domingo, 24 de novembro de 2013

O homem que não pôde chegar lá

Nos anos 1940, Ed Crane (interpretado por Billy Bob Thornton) é um barbeiro infeliz, que vive com sua esposa Doris (Frances McDormand).

Ao descobrir que ela o está traindo, planeja uma trama de chantagem, a fim de lhe dar uma lição.

O plano vai por água abaixo, com uma série de consequências desagradáveis, incluindo assassinatos.

Somado a tudo, entra na vida do homem uma ninfeta interpretada por Scarlett Johnsson, pela qual se apaixona e passa a cometer uma sequência de asneiras.

O homem que não estava lá (2001) é um dos melhores filmes dos irmãos Joel e Ethan Coen.

Corpo estranho da música popular brasileira – qual o gaúcho Joaquim José Maria Qorpo Santo para a dramaturgia – com Sérgio Sampaio (1947-1994) foi diferente: por mais que tenha tentado, não pôde estar lá.


Sampaio (à direita) com Jards Macalé

Muito do que produziu se perdeu. Parte de suas composições se encontra em cinco álbuns e vários compactos (formato de gravação hoje inacessível no Brasil).

Algumas de suas canções também receberam gravações esparsas de amigos...



Era da mesma cidade de Roberto Carlos, Cachoeiro do Itapemirim (ES). Seu pai, Raul Sampaio, também foi um bom compositor.

Com ótimo repertório de berço sobre música popular, e sempre bem informado sobre o que rolava na música internacional, começou a carreira comandando programas de rádio. Em Cachoeiro, depois no Rio.

Na capital fluminense conheceu Raul Seixas, então produtor da gravadora CBS. O baiano ainda não tinha carreira solo, mas compunha canções água-com-açúcar para estrelas da jovem guarda.

De imediato, Raul viu em Sérgio uma promessa para a música brasileira e convenceu a gravadora a contratá-lo.

Mas as relações de Raul e Sérgio com a CBS duraram pouco.

Em 1971, os dois, juntamente com Edy Star e Miriam Batucada, gravaram um dos discos mais anárquicos e debochados da música popular brasileira: o Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez.


Edy Star, Sampaio (no alto), Miriam Batucada e Raul

Raul perdeu o emprego e Sérgio o contrato.

O disco traz uma sucessão de escrachos musicais, com pastiches de rock, samba e ritmos nordestinos, entremeados por letras sarcásticas, piadas e sátiras ao cotidiano em forma de vinhetas malucas.

Seu prestígio voltou quando, em 1972, no Festival Internacional da Canção, apresentou Eu quero é botar meu bloco na rua. No coro estava o amigo Raul Seixas, no violão o ótimo Renato Piau, que mais tarde seria o músico de apoio de Luiz Melodia.

Em 1973, sai seu primeiro LP pela gravadora Philips, com produção de Raul Seixas, tendo como título a música de maior sucesso.

Mas como os interesses musicais de Sérgio eram múltiplos, o álbum tinha muita diversidade para o gosto do mercado: marcha rancho, blues, rock, chorinho, samba, xote e até uma valsa. Algumas canções tocaram em rádios, mas vendeu pouco.

A veia debochada de Sérgio volta em 1974 com o compacto Meu pobre blues/Foi ela, com ironias ao conterrâneo e então ídolo da juventude Roberto Carlos.

Daí por diante suas canções foram gravadas por diferentes intérpretes, dentre eles Erasmo Carlos, mas sua própria carreira foi empacando. Em 1977 grava pela Continental o também irregular LP Tem de Acontecer.

Mas a gravadora reteve o lançamento do disco.

Em 1982 lança o LP independente Sinceramente. Um trabalho denso e confessional, enfocando ao mesmo tempo as diversas facetas pessoais e artisticas.

A década de 1980 foi ingrata para o compositor: nenhuma música no rádio, magros direitos autorais e escassos shows, quase sempre em bares e sem nenhuma cobertura da mídia.

Na vida pessoal, o alcoolismo minava suas forças. Ainda assim, continuou compondo regularmente e cada vez melhor.

Passou a residir em Salvador (BA), onde tocou em bares. Foi forçado a deixar a birita e conseguiu voltar a fazer shows, um deles com Luiz Melodia.


Com Luiz Melodia

Em 1994, morreu pelo mesmo motivo que levou seu amigo Raul Seixas: a pancreatite.

Somente em 2006 foi lançado o CD inédito Cruel, produzido por Zeca Baleiro, com 12 canções inéditas de Sérgio Sampaio, interpretadas por ele em gravações caseiras remasterizadas.

Querem ouvir seus discos? 

Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das Dez (1971), com ele, Raul Seixas, Edy Star e Miriam Batucada. 

Eu quero botar meu bloco na rua (1973). 

Tem de acontecer (1976). 

Sinceramente (1982). 

Cruel (2006):

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