quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Por que escrever?

O escritor carioca Raphael Draccon, autor da série de fantasias Dragões do éter, que teria vendido mais de 200 mil exemplares, declarou recentemente: "A era dos escritores intimistas acabou".

Segundo ele, esta é a pergunta que qualquer candidato a escritor deve se fazer é: “O que eu ofereço para a editora além da minha obra?”.

E arremata: "É preciso que sua história de vida e sua personalidade sejam tão impactantes quanto a fantasia que você criou".

Ou seja, mais do que boa literatura, ele acha que o escritor tem de saber se vender.

Suas declarações vieram a público em agosto último, durante a 16ª Bienal do Livro do Rio.

O curioso é que Draccon se referia a Rubem Fonseca, um dos poucos autores razoáveis que ganham algum dinheiro com literatura no país.

Mas para Draccon, não há mais espaço para "escritores intimistas" como Fonseca.


Rubem Fonseca

Sem problemas. Na hora da xepa é assim mesmo: berra-se alto para vender seus peixes de qualidade duvidosa...



Cá para nós, que não somos tão fantasistas, o que leva um sujeito a se meter nesse poço sem fundo que é a literatura?

Por prestígio é que não deve ser, pois há caminhos menos ásperos para conquistá-lo, que exigem muito menos de cada um de nós.

Relativo às potenciais possibilidades de ganhar dinheiro, creio que escritores como Raphael Draccon podem falar com mais propriedade a respeito. 

Na minha ignorância de candidato a "intimista", acho que mesmo nos EUA, que têm mercado editorial bem mais consistente que o nosso, há vários meios bem mais promissores para enriquecer que a literatura.
 

Evidente que não busco aqui uma resposta conclusiva à pergunta inicial. Aliás, não acredito em respostas e opiniões conclusivas sobre coisa alguma.

Quando muito o propósito deste blog (e da oficina nele hospedada) é induzir a uma revisita à consciência, aos fatores mais subjetivos que levam uma pessoa a escrever.

Assim como a tocar, cantar, dançar, interpretar, fotografar, filmar, enfim, pintar o sete.
 

Para começar, suponho que você (como eu) não seria tal como se sente se não fizesse uma ou mais dessas coisas.
 

Escrever é optar por uma maluquice prazerosa em alguns momentos, mas muito trabalhosa noutras. E de longa, longa duração.

Lida-se com algo que sempre beira a imperfeição. O trabalho é cerebral e você pode cair fácil no canto da sereia. Vide as generalizações do Draccon.
 

Pior: nem tem como dividir suas dúvidas com as pessoas.
Não você queira guardar em segredo.

Ocorre que a coisa toda, se tocada ao pé da letra, demora um bocado. Na maior parte das vezes leva anos. E não há cristo que suporte você falando daquilo o tempo todo.
 

Então tem que fazer o contrário do que sugere o autor carioca citado: aceitar que é um "intimista" crônico e que não tem mais o que oferecer às editoras senão sua capacidade de produzir na solidão.

E como é difícil compartilhar o ofício!

Gilleuze e Guattari, como já vimos, foram bem-sucedidos trabalhando juntos. Jorge Luis Borges (1899-1986) e Adolfo Bioy Casares (1914-1999) também.

Os beats tentaram, mas o máximo que conseguiram foi fazer sexo e muita farra juntos.


Borges e Casares

Quanto à forma de trabalhar, parte-se do quê?

Normalmente se tem o insight de fazer algo. Uma ideia! Mas a forma e a elaboração difere muito entre os autores e, inclusive, de uma para outra obra do mesmo autor.

Em linhas gerais é mais ou menos o papo paradoxal do Gilleuze: parte-se do problema para a solução ou da solução para o problema.

O que se faz em meio a tudo é que são elas.
 

Marcel Duchamp (1987-1968), entre a ironia e o deboche, era mais radical: não há solução porque não problema.

Acredito que, quanto aos procedimentos produtivos, há duas direções díspares: uma no sentido de colher mais e mais informações, experimentar, ousar, e outra no de procurar objetividade, definir a forma, os alicerces construtivos.
 

Este segundo viés é o mais complexo. Por onde você tem que refletir mais sobre o que faz, fez e deseja fazer.

Dá-se nesse meio de campo um autoexame do que você é de verdade e do papel que insiste em representar.

Se você não é um tipo como o Raphael Draccon – e torço muito para que não se seja – evitará se repetir, plagiar sicrano e beltrano.

Enfim, desejará com sinceridade fazer com que a literatura evolua.

Como grande ou pequeno autor, você tem de ter consciência de que teu trabalho é uma manchinha a mais no contexto da literatura maior, de todos os tempos, de todos os povos e em todas as línguas.
 

Não se trata de modéstia ou de postura demasiado ética, ideológica até. Muito menos de se ater à divisão idiota entre o que é literatura de verdade e o que é literatura comercial.

Afinal, muitos dos escritores que venderam livros levaram esses dilemas mais a fundo do que alguns que têm o falso pudor de dizer que não são comerciais.
 

Dostoiévski, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Euclides da Cunha, Flaubert, Anthonhy Burgess, Willian Faulkner, Raymond Chandler...
 

Todos estes, cada qual a seu modo, foram supimpas e colaboraram para elevar a produção literária.
 

Para responder a tais dilemas é preciso se manter em constante formação.

Deixar-se influenciar por tudo que rola e absorver o que for essencial.

Essa é a lógica da antropofagia de Oswald de Andrade (1890-1954).

Oswald de Andrade

Mas só se consegue devorar o que é mais interessante quando se tem boa base para assimilar, questionar, acolher, recusar.

Não dá para adquirir conhecimentos sobre literatura tomando substâncias ilícitas nas veias. É preciso ler, escrever, depois ler mais e escrever mais. Aprender com os erros. Etc.
 

Não conhecer escritores como James Joyce, Marcelo Proust, Stéphane Mallarmé, Ferdinand Céline, Ezra Pound, Fernando Pessoa, Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, Maiakóvski, entre outros, é o fim da picada.
 

Não conhecer estudos básicos para clarear essa enrascada na qual você se meteu é também uma tremenda bobeira.
 

Entram nessa esteira a linguística de Saussure, o formalismo russo (em especial o de Roman Jakobson), o estruturalismo (que absorveu aspectos da linguística e do formalismo) e a semiótica de Peirce.
 

Roman Jakobson
Conhecer outras línguas só irá ampliar tua capacidade de se expressar por meio daquela na qual escreve.
 
Já que responder à pergunta sobre o sentido de escrever não é fácil, podemos tentar refazê-la: qual o sentido da obra?
 

Como você já tem noção de que faz parte de algo maior – a grande ou pequena literatura comum a todos – há de convir que tudo que produzir tem de vir de algo e servir para algo.

É ilusão achar que o que é de sua autoria terá existência própria, independente. Tudo que vem de você provém de um universo já existente e a ele há de se somar.
 

O homem que sabia ouvir é um romance em formato híbrido: constituído por fábulas (acerca do que ocorreu) sustentadas por um conto (o assunto por meio do qual o leitor toma conhecimento do que se deu).

Nas semanas subsequentes este blog abordará, como subsídio à oficina Acompanhando o autor, aspectos relativos às formas de narrativa, de discurso, entre outros.
Enfim, o feijão com arroz do ofício. 
 

Claro que nada disso é garantia de que você chegará a algo. Teu esforço produtivo envolverá questões muito mais complexas, muitas delas impossível de serem conceituadas.

Mas já que decidiu que quer carregar essa cruz, pelo menos é preciso sentir a consistência e o peso da sua parte mais palpável.

Nenhum comentário:

Postar um comentário