sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Mundos paralelos

Quentin Tarantino disse que todos os seus filmes são sobre filmes de sua preferência feitos por outros.
 

Não se trata de plágio ou de copiar.

Refere-se aos fios que nos ligam à linha de produção maior da qual somos parte e com a qual sempre temos o que aprender (e, com o tempo, ensinar).
 

Todo artista recria seus percursores.

Inclusive dá vida àqueles que passaram despercebidos pelos contemporâneos. Isso ocorre em qualquer arte. Inclusive na literatura.
 

De modo que cada intervenção criadora – cada obra ou autor novo que surge – traz na bagagem um impulso à ressurreição daqueles que o influenciaram.

Sob o crivo crítico dos poetas concretos, voltaram à cena grandes poetas brasileiros do passado.

Dentre os quais o maranhense Sousândrade (1832-1902) e o baiano Pedro Kilkerry (1885-1937).


Pedro Kilkerry
Mas há escritores (e artistas) que também apontam para o futuro e abrem perspectivas para novas tendências.

Como Edgar Allan Poe (1809-1849), que criou a literatura de mistério, a literatura policial e o poema simbolista...


O simbolismo, principal movimento de vanguarda pré-moderno, originou-se das sementes lançadas por Poe.

Fernando Pessoa (1888-1935), um dos muitos poetas modernos influenciados pelo norte-americano, notou que ele transformava a escritura em código.

Fernando Pessoa
Aliás, um dos contos policiais do norte-americano teve a trama construída a partir da estrutura do Código Morse.

A complexidade construtiva da obra de Poe é tal que sempre se descobre nela novos sinais e conteúdos ocultos.
 

Uma figura de linguagem bastante conhecida é o anagrama, muito utilizado pelos escritores barrocos.

Lida com recombinações de letras ou sinais gráficos, compondo conteúdos paralelos. Exemplos: amor/Roma, never/raven.
 

Poe foi além: criou o paragrama, figura de linguagem coincidentemente estudada por Ferdinand de Saussure (1857-1913) a partir de poemas de autores latinos.

Trata-se da repetição de fonemas ou sons de uma palavra no texto, remetendo a leituras ocultas ou subliminares muito mais complexas que o anagrama.
 

O cubofuturista russo Velimer Khlébnikov (1885-1922) utilizava o expediente de criar a partir do texto linear opções de três ou mais leituras simultâneas.

Velimir Khlébnikov

Seu conto Ka não é tão extenso, mas a concentração de significados e de opções de leitura o tornam uma obra monumental, imensa.

Estudioso de línguas, matemática e ciências ocultas, dizia que cada idioma escondia as verdades do povo que o criara.

Sua prosa e poesia são repletas de etimologias, analogias e associações para desvendar os tais “mistérios” das línguas (e dos seus povos).

O trabalho de Khlébnikov chegou a tal ponto que ele criou sua própria língua, o zaúm, a "linguagem transmental”.

A qual foi adotada por outros poetas do movimento cubofuturista e, mais tarde, por poetas dadaístas.

Clique aqui e leia a tese do brasileiro Mário Ramos Francisco Júnior sobre Khlébnikov. 

Trabalho similar ao do russo realizou outro escritor que também foi grande estudioso de idiomas: o irlandês James Joyce (1882-1941).

James Joyce
Finnegans wake, sua obra capital, mostra por meio das descrições dos sonhos como os processos da linguagem coincidem com os da realidade.

No romance, publicado em 1939, no final de sua vida, já cego, ele funde palavras em inglês com dezenas de outras línguas, buscando uma máxima concentração de significados.

O romance não é nada linear.

Sustenta-se numa multiplicidade de enredos criados a partir de numa lenda descrita por uma canção popular jocosa de origem irlandesa.
 

A qual narra o episódio de um pedreiro beberrão que despenca da construção em que trabalha.

Nos segundos enquanto cai, o bebum pensa em sua vida, nas cagadas que fez e no que deixou de fazer.
 

No romance de Joyce ocorre o contrário: trata de um personagem quem vem à tona enquanto reflete sobre a história de todos os homens, de todas as culturas e de todas as línguas.

Mas nada disso é contado de fio a pavio. Há ciclos de histórias se interagindo, qual na Divina Comédia de Dante Alighieri (1265-1321).

A estrutura construtiva de Finnegans wake baseia-se nos conceitos do filósofo renascentista italiano Giambattista Vico (1668-1744).

Clique aqui e acesse o texto original de Finnegans wake em pdf.

Vico aventou a hipótese de que as civilizações revelam a existência de períodos históricos com relativa unidade, podendo ser identificados os traços gerais de cada ciclo.

De modo que esse tipo de confrontação possa levar a uma compreensão aprofundada de determinado período, com base em aspectos melhor explicitados se comparados aos traços gerais.
 

O conceito de materialismo histórico de Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) também provém das ideias de Vico.
 

No Brasil, fragmentos do Finnegans wake foram vertidos para português por Augusto e Haroldo de Campos.

Há uma tradução da obra completa realizada pelo linguista gaúcho Donaldo Schüler.

No Finnegans wake procede toda uma anagramatização de nomes-temas redistribuída nas palavras, dando-lhes novos atributos.
 

Joyce, em sua obra, chegou a resultados similares ao do seu contemporâneo Anton Webern (1883-1945), compositor austríaco, com a klangfarbenmelodie, ou seja, a melodia dos timbres.
 

Anton Webern
O irlandês, que tinha bons conhecimentos sobre música, sequer dizia que seu último livro era um romance. Para ele, tratava-se de uma “sinfonia em prosa”.

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