sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Narrativa e crença (mesmo que cética) na literatura

As definições sobre narrativa literária normalmente estão associadas à segmentação convencional da prosa: romance, novela, conto, crônica, fábulas, etc.

Que, por sua vez, tem pouca ou nenhuma importância. Pelo menos para mim.
 

Meu livro O homem que sabia ouvir está fora desse contexto, pois mescla dois dos tipos relacionados acima: conto e fábulas.
 

Obras como Paradiso de Lezama Lima, Ulysses e Finnegans wake de James Joyce, A sangue frio de Truman Capote, idem.

Truman Capote

Mais importante que credenciar os tipos de narrativas, é entender seu encadeamento composicional...



Para melhor fixar os fios da história/intriga/enredo nas mentes dos leitores, os autores – de forma explícita ou não – repetem ações, personagens, reminiscências e outros elos constituintes de significados.
 

Mas essa é uma questão sinuosa.

Tais pegadas (ou sinais) não podem tornar a coisa tão digerível.

Afinal, toda obra deve também se constituir num jogo, no sentido de ter significados ocultos que levem o leitor a desvendá-los e, assim, a experimentar.
 

Quem melhor teorizou a esse respeito foi o escritor e crítico italiano Umberto Eco em seu importante livro Obra aberta, de 1962.

Uma das maneiras de fixar as pegadas da narrativa é por meio de conflitos entre ações e personagens. 

As tramas das telenovelas se sustentam por meio dessas iscas eficazes. É o que mantém milhões de telespectadores ligados ao óbvio besteirol todos os dias.
 

Outra forma de amarrar os fios da trama é expô-la por amostragens gradativas, com as ações se desvendando passo a passo.

Um recurso comum à literatura policial.

Há, ainda, o formato simultâneo: duas ou mais ações ocorrendo paralelas e, aos poucos, os fios vão se juntando.

É o que ocorre no Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes, e em Cem anos de solidão, de García Márquez.
 

Sancho Pança e Dom Quixote por Gustave Doré (1832-1888)
Tais associações construtivas não se dão apenas por meio da trama.

Muitas vezes ocorrem a partir de associações com intrigas secundárias, falsas até, ou mesmo de formulações de linguagem.

Esta última opção foi a adotada por Joyce para delimitar cada parte do seu Ulysses.

Todas, de passagem, vinculadas à Odisseia de Homero.


Mas em lugar de prendê-las a associações óbvias, o escritor irlandês utilizou diferentes estilos e formas de narrativas para estabelecer conexões com os episódios e personagens da obra de referência.

As técnicas de narrativa são diversas na literatura. Graças a Deus! Do contrário esta já seria uma arte extinta.

Existem, no entanto, formas preponderantes.

Uma delas: o narrador é sujeito da ação, ou seja, é protagonista ou faz parte dela.

Outra: o narrador é um observador oculto ou isento; assim sendo, mantém posição cômoda de não se envolver com a ação.

O discurso narrativo pode ser objetivo (constata as coisas como tal se deram) ou subjetivo (mantém distanciamento crítico).

Há estilos narrativos panorâmicos (que procuram contextualizar, dar uma ideia geral de ambientes, épocas) e cênicos (mostram a ação sem quaisquer pré-requisitos, crua, como se o narrador e o leitor fizessem parte dela).

O último Bertolt Brecht (1898-1956) coincide, em prosa/drama/versos, com o último Dylan Thomas (1914-1953).

Bertolt Brecht
Ambos experimentaram composições inspiradas na literatura oriental, sobretudo no tocante à justaposição ideogramática.
 

Antes deles, Ezra Pound (via Ernest Fenollosa), o cineasta Serguei Eisenstein e seu contemporâneo Velímir Khlébnikov já haviam se nutrido dessa mesma literatura e da sua escrita.

A narrativa ou formas construtivas inspiradas nos idiomas chineses (mandarim e cantonês) e no japonês, todos ideogramáticos, se entranharam na literatura brasileira na primeira metade do século XX.

Primeiramente por meio do poeta pernambucano Manuel Bandeira, o primeiro a transpor para o português poemas de Matsuo Bashô (1644-1694), e do poeta gaúcho Mário Quintana.

De maneira mais efetiva, os haicais (gênero do qual Bashô foi um dos mestres) se popularizaram entre nós por intermédio de Millôr Fernandes, dos poetas concretos (via traduções de Ezra Pound) e do poeta paranaense Paulo Leminski.


Paulo Leminski

Mas a contribuição crítica mais efetiva entre nós sobre a escrita ideogramática foi do poeta concreto Haroldo de Campos, que organizou o livro Ideograma: lógica, poesia e linguagem.

A obra reúne textos de diversos autores que analisaram a escrita ideogramática, particularmente a chinesa, sob o ponto de vista da linguística, semiologia, da teoria literária e da filosofia.

Haroldo escreveu sobre Fenollosa, cujo estudo também foi incluído na coletânea, ressaltando a contribuição do filósofo e orientalista à poética, em conjunção com a obra de Saussure (criador da linguística) e Charles S. Peirce (o criador da semiótica).

Em outro artigo, o cineasta russo Serguei Eisenstein (1898-1948) questiona a relação dos ideogramas chineses com a montagem cinematográfica e o teatro.

Serguei Eisenstein
Por fim, completam a edição três ensaios de Chang Tung-Sun, Yu-Kuang Chu e S. I. Hayakawa sobre filosofia, lógica e estrutura da linguagem.

Outras obras interessantes sobre a estrutura da lógica narrativa:

A personagem de ficção – de Antonio Candido, Anatol Rosenfeld, Décio de Almeida prado e Paulo Emílio Sales Gomes.

Análise estrutural da narrativa – reúne textos de Tzvetan Todorov, Umberto Eco, Roland Barthes e outros mestres do estruturalismo.
 

Teoria da literatura – de René Wellek e Austin Warren.

Mas o show maior para quem quer conhecer as possibilidades narrativas a fundo é o romance Ulysses, de James Joyce, na tradução nacional de Antonio Houais (as outras duas versões para o português são sofríveis).

Sugestão: leia Ulysses duas vezes. A primeira, numa tacada, para experimentar as sensações e dúvidas que a obra possa lhe inspirar.

O romance é complexo e todas as suas ações se passam em único dia. Se você levar semanas ou meses para lê-lo, não entenderá patavina.

Terminada a primeira leitura, tua cabeça ficará repleta de interrogações.

Então leia dois livros esclarecedores: a autobiografia do autor escrita por Richard Elmann e o excelente livro Homem comum enfim, de Antonhy Burgess.

E então faça uma segunda leitura de Ulysses para ampliar seus horizontes sobre a obra e o que ela representa.


Antonhy Burgess
Joyce é o mais importante escritor ocidental depois de Dante Alighieri (1265-1321). Para quem se dispõe a escrever algo que valha a pena, é preciso conhecera ambos.

É como a Bíblia, a Torá e o Corão para quem crê em Deus.

No nosso caso, não dá para crer (ou descrer) em literatura sem saber por que diabo Dante e Joyce existiram.

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