domingo, 24 de novembro de 2013

Lou Reed e Moreira da Silva como cronistas


Lou Reed, falecido recentemente, foi o cronista da Nova York out, aquela que não só nunca esteve nos roteiros de turismo da cidade, como estableshiment faz o possível para omitir que existe.

Ou seja, a Nova York dos veados, traficantes, travestis, drogados, pirados e outras figuras inadequáveis ao “modo de vida americano”. Reed fez parte desse time enquanto a saúde permitiu.

Sua maneira de mostrar os personagens do métier barra pesada foi sempre generosa, com uma compreensão da realidade dos excluídos que a sociologia, com suas abstrações ufanistas, jamais chegaria aos pés.

Uma pequena amostra:


Legou-nos dezenas de lindas canções sobre esses personagens por quem só os fodidos da mesma laia têm algum interesse...


Uma garota junkie que leva surras frequentes do namorado maníaco e tem como único sonho mudar-se para o Alaska para viver isolada numa realidade que ela só conhece pelas fotografias.

O transexual que atravessa o país de leste a oeste, de carona, movido pelo desejo obstinado de conseguir fazer uma cirurgia para mudar de sexo.

O viciado que aguarda fissurado por sua dose, enquanto o traficante, pirado e metido a intelectual, demora para entregar a coisa porque insiste em filosofar sobre questões idiotas que para ele têm grande importância.

Nossos rapazes do Dzi Croquetes cantavam num dos seus lindos espetáculos a despedida das travecas prostitutas quando o dia amanhece e cada qual tem de ir para sua espelunca descansar o corpo, até que venham os episódios brutos da noite seguinte.

A canção é Good night ladies, de Reed:



Há dezenas de outras canções suas sobre a marginália, todas com temas pesados, mas ao mesmo tempo líricas.

O suicida que pede socorro no telefone público para uma ligação sem destinatário. Ele na verdade usa o aparelho para pedir socorro às pessoas que estão por perto, mas estas se afastam porque não querem se envolver.

A garota rejeitada que erra as veias de propósito ao se aplicar, a fim de mostrar à mãe que a rejeita os braços repletos de cicatrizes.

Nos anos 1980, Reed teve de trocar as doses cavalares de heroína por algum paliativo, pois seu corpo não suportava mais a primeira-dama opiácea.

Sem muita alternativa, optou pelo álcool. Como jamais foi um consumidor social, bebeu um bocado por duas décadas, até que o fígado deu alarme.

Do final dos anos 1990 até recentemente, ele e a mulher, Laurie Anderson, se afastaram de tudo que estava relacionado àquilo de que já não podiam mais compartilhar.

Principalmente drogas e álcool.

Mudaram-se para uma pequena cidade do Estado de Nova York, longe de toda badalação, onde levavam vida anônima.

Criaram laços com pessoas que gostavam deles pelo que eram e não pelo que haviam feito. Poucos dos novos amigos se importavam com o fato de o casal representar a nata da música popular experimental do país.

Recentemente, quando a equipe médica que tratava Reed expôs a ele os riscos e sacrifícios para fazer um transplante de fígado, o compositor jogou a toalha e pediu para voltar à sua cidadezinha.

Dedicou seus últimos dias a fazer o que mais o estimulava nos últimos anos: admirar a natureza e conversar com os cidadãos simplórios.

Apesar do rosto cheio de fissuras de rugas decorrentes do consumo de drogas e álcool por décadas, Mr. Reed era tido pelos caipiras como um homem simpático e generoso.

Dentre seus hábitos modestos na localidade, até dava aulas de tai chi de graça para idosos.

Um dos grandes cronistas da música brasileira foi Moreira da Silva. Diferente de Reed, que produziu suas canções mais marcantes na juventude, a popularidade de Moreira se consolidou quando já quarentão.

Mas sua carreira de cantor também começou cedo.

Foi intérprete de músicas carnavalescas durante os anos 1930. Gravou discos de serestas nos anos 1940.

Tudo mudou para valer quando ao interpretar sambas de Geraldo Pereira e Wilson Batista passou a introduzir improvisos falados.

Estava descoberto o cantor-personagem Kid Morangueira, um malandro carioca típico – o que o verdadeiro Moreira nunca foi.

Durante o dia era funcionário público. De noite, era a sensação dos palcos dos cassinos na pele de um malandro espertíssimo, debochado e irônico.

Seu sucesso foi tão marcante que vários compositores passaram a produzir canções especialmente para ele. Dentre os quais Kid Pepe e Miguel Gustavo.

O próprio Moreira compôs vários sambas, só e em parceria, para ampliar o repertório do malandro por ele encarnado nos palcos e gravações.

Sua agilidade era impressionante. Um filme estrangeiro chegava aos grandes cinemas do país e, concomitantemente, ele já lançava um samba em referência, no qual o protagonista passava a ser o célebre Kid Morangueira.

As grandes nações aliadas declararam o fim da 2ª Grande Guerra Mundial num dia, no dia seguinte, junto com as manchetes dos jornais, saía mais um sucesso fantasioso de Moreira alusivo ao momento histórico.

Uma enchente devastou a então capital federal. Enquanto os estragos eram calculados, o cantor estourava com um samba debochando dos desacertos das autoridades públicas diante da tragédia.

As inovações introduzidas por Moreira no samba não tiveram sucedâneo. O único que comprendeu sua importância foi Jards Macalé, que o homenageou com regravações de vários dos seus sucessos.

O Moreira real foi próximo do Lou Reed real. Este, diferente da imagem do diabólico enfant terrible do rock, foi uma figura correta e generosa.

Assim com David Bowie o tirou do ostracismo e lhe devolveu a carreira ao financiar a gravação do excelente disco Transformer (1972), poucos anos depois era Reed quem apoiava a ressurreição do cantor de jazz "Little" Jimmy Scott.

Na sequência, Reed e Jimmy Scott interpretam Satellite of love (canção do primeiro):


Moreira pouco tinha a ver com o malandro Kid. Foi um cidadão exemplar, bom chefe de família, getulista fiel e muito religioso – frequentava o catolicismo e o candomblé.

A seguir, Moreira, na pele de Kid Morangueira, interpreta O Rei de Gatilho (de Miguel Gustavo):




E, na íntegra, o disco Jards Macalé canta Moreira da Silva:


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