sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Cultura da contenção

Com 21 anos Paul Valéry (1871-1945) conheceu Stéphane Mallarmé (1842-1898), seu mestre para sempre.

Publicou alguns poemas simbolistas em revistas depois disso e, de repente, aparentemente deixou a literatura por um período de 20 anos.
 

Paul Valéry
Veremos que não foi bem isso...
 

Nesses vinte anos teria aprofundado seus conhecimentos em matemática e escrito sua primeira obra publicada em livro: Introdução ao método de Leonardo da Vinci (1895).
Por sinal, um livro tão imprescindível como Obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, de Walter Benjamin.
 
Em seguida publicaria, entre a crítica e a ficção, um livro sobre a situação de um intelectual puro (mas estéril): A noite com o senhor Edmond Teste.
 

Passa a escrever sobre temáticas políticas e econômicas para jornais e revistas.
 

Surpreendentemente, depois de duas décadas sem publicar poemas, lança A jovem parca (1917). Na verdade, levara 20 anos para produzir o poema...

Trata-se de uma obra de grande complexidade. Inclui conteúdos herméticos que fazem pouco sentido se o leitor os desconhecer.

Os versos são tecnicamente perfeitos. À la Mallarmé. 

Durante 50 anos de sua vida, Valéry escreveu continuamente seus Cahiers.

São constituídos de reflexões sobre pintura, arquitetura, música, idiomas, ciência, política, economia, tecnologias e, inclusive, literatura.

Seus livros (de poesia, prosa ou crítica) são todos curtos, sucintos, com linguagem e opiniões mais objetivas possível.

Dizia gostar de "livros magros", portanto não via sentido em escrever "livros gordos".

Borges dizia mesma coisa. Perguntaram a ele: por que nunca publicou um romance?

Resposta em forma de pergunta: se é tedioso ler um, porque vou me escrever?

Continuou com as coisas curtas: contos, ensaios, poemas.

Um dos mais esclarecedores ensaios sobre Baudelaire (1821-1867) é de Valéry: Situação de Baudelaire, publicado no livro Variété (1924-1944), que por sua vez saiu dos Cahiers.
 

Charles Baudelaire
Para ele, embora Baudelaire simbolize transgressão, representa um momento de contenção do romantismo, rumo a uma síntese que daria no simbolismo.

Valéry faria o mesmo com o simbolismo, mas na direção da arte moderna.

Baudelaire, Mallarmé e Valéry foram grandes autores que, além de terem legado uma grande obra (não tão numerosa), procuraram encontrar um norte para sua época e, com isso, influenciaram gerações.

Outros parecidos com eles: Ezra Pound, Jorge Luis Borges, Octavio Paz, Lezama Lima, Oswald de Andrade, Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos.
Octavio Paz
Os Cahiers, publicados em conjunto ou em volumes separados, são excelentes.

Valéry trata assuntos diversos com conhecimento de causa, simplicidadwe e precisão, num estilo dos mais elegantes e fluentes.
 

Paul Verlaine
Uma prosa quase ensaio, ensaio quase prosa. Como Borges.

Quando escreve sobre François de Villon (1431-1463) e Paul Verlaine (1844-1896), dois dos vários poetas marginais franceses, é uma delícia.
 

O primeiro foi criminoso, ladrão, assassino. O segundo, dependente de todos os vícios possíveis, teve uma vida pessoal das mais desregradas.
 

É surpreendente como um sujeito de conduta tão pouco defensável, como Villon, vivendo sempre com a corda no pescoço, tenha escrito versos tão perfeitos e belos.

Idem para Verlaine, mestre da melopeia no simbolismo. Ritmo perfeito, sonoridade harmoniosa. Versos altamente equilibrados, clássicos.

No entanto, vivia de porre em porre, de escândalo em escândalo e era um sujeito intratável, mordaz, agressivo.
 

Rimbaud, para se ver livre dele, teve de baleá-lo.
 

Os ensaios de Valéry voltados para a filosofia influenciaram pensadores contemporâneos, como Sartre, Emil Cioran e Deleuze-Guattari.
 

Do modernismo brasileiro em diante, Valéry foi farol norteador de muitos dos nossos poetas e prosadores.

É preciso continuar sob sua luz. Tem muito mais o que clarear.

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