sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Literatura em cena

Em uma passagem de Havana para um infante defunto, o narrador (alterego do autor Guillermo Cabrera Infante) participa de um grupo de teatro mambembe que se apresenta pelo interior de Cuba.

Quase todos os integrantes são de esquerda ou se opõe à política opressora do então presidente Fugencio Batista. A precariedade é total. O cenário é carregado no lombo de um burrinho.

O que vem à tona nas apresentações hilárias desse grupo mambembe é o bom humor do povo cubano, capaz de debochar da própria miséria e, talvez por isso, tenha resistido a ela com tanta dignidade. 

Embora venha de uma família de comunistas, Cabrera Infante (1929-2005) se deu mal com o regime dos irmãos Castros.

Chegou a ministro de Estado após a revolução. Mas se posicionou contrário à marginalização de artistas cubanos homossexuais, dentre os quais dois que eram seus amigos pessoais: Lezama Lima (1910-1976) e Virgílio Piñera (1912-1979).

Lezama Lima e Virgílio Piñera: "El Gordo" e "El Flaco"

Mas as restrições do regime se ampliaram à classe artística de maneira geral. Ou esta apoiava o realismo socialista em vigor ou estava fadada ao ostracismo. Cabrera e sua mulher, a bailarina Mirian Gomes, tiveram de se exilar...

Razão pela qual escreveu a maior parte de seus livros em Londres, onde ganhava o pão de cada dia como redator.

Sua obra de ficção é toda sobre Cuba, mas seus livros até hoje são proibidos no país. O exílio a ele imposto por Fidel nunca foi digerido. Morreu sonhando com a possibilidade de retornar.

Mantinha relação de solidariedade com os exilados latino-americanos, independe de suas posições políticas.

Vários brasileiros acolhidos em Londres - dentre os quais os baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso - estiveram em seu modesto apartamento.


Caetano Veloso, Gilberto Gil, Cabrera Infante e Haroldo de Campos
Atuei por mais de dez anos em grupos de teatro mambembes altamente improvisados, como o descrito por Cabrera em Havana para um infante defunto.

Em Brasília, ajudei a formar o  grupo Pedra, no início dos anos 1970. Nossas inspirações eram os grupos Tá na Rua de Almir Haddad e o Oficina de Zé Celso Martinez e Renato Borghi.

Depois passamos a estudar as técnicas do teatro de agitação e propaganda do alemão Erwin Piscator e, ao mesmo tempo, do teatro ritual do polonês Jerzi Grotowski.

Por meio de escritos do diretor polonês, nos interessamos pelos autos e farsas do teatro medieval, encenados em palcos armados em espaços públicos de Brasília e de suas cidades satélites .

Um tipo de teatro altamente participativo e provocativo, voltado para o improviso.

No final dos anos 1970, participei da criação, em São Paulo, do grupo Verdadeiros Artistas, cujo propósito era levar para a cena recursos multimídia.

Interessávamos sobretudo pela biodinâmica de Vsevolod Meyerhold (1874-1940).

O grande diretor russo, com suas avançadas propostas de encenação e preparação de autores, foi a referência principal para nossa primeira montagem: Curva da tormenta.

Os banhos, de Vladimir Maiakóvski, encenado por Meyerhold em 1930
Meyerhold nos levou aos grandes poetas utopistas das artes cênicas modernas: o inglês Gordon Craig (1872-1966) e o suíço Adolf Appia (1862-1928).

Vieram então os maravilhosos musicais escritos pelo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) e o teatro do silêncio do irlandês Samuel Beckett (1906-1989), uma proposta tão inusitada quanto a música do austríaco Anton Webern (1883-1945).

Por fim, chegamos às referências contemporâneas.

Dentre as quais o encenador argentino Victor García (1934-1982) - cujo radicalismo antecipou o grupo catalão La Furia Del Baus - e o minimalismo do genial bonachão texano Bob Wilson (1941).

O balcão, de Jean Genet, encenado por Victor García,
em 1969, no Teatro Ruth Escobar, em São Paulo
Bob Wilson trabalhou com figuras admiráveis: o compositor John Cage, o poeta do rock Lou Reed, o coreógrafo Merce Cunningham, o escritor beat Willian Burroughs, entre outros.

Mas como intérpretes, Wilson sempre preferiu atores amadores, sem vícios de interpretação.

Também admirávamos o trabalho dos multitalentosos Dzi Croquettes, liderados pelo coreógrafo e dançarino norte-americano Lennie Dale (1934-1994) e pelo ator/compositor/roteirista Wagner Ribeiro.

A seguir, cenas do documentário Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez:


O livro que é objeto deste blog/oficina reflete um pouco de tudo isso. Especialmente no tocante à sua construção.

As fábulas - episódios rememorados pelo personagem principal - foram idealizadas inicialmente para um espetáculo que não chegou a se consolidar.

Quem vier a lê-lo, quando estiver em impresso em dezembro próximo, identificará isso. Teatro também é uma forma de prosa. Assim como a poesia.

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