sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Da Bahia vem o samba e suas bossas

No tocante ao principal gênero da música popular nacional, o samba, sua origem e também parcela significativa de suas transformações vieram da Bahia.

Principalmente daquela faixa em torno da Baía de Todos os Santos, o Recôncavo Baiano.


Uma Cuba dentro do estado, tendo em vista a formação etnocultural muito similar.  Sobretudo no tocante ao contingente de origem africana.

Samba de roda do Recôncavo
Santo Amaro da Purificação aparece mais porque é a terra dos irmãos Caetano e Bethânia. Dona Canô, à parte, também a tornou muito conhecida.

Mas há mais 32 municípios no Recôncavo, todos com muita história e substanciosa cultura popular.


O Recôncavo circunda a Baía de Todos os Santos, abrangendo não só o litoral, mas também toda a região do interior próximo...


Além de Santo Amaro, as principais cidades são: Santo Antônio de Jesus, Candeias, São Francisco do Conde, Madre de Deus, Cachoeira, São Félix, Maragojipe e Cruz das Almas.


Uma região potencialmente rica. Tem chuvas regulares, solo bom e fartura de pesca oceânica.


Foi um dos berços da agricultura da cana-de-açúcar no Brasil colonial. Hoje tem grande produção de mandioca (e farinha) e hortifrutis destinados à Região Metropolitana de Salvador.

Graças à importante estação de pesquisas da Embrapa em Cruz das Almas, vem abrigando novas plantações de cacau, seringueiras, especiarias (noz moscada, cravo e outras) e pupunha (para produção industrial de palmito).

O dendê é tão antigo na região quanto a presença dos negros. O dali, de origem africana, é destinado à extração da poupa para a culinária.

O plantado no Pará (híbrido das espécies africana e brasileira) é mais para extração de óleo de cozinha e óleo combustível.
 
O Recôncavo abriga o Polo Petroquímico de Camaçari e o parque industrial em torno da Região Metropolitana de Salvador.

Há várias indústrias químicas e muitos problemas ambientais. De longa data. 

Mas abriga também indústrias tradicionais, sofisticadas, como a Menendez & Amerino, fabricante de excelentes charutos do município de São Gonçalo dos Campos.

Sua história é tão antiga quanto a das vinícolas do sul do país.

Félix Menendez, sócio da companhia, é um dos muitos “brasileiros” de outras terras, tal como os primeiros alemães e italianos que iniciaram as plantações de uvas e produção de vinho no sul.

Sua família era dona das principais indústrias de charuto de Cuba quando se deu a revolução castrista.


Uns tios que se exilaram na Guatemala mantiveram parte do patrimônio e montaram outras indústrias por lá. Mas o pai de Félix, que apostou nos irmãos Castro, se ferrou.

Com todos os bens estatizados, ficaram com quase nada. Mas conheciam a fundo o que faziam. Cada qual imigrou para um país antilhano e procurou se associar a parceiros que tivessem dinheiro para recomeçar os negócios.


Félix levou tombos atrás de tombos até baixar na Bahia para conversar com o grupo Amerino, de origem portuguesa, que fabricava charutos populares. Convenceu-o a investir na qualificação da produção.


Centenas de variedades de fumos de Cuba e da América Central foram trazidas para viveiros de pesquisa em São Gonçalo.


Ali foram plantadas, testadas, até chegar àquelas que proporcionaram um tabaco com buquê próximo do desejável.

Seus charutos, hoje, disputam a preferência de consumidores mundo afora, nas mesmas tabacarias em que são vendidos os "havanas", produzidos pela indústria estatal cubana.


Uma das marcas de charutos baianos de qualidade
Os escritor Cabrera Infante, como todo bom cubano era um fumador. Escreveu Fumaça Pura, um livro que faz elogio à arte de fabricar e fumar charutos.

Mas a riqueza maior do Recôncavo é a cultural e histórica.

Como a de Cuba. Um dos trunfos da revolução (talvez o único) tenham sido os investimentos em saúde e educação, com igualdade de acesso, para toda a população.

Poucos países socialistas fizeram isso.

Vietnã foi outro. Passou por abertura política e hoje é uma economia em franco crescimento, proporcionalmente em situação muito melhor que a do Brasil. 

Cuba deverá seguir caminho parecido. É provável que isso comece a ocorrer ainda sob a batuta de Raul Castro.

No início da colonização, Bahia e Cuba foram um dos berços do barroco na América Latina.


Ambas também receberam a elite negra da Costa da Mina, sobretudo da Nigéria e do Benin.

Etnias nagôs, jejes, fantis, axantis, malês, hauçás e outras.


Muitos dos escravos trazidos da Costa da Mina, sobretudo nagôs e malês, eram muçulmanos.

Alguns sabiam ler e escrever em árabe, fato inusitado no Brasil colonial, no qual a maioria da população branca era analfabeta.

Vários engenhos passaram a ser administrados por esses negros instruídos, a serviço dos senhores.  

O samba foi criado nos municípios do Recôncavo, provavelmente lá pelo século XIX, inicialmente para acompanhar cantorias improvisadas nas danças de roda.


Ainda hoje o ritmo, em seus formatos mais primitivos, é transmitido de geração para geração nos municípios locais.

As raízes africanas também levaram ao surgimento de gêneros parecidos no Maranhão, Minas Gerais, Pernambuco e São Paulo. Todas associados às danças de roda.


Ciranda em Pernambuco
Em alguns lugares, como no interior de São Paulo, até como o mesmo nome: samba. Mas o samba de bumbo paulista, como ritmo, não tem nada a ver com o que foi criado na Bahia.

É “de bumbo” devido à predominância da zabumba (a mesma de alguns ritmos nordestinos), ou bumbo, acompanhada por caixas e guaiás, que fazem a marcação.


Trata-se de um samba rural, antigamente circunscrito aos terreiros de café, quando estes estavam vazios na entressafra, época em que os escravos conseguiam tempo e espaço para festejar.


Depois que os negros foram parar em aglomerados urbanos, ainda sobreviveu por um tempo.


Mas foi se esfacelando, conforme as comunidades de descendentes de africanos eram desintegradas pelas mudanças econômicas.

Não foram propriamente os músicos baianos que trouxeram o samba para o Rio há mais de século. Mas o grande número de migrantes de lá.


Fixados tanto no Rio quanto em São Paulo, trouxeram consigo toda uma cultura e costumes nos quais o samba preponderava.

Pelo telefone, o suposto primeiro samba gravado no Rio de Janeiro, em 1917, foi composto por Donga e Mauro Almeida, dois assíduos frequentadores do terreiro de candomblé da mãe de santo baiana Tia Ciata.


Não eram propriamente religiosos. O terreiro reunia rodas de sambistas – naquela época clandestinas, pois não era um tipo de música bem visto pela sociedade e pela polícia.


Na antiga capital federal o samba passou a incorporar elementos de outros gêneros musicais populares. De início a polca, o maxixe, o lundu e o xote.


E foi-se integrando ao que rolava.


Surgiu uma primeira geração de compositores mais profissionais que tocavam e cantavam de tudo, inclusive samba: Heitor dos Prazeres, João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô.

Vinicius de Moraes e Pixinguinha
Mas ainda era um samba um apegado ao maxixe e a outros ritmos com cara de folclore.

Participar de rodas de samba foi, aos poucos, deixando de ser caso de polícia.


A sociedade abriu as pernas de vez para o samba quando começou a ser tocado em larga escala nas rádios.

Chegou, assim, aos bairros da zona sul do Rio de Janeiro. Isso entre os anos 1920 e 1930.

Enquanto isso, começava a se delinear um formato de um “samba de raiz”, por parte de uma elite de compositores dos morros, com boas letras, sofisticação melódica e instrumentação mais complexa.

Nelson Cavaquinho
A maioria dos cantores, compositores e instrumentistas que integra esta importante tradição está vinculada aos blocos carnavalescos do Estácio de Sá, Osvaldo Cruz, Mangueira, Salgueiro e São Carlos.

Que mais tarde vieram a se chamar escolas de samba.

"Escola de samba" é escola de fato. Não no sentido convencional, lógico. Cada uma delas envolve profissionais diversos, que têm função de também formar seus substitutos.

Enfim, inicialmente criminalizado e visto com preconceito, por suas origens negras, o samba conquistaria não só o público de classe média, como todo o país.

Se expandiria inclusive para fora dele.

Deixou até de ser música de negros e começou a revelar compositores brancos.

Um deles, Noel Rosa, é história à parte.

Noel Rosa
É muito difícil superá-lo principalmente como letrista. Noel continua sendo um dos mais sofisticados letristas do samba, ao lado de Lupicínio Rodrigues.

Instrumentista, compositor e cantor, Noel incorporou ao samba elementos de outros gêneros: charleston, demais ritmos jazzísticos, bolero, a partir do qual criou o samba-canção, e até música de viola.

Mais ou menos na mesma época de Noel, surgiu um sambista que retomou as cantigas praieiras mais tradicionais, remetendo às origens baianas do gênero, com um balanço e leveza irresistíveis, próximo das cantigas de roda de onde se originou.

Curiosamente, esse redirecionamento ao passado, quando era um ritmo bem mais simples e, por isso mesmo, envolvente, foi um dos principais responsáveis pela primeira onda de internacionalização do gênero.

Surge então Carmen Miranda interpretando canções com temáticas sobre a Bahia de três grandes compositores: Dorival Caymmi,  Assis Valente e Ary Barroso.


Dorival Caymmi
O mineiro Ary compôs tantas músicas das mais populares sobre a Bahia que muitos baianos devem crer que ele é conterrâneo.

Ary Barroso
Dorival e Assis eram baianos de verdade.
 

No Rio, os alicerces do samba foram se solidificando com compositores de várias origens.

Os também mineiros Joubert de Carvalho, Geraldo Pereira e Ataulfo Alves. O maranhense João do Valle. O paulista Adoniran Barbosa. O já citado gaúcho Lupicínio Rodrigues.

Adoniran Barbosa
Geraldo Pereira criou o samba sincopado e seu principal intérprete, Moreira da Silva, introduziu versos declamatórios. Estava inventado um novo gênero de grande popularidade: o samba de breque.

Moreira e Miguel Gustavo criaram o samba-crônica, que já era especialidade de Adoniran Barbosa em São Paulo, embora a partir de uma linguagem caricata que, entre outras coisas, imitava os sotaques dos imigrantes.


Tradicionalmente, o samba ainda hoje é tocado por instrumentos de corda (cavaquinho e vários tipos de violão) e variados instrumentos de percussão, como o pandeiro, o surdo e o tamborim.


Com o passar dos anos, conforme surgiram novas variações, o samba assimilou novos instrumentos.


Os novos tipos de samba passaram a ter diferentes cadências, andamento, mas por trás de todos lá está a velha batida.


Em dado momento, uma corrente nova de sambistas, qrande parte dela da classe média branca, começou a incorporar elementos do jazz para valer.


Naquele momento, o jazz passava por uma reviravolta intimista. Surgia o cool jazz, que buscava economia, discrição, síntese. Uma música para ser ouvida.


Chet Baker
O namoro entre o samba e o jazz vinha de longa data. Tanto lá quanto cá. Mas dessa vez houve um coito para valer.

O grande compositor da bossa nova foi Tom Jobim, mas quem descobriu a régua e o compasso para essa determinante transformação do gênero foi outra vez um baiano: João Gilberto.

João Gilberto na capa do disco Chega de Saudade
O samba continuou se diversificando para tendências menos importantes que a bossa nova, mas que também marcaram épocas: o samba-rock, o samba-funk, o pagode, entre outras variações.

Com o tropicalismo, no final do anos 1960, o universo do samba se fundiu ao do pop.


Sem sair do pop, porém retomando as vias mais tradicionais, o samba chegou a um novo surto de excelência com os dois principais discos dos Novos Baianos.

De modo que a régua e o compasso continuaram a vir lá da Bahia.

Como outros grandes gêneros de grande tradição da música popular – o blues, o fado, o tango – o samba não tem fim. A forma como o curtimos e aquilo de que gostamos agora é apenas uma parte de sua história.


Como nos outros anos, neste 2014 terá sua grande celebração nos quatro dias de Carnaval, unindo a grande tradição do ritmo com outra grande tradição nacional: o barroco, na forma das alegorias.

É da natureza do samba evoluir com diversidade e liberdade.


Encerremos este lero com um dos porta-vozes da evolução do samba:



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