sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Por uma literatura menor

O arquiteto Pedro Manuel Rivaben Sales enviou para este blog uma bela dica de leitura: o livro Kafka: por uma literatura menor, de Gilles Deleuze (1925-1995) e Félix Guattari (1930-1992).

A versão por ele sugerida é a da Editora Imago, com tradução de Júlio Castañon Guimarães, de 1977.

Os franceses Deleuze e Guattarri estão entre os livre-pensadores mais influentes de meados do século XX para cá.

Deleuze e Guattari em foto de 1970
As principais obras por eles co-assinadas: Anti-Édipo, a série Mil Platôs e O que é a filosofia?.

O livro sobre Kafka foi o segundo trabalho em comum...

Conheceram-se no marcante ano de 1968.

Deleuze já era filósofo e crítico literário reconhecido. Amigo do psicanalista e pensador Michel Foulcault e do filósofo e escritor Michel Butor, do noveau roman francês.

Guattari também já era conhecido, por suas ideias como psicanalista e por sua atuação política, embora sem vínculos com organizações partidárias.

A afinidade intelectual foi imediata e, ao longo dos anos, desenvolveram conceitos fundamentais abrangendo áreas diversas.

Notadamente: cultura, história da filosofia e psicanálise.

Embora seus nomes sejam hoje indissociáveis, não eram amigos. Tratava-se de uma parceria intelectual. Até os amigos em comum eram poucos. Fora das sessões de trabalho, raramente se viam.

Durante as três décadas de colaboração, continuaram a desenvolver atividades próprias. Inclusive publicaram obras individuais. Ou seja, apesar de se complementarem, um não existia em função outro.

Trabalhavam sem regras precisas. Geralmente Deleuze, após sucessivas conversas (que costumavam gravar), apresentava uma nova proposta.

Guattari dava seus pitecos para formalizá-la e devolvia ao filósofo, que desenvolvia um primeiro esboço. Nas idas e vindas, o livro ia aos poucos se consolidando, até ser dado por concluído.

Deleuze:

“Dois elementos intervêm no nosso trabalho. Ou temos um problema sobre o qual estamos vagamente de acordo e procuramos soluções capazes de precisá-lo, localizá-lo, condicioná-lo. Ou então, encontramos uma solução, mas não sabemos muito bem para qual problema e nos empenhamos a descobri-lo.”

Na última década do século XX, os pulmões de Deleuze, afetados por um câncer, funcionavam com a ajuda de aparelhos.

“A função do homem é pensar e produzir novas formas de vida”, dizia. Ou seja, viver é poder trabalhar. Como já não podia, em novembro de 1995 atirou-se da janela do seu apartamento em Paris.

Três anos antes já havia perdido seu parceiro.

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