terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Capiba para todos os gostos


A modinha Maria Bethânia foi uma canção muito popular nos anos 1940, na voz de Nelson Gonçalves.

O menino Caetano ouvia sua mãe, Dona Canô, cantá-la enquanto cozinhava na casa deles em Santo Amaro da Purificação (BA). Quando nasceu uma das irmãs pediu aos pais que pusessem o nome da canção.

A seguir a gravação que deu nome à cantora Maria Bethânia, composta pelo pernambucano Capiba (1904-1997).


Capiba é um dos maiores compositores de frevo. Há mais de 100 de sua autoria e pelo menos 20 que são de domínio público.

Ou seja, quando tocam nos carnavais pernambucanos, pessoas de diferentes gerações os conhecem.

Alguns de seus sucessos, que fazem o público pular ainda hoje, têm mais de cinquenta anos:

É de amargar (1934), Manda embora essa tristeza (1936), Júlia (1938), Gosto de te ver cantando (1940), Morena cor de canela (1948), Deixe o homem se virar (1952), Que é que eu vou dizer em casa (1956) são alguns dos seus frevos mais populares.


Capiba
O hino da capital pernambucana – Recife, cidade lendária – é de Capiba.

O compositor veio de uma família de músicos da cidade de Surubim, no interior de Pernambuco. Seu pai era professor de piano. Todos os irmãos tocavam algum instrumento.

Quando jovem, Capiba tocava piano em filmes mudos de um cinema de Campina Grande (PB).

Na época, os cinemas não tinham sistema de som. Os filmes vinham com partituras e era preciso ter músicos para tocá-las ao vivo enquanto a fita era exibida...


Em Recife, já como estudante de Direito, fundou com colegas da faculdade a primeira banda de jazz da cidade: a Jazz Band Acadêmica do Recife.

A banda fez sucesso por todo o país. Tocou até em Montividéu e Buenos Aires. A maior parte do repertório era jazz, mas os últimos números eram frevos, já compostos por Capiba.

De modo que os shows sempre terminavam com o público requebrando ao som do contagiante gênero.

Isso ocorreu na década de 1930, na qual formaria outro grupo pernambucano que deu o que falar: o Trio Pegando Fogo, que reunia Capiba e seus então jovens amigos Sivuca e Hermeto Paschoal.

Apesar da popularidade, Capiba viveu do trabalho como funcionário do Banco do Brasil.


Os discos por ele gravados venderam milhares de exemplares, mas os direitos autorais eram parcamente recolhidos.

“Se não tivesse uma profissão, viveria na miséria como muitos dos meus colegas que são compositores de frevo”, reclamava.

A seguir, alguns frevos de Capiba com Claudionor Germano, um de seus principais intérpretes:



Capiba era antenado na produção literária. Musicou peças de teatro de Ariano Suassuna e Joaquim Cardozo.

Também musicou poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, João Cabral de Melo Neto e outros poetas brasileiros.

Quando Suassuna lançou o Movimento Armorial, em 1970, foi um dos que o apoiou e chegou a escrever uma peça erudita – Sem lei nem rei – em apoio à estética proposta.

Quando a esquerda nacionalista vinha propor medidas de restrições à música internacional, era absolutamente contra.

“Não temos de cercear o que vem de fora. O que precisamos é de políticas para valorizar o que produzimos. Se o frevo tivesse a mesma publicidade da música norte-americana, que é também belíssima, certamente estaria tocando em todo o mundo.”

Compôs até sua morte. 

É autor de mais de mais de 200 canções, entre frevos, sambas, boleros, peças eruditas e, até, guarânia (Serenata suburbana) e maracatu (Verde mar de navegar).

O frevo, gênero que o consagrou, surgiu na cidade do Recife no fim do século XIX, denominado inicialmente como “música de Carnaval ligeira”.

Da etimologia popular do verbo ferver, deformado para “frever”, que evoca agitação, resultou o nome frevo.

No decorrer dos anos o frevo ganhou outras características e migrou também para a Bahia, onde adquiriu tonalidade própria.

A dança do frevo pode ser de duas formas: quando a multidão dança "à sola" e quando passistas realizam os passos mais difíceis, de forma acrobática, durante o percurso do desfile do bloco.

A dança tem mais de 120 passos catalogados.

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