sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Rio acima, sertão adentro, mar afora

Canto falado sobre solidão e frustrações amorosas.

Música de revolta, amarga, intimista, contra a realidade desfavorável, o preconceito, a violência e o estigma da miséria.

Tudo sob batidas básicas, repetitivas, de três a quatro acordes.


Dizem que veio das cantorias de negros escravos, enquanto trabalhavam nas plantações de algodão.


Inicialmente na forma de lamentos com conteúdos religiosos.

Depois migrou para as bodegas, puteiros e espeluncas para negros na periferia urbana e incorporou também conteúdos profanos.

Foi mais ou menos da mesma forma que surgiu o tango.


Em  ambientes similares nas cercanias de Buenos Aires, onde se reuniam imigrantes pobres expulsos da Europa e migrantes expulsos pelo êxodo rural das províncias platinas.

Também foi mais ou menos assim que surgiram os lamentos sertanejos no Brasil, por meio de artistas também forçados a migrar para os centros urbanos.


Primeiro para as capitais nordestinas e, depois, para Rio e São Paulo. E sempre saudosos das coisas de suas terras.

Luiz Gonzaga foi o principal deles. Algumas de suas belas canções são na forma de lamentos: Pau de arara, Assum preto e Asa branca.




Mas o blues, tema deste tópico, teve um poder de penetração maior. É hoje tocado e cultuado em todo o mundo, inclusive no Brasil...



O blues está na raiz de todos os gêneros de música popular norte-americana, em especial no jazz, no rock e no country.

Por que um dos seus points em Campinas se chama Delta Blues? Porque a coisa toda se originou pelo delta do Mississippi, na Luisiana.


Mas foi subindo rio acima, do litoral para o interior.


Depois de alcançar quase todo o país, extrapolou as fronteiras, se introjetou também na música popular inglesa e foi para o mundo todo.

Inclusive de volta aos países africanos, de onde saíram os antepassados dos seus inventores.  

Na subida rio acima, no início, disseminou-se pelo Texas, Arkansas, Missouri, até chegar a Illinois, às margens dos Grandes Lagos.


Seu primeiro grande berço urbano foi New Orleans, ainda no delta.


O segundo foi Memphis, rio acima, onde deu origem a um dos principais núcleos de criação do rock’n’roll.


O qual teve como expoentes Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Johnny Cash.

Por fim, atingiu sua principal metrópole – Chicago – onde foi tão bem aceito que músicos sulistas, segregados pelo racismo e miséria, para lá migraram.


Dali se espalhou e foi determinante para a revolução na música popular internacional capitaneada pelos grupos de rock a partir dos anos 1960.


É mais ou menos o que houve no Brasil com o samba. Nasceu lá na Bahia, mas se configurou como identidade nacional (e internacional) no Rio de Janeiro.


As origens do blues remontam às primeiras levas de escravos africanos trazidos para trabalhar nas lavouras de algodão sulistas.


Martin Scorcese, em seu documentário From Mali to Mississippi, tentou traçar tal trajetória.

O link abaixo provém de uma exibição do documentário na rádio e televisão estatal italiana:  

 

O filme traz depoimentos e performances dos malineses Ali Farka Touré e Saif Keita, do senegalês Habib Koité, dos norte-americanos Taj Mahal, Corey Harris e Othar Turner.


Como nosso samba, o blues veio à tona com o surgimento do mercado discográfico e os avanços do rádio.


Mas há depoimentos que atestam que na segunda metade do século XIX o gênero já era popular nos bares e prostíbulos para negros do Mississippi.


O violonista branco Hart Wand foi o primeiro músico a gravar um blues – The Dallas blues – em 1912.


Mas quem tirou o gênero dos guetos para valer, exercendo um papel à altura de Carlos Gardel para o tango, foi o trompetista Willian Christopher Handy (1873-1958), um filho de ex-escravos do Alabama.


Dentre as mulheres, a primeira a gravar um blues foi Mamie Smith, com seu Crazy blues, em 1920.


Na sequência, veio a primeira grande estrela do gênero: Bessie Smith (1895-1937). Seu primeiro sucesso, Downhearthed blues, é de 1923.


Mas a grande guinada para a sofisticação desta música de origem rural se deu no Texas, quando um produtor musical gravou 29 canções de um sujeito chamado Robert Johnson.


Foram realizadas 40 gravações em duas sessões – ambas em quartos de hotéis –, sendo a primeira em San Antonio, em novembro de 1936, e a segunda em Dallas, em junho de 1937.


Treze músicas foram gravadas duas vezes por Johnson, com arranjos distintos.


A depuração construtiva realizada por Johnson com o blues foi similar à de João Gilberto com o samba.


Embora tenham sido gravações precárias, denotam que era excelente guitarrista, intérprete de primeira e ótimo letrista, dos melhores que o gênero revelou até hoje.


Quer ouvi-lo? Clique aqui.

A ideia do produtor que promoveu as gravações era levá-las como demos para convencer seu manager a investir para valer na carreira de Johnson.

Antes que as negociações chegassem a termo, em 1938 Johnson morreu em Greenwood, Mississippi, provavelmente em decorrência da sífilis.


Há quem diga que tenha sido assassinado. Mas há também quem diga que sua excelente técnica decorre de um trato que o compositor teria feito com o Diabo.

Bobagens do tipo fazem parte da história de qualquer mito.

O certo é que as gravações de Johnson modificaram o estilo de execução do blues, exigindo dos novos músicos mais técnica, riffs mais elaborados e maior ênfase no uso das cordas graves para criar um ritmo regular.

Entre os músicos ingleses e norte-americanos é bobagem citar os que foram influenciados por Johnson. Na verdade, o difícil é citar um que não foi.


Desde então o blues tem exercido grande predominância na música popular ocidental de maneira geral.


No Brasil, há os que se destacam pela fidelidade ao gênero no seu formato de raiz, como o guitarrista Nuno Mindelis.


Mindelis chegou a gravar com o grupo do grande guitarrista texano Stevie Ray Vaughan, o Double Trouble.


A seguir, um vídeo com pequena amostra do quanto Stevie era bom:




Mas a influência do blues pelo Brasil também transita pelos gêneros nacionais.

Sérgio Sampaio, por exemplo, chamava suas lindas canções Em nome de Deus e Que loucura de blues.

E não são? Ouça uma delas para conferir:
 



No final dos anos 1930 e início dos 1940 surgiram as primeiras grandes bandas de blues norte-americanas.

E as primeiras gravações com guitarra elétrica, de T-Bone Walker.

Iniciou-se também no período a intensa migração de músicos do delta para Chicago, em busca de oportunidades, bem como para fugir da repressão e das condições de vida precárias no sul.


Na grande cidade do norte surgiu a figura mais influente do blues depois de Johnson: Muddy Waters, cujo letrista era o ex-boxeador, compositor, baixista e cantor Willie Dixon.


Waters foi o primeiro músico a eletrificar todos os instrumentos de sua banda.


A seguir, vídeo com Waters e grupo apresentando a canção Manish boy:



Seu estilo e as letras barra pesada de Dixon influenciaram todas as bandas importantes do rock’n’roll: Doors, Beatles, Yardbirds, Rolling Stones, entre outras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário