sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Darcy: quando a esquerda era inteligente

Só vim a conhecê-lo quando me encontrava de volta ao Estado de São Paulo.

Não me lembro em qual ano (entre 1977 e 1980). Soube que faria uma palestra na Unicamp, em Campinas, e saí de São Paulo para ir até lá ouvi-lo.

Me deparei com um auditório lotado e uma grande mesa de ilustres da universidade na frente, dentre os quais o reitor da época, para tirar uma casquinha do seu prestígio.


Bom humor raro entre os intelectuais
Lá estava Darcy Ribeiro, falante e bem-humorado como sempre.

Um homem de esquerda às antigas, da época em que se buscava um projeto de país igualitário, honesto, eficiente, desenvolvimentista, inteligente.

Nada a ver com o populismo jeca de hoje.

Naquela oportunidade, Darcy começou seu papo na Unicamp de maneira desconcertante...

Quis saber do diretor do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Humanos qual era seu orçamento e o que fazia dele.
 

Conforme o outro descrevia, ia esculhambando. “Pô, vocês só fazem só isso com essa puta grana?!”

Eram críticas com autoridade, pois fundara duas universidades e administrara ambas.
 

Daí passou a fazer as perguntas ao reitor sobre toda a estrutura da universidade. Saia justa total!  Isso num auditório lotado de estudantes.

A essa altura, os figurões da Unicamp já tinham arrependimentos de sobra por tê-lo chamado para a palestra e, principalmente, por terem decidido mostrar suas caras nela.
 

Essa era uma das razões por que Darcy, embora tenha sido um dos intelectuais que mais contribuiu para o ensino superior do país e, sobretudo, para nos conhecermos como somos, seja tão detestado pela academia.
 

Outro motivo: era um intelectual prático, que ia a campo.

Não ficava nos campi cumprindo burocraticamente as funções até vir a aposentadoria ou ser lotado nos altos escalões do poder por alguma oportunidade política.

Darcy entre os índios
Sua obra sobre educação, história, antropologia e ciência política ainda hoje é desprezada no meio universitário.

De 1973 a 1977 estudei naquela que foi, até dado momento, uma das mais inovadoras universidades brasileiras: a Universidade de Brasília (UnB), idealizada por ele e Anísio Teixeira (1900-1971).


Anísio Teixeira
Saí de lá no último semestre de curso, jubilado pelo capitão de mar de guerra da Marinha, José Carlos Azevedo, reitor importo pelo regime militar.

Motivo: colaborei com uma greve estudantil. Dois anos depois vim me formar numa faculdade de São Paulo, meramente para obter meu registro de jornalista.

Mesmo com um reitor militar vinculado ao regime, na UnB pegara resquícios da ideia da “univers(al)idade” bolada por Darcy e Anísio.


A universidade foi fundada por eles para reinventar a educação superior, entrelaçar as diversas formas de saber e formar profissionais engajados na transformação do país.


Desejavam criar uma experiência educadora que unisse o que havia de mais moderno em pesquisas tecnológicas com uma produção acadêmica capaz de melhorar a realidade brasileira e latino-americana.


O campus da Asa Norte, o original, foi bolado pelo arquiteto Oscar Niemeyer para atender à concepção estrutural de ensino superior de Darcy e Anísio.

As regras e a concepção da universidade foram definidas pelo Plano Orientador, uma espécie de Carta Magna, datada de 1962, e ainda hoje em vigor.


“Só uma universidade nova, inteiramente planificada, estruturada em bases mais flexíveis, poderá abrir perspectivas de pronta renovação do nosso ensino superior”, diz o Plano.


Conheci pessoas e assimilei informações na UnB que foram determinantes para o que fiz da minha vida dali por diante.


Ainda era aluno de último ano do colégio quando comecei a frequentá-la. Por lá conheci o grupo Oficina, a caminho de uma viagem pelo trajeto da Coluna Prestes.


Zé Celso, Renato Borghi e sua turma não fizeram todo o percurso da coluna, mas trouxeram farto material para montar o espetáculo Gracias, Señor, proibido pela censura federal em junho de 1972.


Vi também:


Décio Pignatari, Lina Bo Bardi, João Cabral de Mello Neto, Décio de Almeida Prato, Antonio Cândido, Paulo Emílio Salles Gomes, Cassiano Nunes, Roberto Campos, Walter Smetak, Julio Medaglia, Júlio Plaza, Rogério Duprat, Vladimir de Carvalho...

São os que consigo me lembrar. Tem muito mais gente.

Alguns como professores, outros como palestrantes convidados.

A vida cultural era intensa.

Darcy Ribeiro nasceu em Montes Claros (MG), em 1922.


Logo que se formou em antropologia aproximou-se dos irmãos Cláudio, Leonardo e Orlando Villas-Bôas.


Os três irmãos paulistanos não eram acadêmicos. Eram homens de instrução, mas indigenistas, continuadores do trabalho do sertanista e marechal Cândido Rondon.


Foi viver com índios do Pantanal, do Brasil Central e da Amazônia para entendê-los e estudar sua cultura.


Seu orientador era o suíço Claude Lévi-Strauss (1908-2009), um dos criadores do estruturalismo, que passara por um período estudando os índios brasileiros.


Depois foi professor da USP.

Lévi-Strauss quando vivia no Brasil
Os dois brigavam o tempo todo, a concordância era mínima, ainda assim foi uma relação de alto nível, entre homens muito inteligentes, que durou décadas.

Além da UnB, projetada por ele e Anísio em 1960, Darcy ajudou a criar o Serviço de Proteção ao Índio, o Parque Indígena do Xingu, com os irmãos Vilas-Boas, e a Universidade Estadual do Norte Fluminense.


Foi ministro da Educação do governo do presidente Jânio Quadros (1961) e chefe da Casa Civil de João Goulart (1961-1964).


Veio o regime militar e teve de se exilar.


Nos anos de exílio, trabalhou para os governos da Venezuela, Uruguai, Peru e Chile, como consultor para planos de desenvolvimento e educação.

Durante o primeiro governo de Leonel Brizola no Rio de Janeiro (1983-1987), Darcy Ribeiro, como vice-governador, criou, planejou e dirigiu a implantação dos Centros Integrados de Ensino Público (Ciep).


Uma ideia que foi mais tarde copiada pelo PT e ridiculamente denominada CEU.


Mas o que importa aqui é o grande intelectual Darcy Ribeiro. A política foi de menos.


Enquanto um câncer de pulmão (era fumante) o matava, concluía, em 1995, seu livro O povo brasileiro – a formação e o sentido do Brasil.


Livro que fecha o ciclo de grandes obras anteriores:


Processo civilizatório (1968), As Américas e a civilização (1970), Os índios e a civilização (1970), Os brasileiros – teoria do Brasil (1972) e O dilema da América Latina (1978).

Publicou obras sobre outros temas, inclusive um romance (Maíra), mas não tão importantes quanto as citadas acima.


Também publicou mais de 10 livros específicos sobre etnologia, frutos de seus estudos sobre as etnias indígenas nacionais kadiweu, terena, kaiowá, urubus e bororo.

Darcy e os índios
Darcy era um homem de ótimo senso de humor, bom papo, namorador. Seu círculo de amigos próximos não era do meio político. Incluía Glauber Rocha e Tarso de Castro.

E, principalmente, as ex-mulheres.


Como Vinicius de Moraes, suas ex-mulheres (seis sem contar as várias namoradas) o adoravam e estiveram em torno dele até os últimos momentos.

Na juventude, fora militante de carteirinha do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Foi posto para fora do partidão porque o consideravam insubmisso e, portanto, não confiável.


Depois se aproximou do trabalhismo, por intermédio de Jango e, principalmente, de Leonel Brizola.


Mas teve diálogo franco e aberto até com homens à direita. Tanto que entre os que apoiaram o projeto da UnB estava o senador Filinto Muller.


Enquanto a esquerda universitária abominava o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, Darcy dava aula sobre a obra dele na Sorbonne, tentando desatar o nó do preconceito por lá.


Não era amigo de Freyre e nem concordava com ele.


Apenas um reconhecimento de inteligência à obra do autor de Casa-Grande em Senzala, cujo prefácio da edição espanhola foi de Darcy.

Do convívio com os índios, há um episódio hilário envolvendo o etnólogo italiano Guido Boggiani.


Darcy fora viver com os índios cavaleiros kadiwéu (os únicos a domesticar o animal no Brasil), em Mato Grosso.

Índia fotografada por Darcy
Estudara a obra de Boggiani, que vivera com esses índios. Havia inclusive um boato de que existira um concubinato entre o italiano e uma índia.

Na aldeia, quando Darcy mostrou a foto do pesquisador, as índias logo o reconheceram e riram muito.


Os kadiwéu não têm qualquer preconceito quanto a opção sexual. Um homem ou uma mulher podem livremente decidir se querem ser homem ou mulher.

E as índias revelaram que a “namorada” de Boggiani, na verdade, era um homem.


As seis grandes obras acima citadas – incluindo O povo brasileiro – são fundamentais para entender o que somos, juntamente com as de Gilberto Freyre e de Euclides da Cunha.

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