para saldar dívidas.

Além de obras próprias, também foi incansável tradutor.

Verteu para o russo obras de Shakespeare, Pascal, Victor Hugo, Ernest Hoffmann , Honoré de Balzac, Friedrich Schiller e outros.
 

Aproveitando uma agendada visita de Balzac a São Petersburgo, em 1844, concluiu em poucos dias a tradução de Engenia Grandet, para que o lançamento ocorresse concomitante à visita do escritor francês.


Honoré Balzac
Com esse esforço conseguiu apenas saldar uma dívida com um agiota que lhe vinha aporrinhando.

Sua prisão mais temerária ocorreu 1949, sob a suspeita de participar de um grupo de intelectuais revolucionários que conspiravam contra o czar Nicolau I.

Foi a julgamento e condenado a morte por fuzilamento.
 

Em 23 de dezembro, foi levado com um grupo de condenados para a execução.

Pouco antes do fuzilamento, chegou uma ordem do czar para que a pena fosse comutada para prisão com trabalhos forçados e exílio na Sibéria.
 

Uma das maiores surpresas de Dostoiévski foi descobrir que na prisão existiam as mesmas diferenças sociais do lado de fora.

Conta como os camponeses zombavam dos intelectuais, por sua falta de destreza física nos trabalhos.
 

Conflitos similares foram narrados por Graciliano em Memórias do cárcere, cuja primeira edição passou por censura do Partido Comunista Brasileiro (PCB) para que fossem omitidas tais referências.
 

Dostoiévski foi libertado em 1854 e retomou sua carreira literária.

Mas trouxe do presídio outros hábitos que lhe causaram mais endividamento: apostar dinheiro em jogos e consumir álcool em grande quantidade.
 

Em 1865 começou a elaborar Crime e castigo, uma de suas obras principais, que apareceu em capítulos numa revista, com grande sucesso.

Em 1878 teve início a publicação em capítulos do seu último romance, Os irmãos Karamazov, considerado por Sigmund Freud como o melhor romance já escrito.

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