terça-feira, 31 de dezembro de 2013

ó tu, bem-amada dos meus vinte e sete sentidos, amo-te!
tu teu tu a ti eu a ti tu a mim – 
Nós?
isso (diga-se de passagem) não é nada disso
quem és tu, infame fêmea efêmera? tu és – és tu?
há quem diga que Dervas ser e soar como Sol – deixa-os dizer, os que nada sabem
que o sino do campanário clama insano por só estar de pé
trazes um chapéu nos pés e andas a posar com teus cabelos tentáculos
nas outruras
mãos, mãos com as quais demandas e andas
olá roupas vermelhas serradas como justas pregas brancas. ainda assim vermelhas
te amo, Ana Flor, vermelha a ti amo – tu teu tu a ti eu a ti tu a mim –
Nós?
isto (diga-se de passagem) só acende ao fogo misto
vermelha flor, vermelha Ana Flor, ânus que se fezes gente
tema de qual curso:
1. Ana Flor tem um passarinho?
2. Ana Flor é vermelha?
3. De que cor é o passarinho?
azul é a cor do teu cabelo adourado
vermelho é o arrulho da tua vulva verde
tu, convertida ao vestido de todos os dias, tu querida verde
criatura, me atura
 amo-te – tu teu tu a ti eu a ti tu a mim –
Nós?

O poema acima, An Anna Blume (A Anna Flor), é de Kurt Schwitters (1887 – 1948), um dos fundadores do movimento Dadá em Berlin, com Tristan Tzara (1896-1963) e Hans Arp (1886-1963), na primeira década do século XX.

Trata-se de um versão livre, com o propósito de reproduzir, na medida do possível, o tom agressivo, mordaz, e ao mesmo tempo ingênuo, bem como os vários sentidos paralelos de cada verso jocoso, com numerosos trocadilhos e jogos de palavras.


Schwitters é o autor de um dos exemplos pioneiros de poesia sonora, com sua Ursonate (1922 a 1932, em várias versões), que executou e ampliou ao longo dos anos.

Ouça uma das versões da "sonata primordial" gravada pelo autor:



Antecipou as intervenções/happenings/performances ou qualquer outro nome que se queira dar a esses improvisos cênicos em ambientes diversos surgidos ao longo do século XX.


Consolidou a arte da colagem/pintura (com diferenciadas técnicas), a propaganda como arte e antecipou a op art e a pop art.


Missionário que pregava quadros
Artista de muitas técnicas, foi poeta, prosador, dramaturgo, crítico, ensaísta, teórico, pintor, escultor, arquiteto, editor, ator, artista gráfico, design, publicitário, agitador cultural.

Retratar sua obra, mesmo que para espaços limitados, como o deste blog, deixa a sensação de ter esquecido algo importante.

Sua obra tem de ser vista como um conjunto de produções variadas, sempre vinculada à sua experimental concepção estética Merz...

Um dos mais longos casos de censura a uma obra de arte no Brasil teve início no dia 26 de outubro de 1976.

Quando soube da morte do pintor Di Cavalcanti (1897-1976), o cineasta Glauber Rocha emprestou uma câmera do colega Cacá Diegues, chamou o ator Joel Barcelos e foi ao funeral homenagear o amigo.

O registro resultou no documentário Di-Glauber.

O filme estreou juntamente com o longa Cabeças cortadas, em 11 de março de 1977, na Cinemateca do MAM.

Logo após a primeira sessão, a filha adotiva do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti, iniciou sua batalha para proibi-lo.

Em 1979, a 7ª Vara Cível concedeu liminar a um mandado de segurança impetrado por Elizabeth, vetando a exibição do filme. A decisão vale até hoje.

Felizmente, o filme pode ser visto pela internet:


Di-Glauber resultou de um acordo entre Di e Glauber.

Na década de 1970, num encontro em Paris, os dois combinaram que quem morresse primeiro registraria a imagem do outro.

Se Glauber batesse as botas, seria pintado por Di, se este fosse primeiro, como ocorreu, seria filmado pelo cineasta.

Quando soube da morte do amigo, o cineasta o cumpriu à risca: registrou as últimas imagens do artista plástico...

Anos 1980 em São Paulo.

Rolava a música de vanguarda no Lira Paulista e em outros espaços de São Paulo. Não só lá, no Lira, ressaltei isso em artigo postado na edição anterior.

E também havia outras feras, além das da música, que buscavam seus elos de vanguarda no período. No teatro, os grupos Ornintorrinco, XPTO, Verdadeiros Artistas e outros.

Grupo Ornintorrinco

Um pouco antes, mas ainda em atividade no período – inclusive nos palcos paulistas  –  havia o bom Asdrúbal Trouxe o Trombone do Rio.

Assisti em São Paulo a uma ótima montagem gaúcha de O que mantém o homem vivo, com trechos e músicas de várias peças de Bertolt Brecht (1898-1956) organizados por Renato Borghi e Esther Góes.

Teatro político, sim, mas sobretudo ótimo teatro e não porcarias panfletárias.

Provavelmente essa montagem bolada por Renato e Esther inspirou Rumo a Mahagony, do Ornintorrinco, que também é um apanhado de coisas de Brecht, sobre a qual trata o vídeo a seguir.



Os grupos de vanguarda daquela época batalhavam solidários uns com os outros, sem prepotência, sem estrelismo brejeiro, sem concorrência.

Havia constante trocas de informações. Uns iam aplaudir aos espetáculos dos outros...

O Calendário Pirelli de 2014 traz para as borracharias de todo o país o sofisticado erotismo das lentes do fotógrafo alemão Helmut Newton (1920-2004).

Helmut Newton
É uma edição comemorativa aos 50 anos do calendário.

Presente de aniversário dos bons. Embalado em um pacote de tamanho extra-large, a nova edição da folhinha tem fotos inéditas realizadas por Newton em 1986.

Veja uma pequena mostra no vídeo a seguir:




Newton teve uma profissão por muitos invejada: fotografar mulheres lindas, da forma que bem entendesse...

A modinha Maria Bethânia foi uma canção muito popular nos anos 1940, na voz de Nelson Gonçalves.

O menino Caetano ouvia sua mãe, Dona Canô, cantá-la enquanto cozinhava na casa deles em Santo Amaro da Purificação (BA). Quando nasceu uma das irmãs pediu aos pais que pusessem o nome da canção.

A seguir a gravação que deu nome à cantora Maria Bethânia, composta pelo pernambucano Capiba (1904-1997).


Capiba é um dos maiores compositores de frevo. Há mais de 100 de sua autoria e pelo menos 20 que são de domínio público.

Ou seja, quando tocam nos carnavais pernambucanos, pessoas de diferentes gerações os conhecem.

Alguns de seus sucessos, que fazem o público pular ainda hoje, têm mais de cinquenta anos:

É de amargar (1934), Manda embora essa tristeza (1936), Júlia (1938), Gosto de te ver cantando (1940), Morena cor de canela (1948), Deixe o homem se virar (1952), Que é que eu vou dizer em casa (1956) são alguns dos seus frevos mais populares.


Capiba
O hino da capital pernambucana – Recife, cidade lendária – é de Capiba.

O compositor veio de uma família de músicos da cidade de Surubim, no interior de Pernambuco. Seu pai era professor de piano. Todos os irmãos tocavam algum instrumento.

Quando jovem, Capiba tocava piano em filmes mudos de um cinema de Campina Grande (PB).

Na época, os cinemas não tinham sistema de som. Os filmes vinham com partituras e era preciso ter músicos para tocá-las ao vivo enquanto a fita era exibida...

Diferente dos EUA e Inglaterra, cuja música popular é integrada e se renova ora de um lado ou do outro do oceano, Brasil e Portugal mantêm tradições distintas.

A música popular portuguesa, muito rica para um país de tão diminutas dimensões territoriais, tem maior intercâmbio com as ex-colônias africanas, sobretudo a pujante Cabo Verde.


Nesta os intérpretes e compositores também incorporaram influências da música popular brasileira, sobretudo a urbana do Rio de Janeiro.

O fado, principal gênero da música popular portuguesa, é tradicionalmente interpretado com certa afetação.


Esse exagero lhe é inerente.

Alfredo Marceneiro
Ao cantar um fado o intérprete parece jorrar tudo que tem de recalcado para fora.


As próprias letras trazem esse impulso d’alma.

Até o instrumento tradicionalmente utilizado – a guitarra portuguesa, que tem seis pares de cordas – soa com tal latência.

A simplicidade da estrutura melódica do fado valoriza a interpretação vocal.


Com forte pendor evocativo, a poesia do fado apela à comunhão entre intérprete, músicos e ouvintes.

Em quadras glosadas, quintilhas, sextilhas, decassílabos e alexandrinos, sua poesia popular evoca os temas ligados ao amor, à sorte e ao destino individual, à narrativa do cotidiano da cidade...

Quando criança, na zona rural, não tínhamos nada.

Morava numa casa de sítio com a família. Não éramos pobres. A zona rural brasileira é que era assim. Não tínhamos Natal, feriados, presente de aniversário, nada do nada.

O único meio de comunicação mais ou menos constante era o rádio (de pilha). Ainda não havia energia.
A televisão chegou com a energia, lá pelos anos 1970. Mas eu já me encontrava fora.

Vez em quando meu pai ia à comarca, de onde trazia gibis, revistas, jornais, romances populares e as poucas novidades que encontrava por lá.

A comarca era também uma cidadezinha mirrada.

Havia um vilarejo rural próximo de casa – a cerca de um quilômetro do sítio – aonde ia ouvir os papos furados dos bebuns.

Não bebia, claro. Ainda não! Ficava por lá assuntando as conversas maliciosas dos pingaiadas. Era o que havia, para mim, de mais avançado naquela época.

Meu pai e meu avô também eram ótimos contadores de histórias. Adorava ouvi-los. Repetiam causos que eu já conhecia, mas sempre com uma nova versão.

Ouvi dezenas de vezes meu pai contar a história de uma onça que ele supostamente teria matado. Cada vez era um enredo diferente. Essa onça decerto nunca existiu, a não ser na imaginação dele.

O livro ora publicado – O homem que sabia ouvir – traz muitas das histórias que ouvi naquela época, lógico que formatadas com alguma sofisticação narrativa, condizente com a estrutura e linguagem propostas.



Mas, basicamente, o livro é isso: literatura escrita proveniente de literatura oral...

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Quase ninguém sabe quem foi Henrique do Valle.

Poeta barra pesada que se foi em 1981, com apenas 23 anos. 

Nasceu no Rio de Janeiro, mas sua formação se deu na Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul.
 

Viveu pouco, mas teve produção madura precoce.
 
Uma das poucas imagens de Henrique do Valle

Com apenas 14 anos, em 1972 publicou em Buenos Aires La espesa verdad. Em 1979, já em Porto Alegre, mais dois livros: Vazio da carne e Anotações do tempo.
 

Filho do jornalista de esquerda João Moura Valle e sobrinho de João Goulart, cresceu no exílio.
 

Mas seu exílio não era político, era interno. Os impulsos autodestutivos o levaram muito cedo.

Como Torquato Neto, vivia num entra e sai de internações em hospitais e clínicas psiquiátricas...
De 1979 a 1986, na rua Teodoro Sampaio, Pinheiros, São Paulo (SP), em frente à praça Benedito Calixto, existia um dos points onde rolavam as coisas em São Paulo.

Uma sala de espetáculos particular, mas cujos proprietários eram dispostos a abrir espaço para o que rolava de novo. Principalmente em música.


Quem quiser conhecer (ou rever) aquele período fértil da produção cultural, chegou aos cinemas Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista, de Riba de Castro, um documentário sobre esse espaço.


Assista ao trailer:



Na verdade se tratava de um porão adaptado, como outros dois points culturais aberto às coisas novas da cidade na época, o Madame Satã e o Carbono 14, ambos na Bela Vista.

Pelo Lira passaram Itamar Assumpção, o punk rock de Cólera, Patifes e Inocentes, o rock de Ultraje a Rigor, Ira! e Titãs, Ná Ozetti, Premeditando o Breque, Língua de Trapo, Rumo e outros grupos...

Não me lembro o ano. Talvez um dos colegas da Universidade de Brasília (UnB) e do grupo de teatro Pedra que acessam a este blog se lembrem.

Sei que chegamos atrasado ao anfiteatro cheio. Lá na frente o mímico Ricardo Bandeira prendia a atenção de todos com uma pantomima sobre um passarinho.

Enredo simplicíssimo. Mas dava para ouvir a respiração das pessoas atentas a cada detalhe de seus gestos.

Ricardo Bandeira

De vez em quando, explosões de gargalhadas. Depois deu uma senhora aula sobre a história da mímica e da pantomima, esclarecendo quais as diferenças de suas principais escolas de formação...
A trajetória de vida de Kazimir Malevitch (1878-1935) – um dos principais pintores do século XX e influência preponderante na arte moderna em geral, inclusive para o neoconcretismo brasileiro – conta a evolução do poder soviético na Rússia.

Em outras palavras, a ascensão e queda do bolchevismo, a predominância do estalinismo, a centralização do poder, o terror, a permanência de uma classe dominante militarizada, violenta e corrupta que ainda hoje domina o país.


O fim do sonho do socialismo e sua queda simbólica: a derrubada do muro de Berlin em 1989.

Kazimir Malevitch
Se esse pano de fundo foi altamente representativo para todo contexto político internacional, o que dirá para um artista detestado pelo regime, como Malevitch, que viveu em território soviético.

Voltando um pouco atrás...


Ele e um grupo de artistas russos diversos (outros pintores, poetas, prosadores, cineastas, gente de teatro, dança, etc.) criou o movimento moderno de vanguarda mais consistente do século XX.

Até uma elite de estudiosos de linguagens havia por trás: o formalismo, que abrangeu várias áreas do conhecimento, não só as artes.


Esses artistas e estudiosos apoiaram a revolução. Foram por ela atraídos e, depois, traídos...

Pouca gente sabe disso, mas por trás da formação do compositor e arranjador Tom Jobim e dos músicos baianos que criaram o tropicalismo há um denominador comum, além da bossa nova.

Esse denominador chama-se Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), um dos mais importantes formadores de músicos do país.

Koellreutter chegou ao Brasil na década de 1930, fugindo do regime nazista na Alemanha.

Pertencia à conhecida Escola de Viena, surgida no vácuo das ideias de Arnold Schöenberg (1874-1971), Anton Webern (1883-1945) e Alban Berg (1885-1935).

Sua formação na antiga Áustria começou com o grande educador da música Paul Hindemit (1895-1963).
 Hans-Joachim Koellreutter
O motivo da vinda de Koellreutter para o país foi dos mais absurdos: traição familiar.

A Alemanha vivia a euforia da ascensão do nacional socialismo. Sua família era hitlerista.

O jovem Koellreutter namorava uma moça judia e seus próprios familiares o denunciaram à Gestapo, polícia política do regime.

Aportou no Rio de Janeiro e foi morar na pensão da mãe de Tom Jobim, onde conheceu o futuro principal compositor da bossa nova com apenas 13 anos e se tornou seu professor particular de piano.

Tom Jobim jovem
Na mesma época, conheceu e ficou amigo de Heitor Villa-Lobos e Mário de Andrade...

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O detetive Mandrake, o sedutor personagem criado por Rubem Fonseca em 1967, estreou na literatura policial nas páginas do livro Lúcia McCartney.

Não é propriamente um detetive particular, e sim um advogado criminalista. Porém, quando um crime cruza o seu caminho, persegue a solução até o fim.


Seu modelo, o próprio Fonseca cita nas páginas de um dos episódios, é o protagonista dos romances de Raymond Chandler (1888-1959), Philip Marlowe.


Raymond Chandler

A meu ver, Chandler é o melhor escritor de literatura policial de todos os tempos. Considero-o muito melhor que Dashiell Hammett, Agatha Christie e outros.

Sem desmerecê-los, claro.

Chandler, como Anthony Burgess, tornou-se escritor forçado pelas circunstâncias.


Tinha paixão pela literatura. Havia lido de tudo. A certa altura da vida, ficou em tal bico de sinuca para sobreviver que só lhe restou tentar a sorte como escritor...

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O projeto do livro que motivou este blog  foi concluído.

A oficina Acompanhando o autor prossegue.

Meu compromisso com o Fundo de Investimentos Culturais de Campinas (FICC), da Secretaria Municipal de Cultura de Campinas, que aprovou e apoiou o projeto, é oferecê-la até o dia 20 de dezembro.

Prosseguirei nos mesmos moldes, mas com edições mais espaçadas, a fim de que possam ser melhor trabalhadas.

De resto, seguirá os critérios críticos até aqui adotados.

Vejam a capa do livro abaixo. Podem solicitá-lo pelo site da Editora Pontes.

Vejam mais detalhes no folder:


O lançamento ocorrerá em fevereiro, em alguma livraria de Campinas e no Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira.

Meu parceiro de trabalho, o ilustrador Alexandre Tiago, trabalha no Cândido e várias pessoas da instituição vêm acompanhando o processo de produção do livro.

Ambos os eventos ocorrerão próximos, em fevereiro...

Com 21 anos Paul Valéry (1871-1945) conheceu Stéphane Mallarmé (1842-1898), seu mestre para sempre.

Publicou alguns poemas simbolistas em revistas depois disso e, de repente, aparentemente deixou a literatura por um período de 20 anos.
 

Paul Valéry
Veremos que não foi bem isso...
 

Nesses vinte anos teria aprofundado seus conhecimentos em matemática e escrito sua primeira obra publicada em livro: Introdução ao método de Leonardo da Vinci (1895).
Por sinal, um livro tão imprescindível como Obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin.
 
Em seguida publicaria, entre a crítica e a ficção, um livro sobre a situação de um intelectual puro (mas estéril): A noite com o senhor Edmond Teste.
 

Passa a escrever sobre temáticas políticas e econômicas para jornais e revistas.
 

Surpreendentemente, depois de duas décadas sem publicar poemas, lança A jovem parca (1917). Na verdade, levara 20 anos para produzir o poema...
Só vim a conhecê-lo quando me encontrava de volta ao Estado de São Paulo.

Não me lembro em qual ano (entre 1977 e 1980). Soube que faria uma palestra na Unicamp, em Campinas, e saí de São Paulo para ir até lá ouvi-lo.

Me deparei com um auditório lotado e uma grande mesa de ilustres da universidade na frente, dentre os quais o reitor da época, para tirar uma casquinha do seu prestígio.


Bom humor raro entre os intelectuais
Lá estava Darcy Ribeiro, falante e bem-humorado como sempre.

Um homem de esquerda às antigas, da época em que se buscava um projeto de país igualitário, honesto, eficiente, desenvolvimentista, inteligente.

Nada a ver com o populismo jeca de hoje.

Naquela oportunidade, Darcy começou seu papo na Unicamp de maneira desconcertante...
Em junho de 1989 o suplemento Carderno 2 do jornal O Estado de S.Paulo publicou matéria sobre Raul Seixas, anunciando uma “nova explosão” do roqueiro.

Agora em parceria com seu conterrâneo e ex-integrante da banda Camisa de Vênus, Marcelo Nova.

A dupla conversou com a então repórter Regina Echeverria – ela foi mulher de um dos mais importantes e criativos jornalistas brasileiros (Hamilton de Almeida Filho) – na sede da gravadora Warner, em São Paulo.

Marcelo respondeu a maior parte das perguntas.

Segundo a repórter, Raul falava baixinho, quase murmurando, segurando a barriga, com nítidas sensações de dores.

Marcelo Nova e Raul Seixas (muito doente) em 1989
Para se ter ideia, ele aparece na foto (não é a que está acima, mas é da mesma época) com um paletó do pijama, barba e cabelos em desalinho total, e o rosto bastante inchado.

Parece até que a entrevista fora concedida numa clínica de recuperação...
A razão da briga entre Mário e Oswald de Andrade no final dos anos 1920 nada teve a ver com o ideário modernista, muito menos com  a linda canção Kalu, de Humberto Teixeira, cujo verso intitula este artigo.

Clique aqui para ver a letra e e ouvir a canção na voz de Chico Buarque

Além de ótimo compositor, Teixeira foi o principal letrista de Luiz Gonzaga.

Vide Assum Preto, Asa Branca, Paraíba e tantas outras.

Quanto a Mário e Oswald, a rinha dos dois não teve mesmo nada ver com o modernismo, até porque nesse âmbito os dois continuaram fiéis um ao outro.

Mas teve a ver com uma mulher que lembra muito o verso de Teixeira.

O que os levou ao desentendimento foi uma garota de Santos, protegida pela esposa de Owald, a pintora Tarsila Amaral.

Uma certa Zazá...
Zazá na flor da idade
Dezessete aninhos. Bonita como só ela. Olhos verdes, iguais aos de Kalu do Teixeira. E danada de sapeca!

Os seios quase à mostra sob a blusa transparente eram um escândalo para a época...
Nos anos 1970, Brasília tinha um importante cineclube na Escola Parque, Asa Sul. Cineclube que mais tarde daria origem ao Festival de Cinema de Brasília.

Cinéfilos de todas as idades ali se reuniam para assistirem às séries muito bem organizadas e apresentadas pelo crítico Rogério Costa Rodrigues, também professor da Universidade de Brasília (UnB).


O fato de Brasília ser a capital federal, sede de embaixadas, facilitava as coisas.


Vimos tudo do cinema cubofuturista das primeiras décadas do século XX, inclusive filmes de propaganda bolchevique de Dzga Vértov e outros.


Até filmes de propaganda nazista vimos.

Vimos todo o expressionismo alemão. Todo o neorrealismo italiano. Todo Hitchcock. Etc.


Dentre um dos filmes mais marcantes que lá assisti pela primeira vez foi Um chien andalou (Um cão andaluz), de Luis Buñuel e Salvador Dalí.


Primeira cena do filme
Foi lançado em 1928 na França, como representante do cinema surrealista.

Entre 1920 e a data de lançamento do filme, ocorria o auge das vanguardas modernistas europeias...
No tocante ao principal gênero da música popular nacional, o samba, sua origem e também parcela significativa de suas transformações vieram da Bahia.

Principalmente daquela faixa em torno da Baía de Todos os Santos, o Recôncavo Baiano.


Uma Cuba dentro do estado, tendo em vista a formação etnocultural muito similar.  Sobretudo no tocante ao contingente de origem africana.

Samba de roda do Recôncavo
Santo Amaro da Purificação aparece mais porque é a terra dos irmãos Caetano e Bethânia. Dona Canô, à parte, também a tornou muito conhecida.

Mas há mais 32 municípios no Recôncavo, todos com muita história e substanciosa cultura popular.


O Recôncavo circunda a Baía de Todos os Santos, abrangendo não só o litoral, mas também toda a região do interior próximo...

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Qualquer coisa que se escreva é pouco para esclarecer o que representa James Joyce (1882-1941) para a literatura e as artes em geral.

Assim como qualquer leitura do que ele próprio nos legou requer muito mais para entendê-lo.



James Joyce

Artistas muito especiais como Joyce, Marcel Duchamp e Raymond Roussel (sobre o qual há o texto CarRoussel nesta edição) são universos à parte.

Depois de ver o que fizeram e ler sobre eles, você tem a sensação de que o resto é o resto.


No caso de Joyce, qualquer literatura convencional, com princípio, meio e fim, soa óbvia depois de lê-lo...

O Brasil é um país de cultura cartorial, burocrática, com tudo muito certinho, centrado no senso comum ou no conhecimento acadêmico.

Este, oficialesco, é de um peleguismo sem fim. Afinal, a suposta elite pensante é uma das que mais se nutre das benesses do poder político.

Cada vez menos pessoas têm algum interesse por literatura.


Ezra Pound advertia: desconfie da capacidade de discernimento das épocas em que a literatura fica em segundo plano.

Sabem quem foi este cara?

Quais nossos principais escritores?

A academia diria: Machado de Assis e mais alguns cartas brancas, a respeito dos quais não possa haver qualquer tipo de questionamento...

Mário Peixoto (1908-1992) não começou tão cedo quanto o precoce poeta simbolista Arthur Rimbaud (1854-1891).

Guardadas as devidas proporções da importância das literaturas francesa e brasileira para o mundo, Peixoto foi um artista tão peculiar quanto Rimbaud e tão avançado para o seu tempo quanto.


Aos 19 anos, criou o roteiro e dirigiu um dos filmes mais importantes da história do cinema – Limites – que nunca foi lançado comercialmente e do qual não existe mais nenhuma cópia completa.


Peixoto na época em que filmou Limite

O filme foi produzido com recursos do próprio diretor entre 1929 e 1930.

No elenco estava uma das principais atrizes brasileiras da época, Carmen Santos, com quem Peixoto tinha uma relação de paixão, admiração e ódio...


Literatura de verdade não é aquela das gôndolas dos mercados, nem a das listas dos mais vendidos que proliferam pelas livrarias e sites de venda.

Menos ainda aquela parcamente pincelada pela Wikipedia.

Permeia o subconsciente dos escritores, leitores mais criteriosos e, sobretudo, eruditos.


Não disse jornalistas ou professores universitários. Eruditos de fato. Que costumam ser raros e discretos.

No século XIV a Europa passou por uma crise sem precedentes, com o fim do sistema feudal. Crise econômica, política, cultural e, sobretudo, de identidade.


Sucedem-se problemas diversos: revoltas camponesas, guerras civis e a proliferação da peste negra.


Ilustração da peste negra de 1411

Em meio a tudo surge uma nova classe governante: a burguesia...

Kurt Weill (1900-1950) já era um compositor consolidado. Um dia foi tomar umas e outras num cabaré de Berlin.

Uma cantora de voz estridente se apresentava.


Weill se desconcentrou da conversa dos amigos e ficou a observá-la.

No final do número, seu veredito: “Que cantora magnífica!”


Lotte Lenya e Kurt Weill
Os amigos ficaram estupefatos. Chamaram-no de louco. Como podia dizer isso daquela magrela feiosa com voz de taquara rachada?

Mas estava convicto: “Ainda não é uma grande cantora. Mas será!”


Nos anos seguintes se empenhou não só em transformá-la em uma das principais cantoras populares da Alemanha, como se casou com sua protegida e a pôs no estrelato da companhia de seu parceiro Bertolt Brecht (1898-1956).


Lotte Lenya (1898-1981) era o nome dela...


Geraldo Pereira (1918-1955) foi o criador do samba sincopado ou samba de breque, que consagraria mais tarde o grande intérprete Moreira da Silva.

É considerado um dos três principais compositores da era áurea do samba, ao lado dos seus contemporâneos Noel Rosa (1910-1937) e Wilson Batista (1913-1968).


Das cerca de 300 músicas que compôs, pelo menos 70 estão entre as mais gravadas da história do samba.

Geraldo Pereira
Entre os seus principais intérpretes estão cantores de várias gerações: Moreira da Silva, Ciro Monteiro, João Gilberto, Gal Costa, Paulinho da Viola e Jards Macalé.

Você já deve ter ouvido algumas das composições abaixo na voz de algum dos relacionados acima:


Acertei no milhar, Falsa baiana, Chico Brito, Bolinha de papel, Se você vier chorando, Ministério da Economia, Escurinho, Pedro do Pedrugulho, Pisei num despacho, Onde está a Florisbela e Ainda sou seu amigo.


São todas dele...


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Noite de 1912, num teatro em Paris.

Os jovens Marcel Duchamp, Fracis Picabia e Gillaume Apolinaire assistem juntos a um espetáculo chamado Impressions d’Afrique.

De início, um manequim e uma serpente no palco, quase imóveis.


“Loucura do insólito”, observa Duchamp.

Raymond Roussel

Pouco conseguem entender do texto. O som do teatro é horrível.

Mas ficam impressionados. Não apenas pelo texto, mas pela linguagem do espetáculo e os efeitos cênicos.


Aquilo foi uma cisão para o que cada um deles vinha pensando fazer...

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Mais ou menos é esse o sentido da palavra barrueco em espanhol: pérola inchada, de forma imprecisa.

Vem, segundo se sabe, da cultura muçulmana, que se implantou por longo período na Europa, sobretudo na Espanha.

Um dos profetas esculpidos por Aleijadinho (1738-1814)

Surgiu como oposição às regras e harmonia impostas pelo Renascimento.

No sentido literal para o nosso português velho de guerra, também cabem associações: barro oco, cerâmica. Ou
seja, forma a ser preenchida com algo.

Assim foi (e é) esse movimento formalista das artes que persiste ativo, passados mais de quatro séculos...


François Rabelais (1494-1553), criador das extraordinárias histórias sobre o gigante Pantagruel e seu pai, Gargântua, foi uma das maiores expressões da literatura francesa do século XVI.

E tem sido uma das principais influências para a literatura mundial desde então.


Retrato caricatural de François Rabelais
Uma das principais obras do modernismo brasileiro, Macunaíma, de Mário de Andrade, veio no vácuo das obras de Rabelais.

Outras duas tão importantes ou mais: Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande. As duas de Oswald de Andrade, sobre quem "falarei" noutro artigo, idem... 

Uma das mais belas e populares canções brasileiras – Manhã de Carnaval foi escrita por um mulato gordo com inteligência bem acima da média, excelente cronista, que se matou de tanto comer.

Antônio Maria a compôs com Luíz Bonfá, em 1959. Foi gravada na trilha sonora do filme Orfeu Negro. Tornou-se tradicional nos meios de jazz e é tocada regularmente também por muitos artistas internacionais.

Considerada uma das mais importantes canções no mercado do jazz brasileiro nos EUA, ajudou a estabelecer o movimento da bossa nova no final da década de 1950.

Antônio Maria como comentarista de futebol em rádio

Quando teve o infarto que o fulminou, aos 43 anos, o pernambucano Antônio Maria (1921-1964) jantara numa churrascaria e fizera um segundo round noutra.

Até que seu coração foi a pique...

Na última edição, tratei da literatura de horror.

Um dos seus principais escritores na América Latina é o uruguaio/argentino Horacio Quiroga (1879 –1937).


Seus contos fantásticos e macabros honram a tradição da grande literatura do gênero legada por Edgar Allan Poe e H.C. Lovecraft.


Dividiu-se entre o trabalho como jornalista em Buenos Aires e suas atividades como fazendeiro nas regiões do Chaco e de Misiones.

Horacio Quiroga
Por isso grande parte de sua obra trata de temas relacionados à selva e ao pântano.

São trágicos, avassaladores...

Entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1980 proliferou pelo país uma série de publicações culturais sobre literatura (principalmente poesia) e artes em geral.

Quase todas inspiradas em duas publicações anteriores vinculadas ao movimento de poesia concreta: as revistas Invenção e Noigandres.


Capa da Noigandres nº 2, de 1962

Clique aqui e veja o pdf do ensaio Noigandres e Invenção - revistas porta-vozes da poesia concreta, de Omar Khouri. 

Invenção (1962 - 1967) e Noigandres (1952-1962) contaram com a colaboração de poetas, artistas e teóricos, ambas idealizadas e dirigidas pelos fundadores da poesia concreta.

Invenção também foi o nome de um caderno do jornal Correio Paulistano, publicado entre 1960 e 1961 por José Lino Grunewald, com a colaboração de outros integrantes do movimento de poesia concreta.

A revista Invenção contou com colaborações de vários brasileiros e estrangeiros...
O cantor de jazz “Little” Jimmy Scott (nascido em Cleveland, Ohio, em 1925) está entre os vários músicos populares interessantes que me foram apresentados por André Prada, médico e músico de Campinas.

Scott é um cantor de técnica excepcional. Mas, ao longo da carreira, suas particularidades físicas causaram indisposição. Os empresários achavam estranho aquele tipo raquítico, de voz feminina e não quiseram continuar investindo nele.


Devido à Síndrome de Kallmann, que paralisou o desenvolvimento de suas cordas vocais e seu crescimento, Scott sempre teve a voz de contralto muito, muito elevada.

Jimmy Scott aos 25 anos
Sua carreira passou por vários altos e baixos desde que começou a cantar profissionalmente nos anos 1950.

Até que no final dos anos 1960 desistiu de vez e foi trabalhar como ascensorista num hotel de sua cidade natal.

Em 1991, com 67 anos, soltou a voz no enterro de seu amigo, também músico, Doc Pomus, e todos que estava presentes ficaram de queixos caídos.


Lou Reed, que admirava Pomus e Scott, estava presente e levou o nanico para cantar em seu show Power and Gloria, de 1992...

domingo, 1 de dezembro de 2013

“Casei e me descasei várias vezes, viajei até ficar pobre, minha obra literária está acima da compreensão nacional, me envolvi em brigas campais, fui preso treze vezes, sou pessimista (embora não muito sincero), fiquei doente e não tenho mais amigos.”

Esse é o autoperfil de um escritor brasileiro que deixou um dos legados mais ricos para a história da nossa literatura.

Oswald no final da vida
Romances (dois deles entre os mais inovadores já produzidos entre nós), poesias (idem), três peças de teatro (idem), manifestos filosóficos que influenciaram a produção cultural desde então, crônicas, memórias, confissões e polêmicas, muitas polêmicas.

Tal grandeza extrapola quaisquer definições. Muito embora nossos intelectuais brejeiros, montados nas academias e no esquerdismo tosco sejam consensuais em torcer os narizes para ele ainda hoje.


Oswald na juventude
O reconhecimento de Oswald de Andrade (1890-1954) ocorreu da forma como ele sempre quis: no quebra-pau das opiniões, umas contra as outras...