quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

CarRoussel

Noite de 1912, num teatro em Paris.

Os jovens Marcel Duchamp, Fracis Picabia e Gillaume Apolinaire assistem juntos a um espetáculo chamado Impressions d’Afrique.

De início, um manequim e uma serpente no palco, quase imóveis.


“Loucura do insólito”, observa Duchamp.

Raymond Roussel

Pouco conseguem entender do texto. O som do teatro é horrível.

Mas ficam impressionados. Não apenas pelo texto, mas pela linguagem do espetáculo e os efeitos cênicos.


Aquilo foi uma cisão para o que cada um deles vinha pensando fazer...



Leram o texto imediatamente após o espetáculo, para associá-lo ao que tinham acabado de ver.

Não se tratava mais de uma questão do simbolismo. Mallarmé, Rimbaud, Verlaine...


Aquele sujeito não estava ali para abstrações. O que propunha, fazia.


Duchamp voltou a encontrá-lo num clube de xadrez, mas não procurou conversa. Ambos gostavam do jogo.


O autor de Impressions d’Afrique é Raymond Roussel (1877-1933).


Com formação em física e matemática, como o poeta russo Velimir Khliebnikov, Roussel desenvolveu estruturas de composição – tanto na poesia, quanto na prosa e na dramaturgia – muito elaboradas.


Entre suas obras estão La doublure (1897), Impressions d’Afrique (1910), Locus solus (1914) e La poussière des soleils (1926).


Pretendia-se artista integral, qual o enunciado wagneriano da artetotal. Decidiou então viver o tempo todo para a arte e trabalhar com todos os meios e linguagens disponíveis.


Tornou-se também pintor, fotógrafo, cenógrafo, músico...

Então construiu seu complexo carrossel, que passou a lhe servir como meio de morada, de transporte e para se apresentar (transformava-o em palco para locais públicos).


Realizava um trabalho de alta elaboração, absolutamente cerebral, mais voltado para os que viriam a produzir arte no futuro do que para o público leigo.


À grande herança recebida dos pais decidiu dilapidar até o último centavo para viver plenamente o estilo de vida pelo qual optara.


As pessoas o advertiam: a grana vai acabar. Respondia curto e fino: fiquem tranquilos, eu me mato antes disso.

Foi o que fez.


Sintam um cadinho do que foi Roussel no videomontagem sobre a música Raymond Roussel de Claude Debussy.Entre as imagens está o carrossel por ele projetado e construído, no qual viveu sua plenitude e morte:


Clique aqui e leia a tese de doutorado Locus solus e as máquinas potenciais de Raymond Roussel, de Renata Lopes Araújo.

Há muitos mitos sobre ele, ressaltando suas extravagâncias.


Além de viver num carro-moradia, dizem que teria sido um homem tão prático que comia as três refeições diárias de uma só vez para não perder tempo.

Foi figura de âncora não só do surrealismo, como do movimento dadá e do futurismo italiano.


O nouveau roman francês - sobretudo Michel Butor e Alain Robbe-Grillet – vem no vácuo de sua obra.


O próprio Duchamp reconhece sua influência na concepção de La mariée mise à nu par ses célibataires, même (1923).


Nos anos 1960 Michel Foucault escreveu um livro sobre ele, traduzido no Brasil.


O próprio Roussel procurou conceituar sua obra por meio do livro Comment j'ai écrit certains de mes livres. Na qual conta como chegara a alguns dos seus procedimentos construtivos.


Suas narrativas, informa no livro, quase sempre tiveram como ponto de partida ditos populares, trocadilhos, homofonias e paranomásias.

São portanto livros que, em princípio, destinam-se a uma leitura lúdica, e não a uma análise semântica, simbólica ou ideológica.


Toda sua obra está exaustivamente carregada de sentidos.


Impressions d'Afrique, por exemplo, não é apenas sobre um lugar imaginário ou uma suposta África real.

Dentre outras coisas, é um minucioso apanhado de clichês coloniais dos romances de aventuras do fim do século XIV.

Fiquemos por aqui.


Roussel não é só um corRoussel, é um universo à parte.

Literatura no seu mais alto nível.

Lógico que em linguagem não necessariamente agradável, para deleite e entretenimento.

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