domingo, 24 de novembro de 2013

Horror na literatura

De acordo com o mestre da literatura de suspense e horror Howard Lovecraft (1890-1937): “O medo é uma das mais antigas emoções... e também uma das mais sorrateiras”.

Queria dizer com isso que está próximo do humor e do drama quanto aos riscos de cair no ridículo.

Cenas e personagens monstruosos são numerosos na história da literatura de diferentes épocas.

A Odisseia de Homero está repleta deles. Na segunda parte da Divina Comédia, de Dante Alighieri – Inferno – é quase só o que se vê.

Gravura de Gustave Doré para a Divina Comédia

Os exemplos são tantos, que é melhor ficarmos por aqui.

Como gênero, a chamada literatura de horror – de terror, suspense ou qualquer outro nome que se dê – começa a se delinear com a literatura gótica, surgida do final do século XVII para o século XVIII...


Algumas das principais características desse tipo de literatura, que provém da última fase do barroco, são os cenários medievais, com castelos decadentes, igrejas abandonadas e florestas sombrias.

Seus principais personagens: donzelas adoentadas, cavaleiros obstinados e vilões cruéis. Seus temas e símbolos recorrentes: segredos do passado, manuscritos escondidos, profecias e maldições.

Todos os itens acima são facilmente identificáveis nas histórias de Edgar Allan Poe, do próprio Lovecraft e de Robert Stevenson.
Robert Stevenson
Outro item em comum: o macabro está relacionado a estranhas descobertas científicas. Daí por que o surgimento da literatura de ficção científica ocorre como os mesmos autores que escreveram histórias de horror.

O gênero se efetiva por meio de dois escritores ingleses. Um deles uma garota de 19 anos que estreou como autora com uma das histórias de terror mais populares já escritas.

Trata-se de Mary Shelley (1797-1851). Mary, recém-casada, encontrava-se com o marido, o poeta Percy Shelley e seu amigo, o também poeta Lord Byron, em um castelo de Genebra.

O período era muito chuvoso. Havia na biblioteca local vários livros sobre literatura gótica, sobre os quais vinham conversando. Então os três se impuseram o desafio de cada um escrever uma história com tais características.

Assim, de forma descompromissada, Mary criou em poucos dias um dos grandes mitos modernos, o romance Frankenstein: o moderno Prometeu.

O monstro de Frankenstein interpretado por Boris Karloff
O motivo do subtítulo é ridículo: foi para homenagear o marido, que vinha traduzindo Prometeu acorrentado, de Ésquilo.

O protagonista da história de Mary é o jovem e obsessivo cientista suíço Victor Frankenstein, que descobre um meio de dar vida a matérias inanimadas por intermédio da eletroquímica.

Juntando partes de vários tipos de cadáveres, dentre os quais animais, cria uma criatura gigantesca dotada de vida e inteligência.

O enredo é caótico. Num momento o monstro exige do seu criador que lhe dê uma fêmea com as mesmas características, para com ela partir para a América do Sul.

Mas, de repente, o monstro sensível se transforma num homicida, assassina a mulher do cientista e o persegue pelo Pólo Norte.

A segunda obra marcante para a criação do gênero está diretamente relacionada aos já citados arquétipos da literatura gótica: Drácula, de Bram Stoker (1847-1912).
O autor ao lado da capa do seu livro

O monstro agora não pertence ao futuro e sim ao passado. E sua origem é nobre.

O cenário é todo urbano: a maior parte da história se passa em Londres. Ao contrário do personagem da jovem Mary Shelley, o de Stoker é insensível à vida. Usa a dos outros para garantir seu vigor e imortalidade.

Os dois romances ingleses foram criados como obras para fácil consumo. Mais ou menos no mesmo período em que viveram Shelley e Stoker, na França havia um outro tipo de literatura de horror.

Esta, profundamente influenciada pelo norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849), era mais sutil e cerebral. Um dos seus principais autores foi Villiers de L’Isle-Adan (1838-1889), que escreveu L’Éve future, Tribulat Bonhomet, Axel e Contes Cruels.
Villiers de L’Isle-Adan

O norte-americano Howard Lovecraft, que praticamente deu continuidade ao legado de Poe nos EUA, é mais vinculado à linhagem francesa da literatura de horror.

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