sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Bandeira e Burnier: nossos melhores mímicos

Não me lembro o ano. Talvez um dos colegas da Universidade de Brasília (UnB) e do grupo de teatro Pedra que acessam a este blog se lembrem.

Sei que chegamos atrasado ao anfiteatro cheio. Lá na frente o mímico Ricardo Bandeira prendia a atenção de todos com uma pantomima sobre um passarinho.

Enredo simplicíssimo. Mas dava para ouvir a respiração das pessoas atentas a cada detalhe de seus gestos.

Ricardo Bandeira

De vez em quando, explosões de gargalhadas. Depois deu uma senhora aula sobre a história da mímica e da pantomima, esclarecendo quais as diferenças de suas principais escolas de formação...

A sua escola era a francesa. Fora discípulo de Jean-Louis Barrault (
1910-1994) e Marcel Marceau (1923-2007).

Mas por pouco tempo. Logo Marceau o destacaria como um dos mais talentosos mímicos do mundo.

Com Marceau
Seu prestígio foi longe. Apresentou-se por toda Europa, EUA e foi parar inclusive na antiga União Soviética.

Dizem que em Moscou foi capaz de apresentar um espetáculo de mímica num estádio de futebol, para milhares de pessoas.

Terminada a longa palestra na UnB, ele continuou por mais de hora conversando com os mais interessados.


Dentre os quais nós, do grupo Pedra. Fumava um cigarro atrás do outro e ia lançando as bitucas displicentemente no chão. Ao lado da mesa havia dezenas delas.

As pessoas se foram e sobramos nós e ele. Convidamos para almoçar. Dispensou, mas disse que aceitaria se o convite fosse para ir a um boteco.


Fomos. Começou a partir daí uma sucessão de peripécias.

Umas garotas do grupo e uns colegas ficaram com ele e fui para outra direção. Por volta das 19h havia ensaio. Lá estava Ricardo a mil, com pretensões de dirigir o ensaio.


Nem sabia o que estávamos ensaiando. Everaldinho e outros que tinham vindo de longe ficaram putos. Houve uma briga danada por causa da prepotência do Ricardo e o ensaio foi cancelado.

Seguimos com ele até o Bar Beirute, na 109 Sul. Ninguém havia comido nada durante o dia. Àquela altura estávamos bastante bêbados, hipoglicêmicos e exaustos.


Ricardo continuava bebendo todas, fumando e falando sem parar.

Começar a dar em cima das meninas, que se mandaram. Ficamos nós, homens, e ele. Pelas tentas criou uma confusão danada com um garçom do Beirute.


Ele já havia enchido o saco de várias pessoas das mesas vizinhas. Cantava as moças na frente dos namorados e soltava farpas contra quem não gostasse. Seguidas reclamações haviam chegado à direção do bar.

Para não levarmos uma surra, conseguimos tirá-lo de lá. Na confusão, ele perdeu todo o dinheiro. Quis nos levar para o Setor Hoteleiro Sul, onde estava hospedado, para continuarmos a farra no bar do seu hotel.


Fingimos aceitar. Ele sem grana e nós não tínhamos nada para táxi. Topou ir caminhando conosco por cerca de sete quilômetros, até chegar ao seu hotel.


No caminho provocou todos que encontramos: travestis, casais de namorado, recos que faziam michês.

Por pouco não apanhamos durante o trajeto.

Conseguimos deixá-lo no hotel e escapulimos de fininho. Mais uns nove quilômetros de caminhada nos esperavam até chegarmos ao nosso apartamento, na Asa Norte.


Alguns anos depois encontrei Ricardo Bandeira na PUC-SP, onde autografava um livro que estava lançando.


Continuava fumando um cigarro atrás do outro – sempre arrancava o filtro e punha numa cigarrilha.

Fiquei por ali discreto e, incrível, ele me reconheceu. Lembrou-se de detalhes da farra por Brasília e se mostrou disposto a fazer uma nova farra por São Paulo.


Eu fora à PUC encontrar uma amiga. Estava num bode danado por causa da minha separação recente e desta vez não topei sair com ele.

Ricardo parecia um maluco simplório. Mas quando encarnava seu gestual era esplêndido. Nunca vi ator ou dançarino com tanto domínio técnico e concentração.


Nascera no subúrbio do Rio e iniciou a carreira como ator da Companhia de Procópio Ferreira.


Nos anos 1950 foi para São Paulo fazer humor em televisão. Mas sua ambição era maior. Largou tudo e foi para a França estudar com Jean-Louis Barrault e Marcel Marceau.

No final dos anos 1950 retornou a São Paulo e apresentou três espetáculos de mímica: As aventuras de Bonifácio, Pequena homenagem a Charles Chaplin e A seca.


Ricardo Bandeira na pele de Bonifácio
Integrou por curto período o elenco do Teatro de Arena e logo voltaria para a Europa, onde montou vários espetáculos de mímica. Em 1962, fez a referida apresentação em Moscou.

Apresentou-se também em vários países latino-americanos e nos EUA. Nos anos 1970, quando voltou novamente ao Brasil, montou lindos espetáculos (assisti a todos):


História da incivilização, Que fazer com a minha juventude, Eu! Maiakovski, Eu! Bethoven, Coração de vidro e Ricardo III, criação livre sobre a obra de Shakespeare.


Interpretando Shakespeare

Adotou um estilo de movimentação que se assemelhava à mímica objetiva de Marcel Marceau, e embora trouxesse as ilustrações objetivas, era poética e repleta de metáforas.

Por aqui dirigiu filmes e espetáculos teatrais.


Seu último espetáculo de mímica foi Carlitos no circo, encenado em 1993 no Brasil e no exterior.


Certa vez me deparei com outro grande mímico brasileiro, Luís Otávio Burnier (1956 -1995), um dos fundadores do grupo Lume em Campinas.


Luiz Otavio Burnier em cena
Perguntei o que achava de Ricardo Bandeira.

“Excelente”, disse. “Mas é uma figurinha muito difícil!”


Sem dúvida.
 

Burnier seguiu percurso parecido ao de Ricardo Bandeira em Paris, só que duas décadas depois. Também estudou com Barrault e Marceau.

Bandeira e Burnier foram figuras essenciais para o teatro brasileiro. De mímica, nem se fala, foram os melhores do país.

2 comentários:

  1. Boa matéria. Seria adequado limpar o texto dos erros de digitação. Algumas fotos de Ricardo Bandeira parecem ser, de fato, de Marcel Marceau. O texto deve ser fidedigno para cumprir seu objetivo histórico.

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  2. Obrigado pelas dicas, Edite. Também peço desculpas pela demora em respondê-las. A foto sobre a qual você me deixou em dúvida foi a primeira. Eu a excluí e substituí por outra sobre a qual tenho certeza. Não, não tenho nenhum objetivo "histórico" com esses textos. Parto do que gosto, do que considero excelência dentro daquilo que conheço e admiro, e reúno informações para mostrar a quem não conhece. Sempre com textos simples, em formato de crônica, acessíveis a qualquer um. Evidente que me reporto a várias fontes, mas estas podem conter equívocos e, quando não os identifico, posso repeti-los. Tudo bem, mas esse é um risco menor frente ao propósito maior de informar. Não cito tais fontes porque ficaria maçante num simples texto de blog mencionar trocentas referências. Embora também não acredite em fidelidade histórica e muito menos em fidelidade acadêmica.

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