sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Destinado à irrealização

Mário Peixoto (1908-1992) não começou tão cedo quanto o precoce poeta simbolista Arthur Rimbaud (1854-1891).

Guardadas as devidas proporções da importância das literaturas francesa e brasileira para o mundo, Peixoto foi um artista tão peculiar quanto Rimbaud e tão avançado para o seu tempo quanto.


Aos 19 anos, criou o roteiro e dirigiu um dos filmes mais importantes da história do cinema – Limites – que nunca foi lançado comercialmente e do qual não existe mais nenhuma cópia completa.


Peixoto na época em que filmou Limite

O filme foi produzido com recursos do próprio diretor entre 1929 e 1930.

No elenco estava uma das principais atrizes brasileiras da época, Carmen Santos, com quem Peixoto tinha uma relação de paixão, admiração e ódio...




Entre 1931 e 1932, ambos abandonaram o projeto de Limite, cuja montagem sequer havia sido concluída, para filmar um roteiro que inicialmente o diretor chamou de O sono sobre a areia.


Carmen Maura em cena de Limite
Durante as filmagens, que não foram concluídas devido às brigas cada vez mais frequentes, Peixoto passou a chamá-lo Onde a terra acaba.

Uma ironia para provocar Maura, já que o novo título era quase uma paródia do ambiente pesado entre os dois no sítio onde se davam as filmagens.



Peixoto, muito abalado com os quebra paus com a atriz, não conseguiu continuar os trabalhos.


Carmen Maura, dois anos depois, produziu um filme ridículo com o mesmo título, sem nada a ver com o projeto original do diretor.

As coisas continuaram difíceis para Peixoto até o final da vida, devido à sua teimosia e caprichos.


Ora excessivamente perfeccionista, ora excessivamente obsessivo.

Nenhum dos seus roteiros seguintes – Onze almas, A cidade na lama, Um pássaro triste, A alma segundo Salustre, Outono - o jardim petrificado e outros – saiu do papel.


Nem suas peças de teatro.


Homem de trânsito internacional, que conviveu com as vanguardas europeias, por aqui – onde determinou que faria seu trabalho – quase nada conseguiu.

Isolou-se no litoral sul do Rio de Janeiro, onde comprou uma propriedade com o propósito de montar ali um museu a céu aberto para ser legado ao público quando morresse.


Havia esculturas e obras por toda a parte, todas adquiridas e mantidas por ele.


Pôs-se a escrever na mais absoluta solidão, tendo por companhia apenas um casal que trabalhava com ele e amigos que eventualmente o visitavam.


Principalmente Saulo Pereira de Mello, que o ajudou a escrever Limite e a maioria dos seus roteiros, e o fotógrafo do filme, Edgar Brazil.


Brazil mais tarde trabalharia com grandes diretores de cinema europeu.
 

Limites se tornou célebre, embora poucas pessoas tenham tido a oportunidade de vê-lo inteiro.

O grande cineasta russo Sergei Eisenstein (1898-1948) soube do filme por terceiros, interessou-se firmemente, procurou-o, mas nunca conseguiu vê-lo.


Sergei Eisenstein
Só em 1979, por iniciativa de Pereira de Mello, o roteiro foi publicado, acompanhado dos fotogramas recuperados após o incêndio que queimou o acervo no qual o filme se encontrava.

A publicação também conta com minuciosos desenhos de sequências feitos por Peixoto.


Alfred Hitchcock (1899-1980), Federico Fellini (1920-1993) e Akiro Kurosawa (1910-1998) estão entre os diretores que foram bons desenhistas.


Os três tinham o hábito de desenhar quadro por quadro de certas sequências de seus filmes.


Da vida solitária de Peixoto no litoral resultaram os livros de poemas Mundeu e Poemas de permeio com o mar, e os romances O inútil de cada um e Sombrio.


Também escreveu contos esparsos, alguns publicados em revistas.


Os resumos biográficos mostram tudo demasiado harmônico nas vidas dos autores. Claro que nunca é exatamente assim.



Peixoto era uma figura tão complexa quanto Rimbaud.


Arthur Rimbaud aos 16 anos
Os próprios amigos contam que as brigas entre ele e Carmen Maura eram resultado mais de intransigências do jovem diretor que da estrela.

O filme não estreou comercialmente e nem foi distribuído pelo mundo porque Peixoto não quis.


Ficou decepcionado com o resultado daquilo que para muita gente que faz cinema é um dos mais perfeitos filmes de todos os tempos.


Seu único livro publicado – o de poemas Mundeu – teve a divulgação sabotada pelo próprio autor, que na hora agá não concordou em lançá-lo.


Quando soube que Eisenstein quisera ver Limite, escreveu um ensaio em nome do russo, que na verdade nem tivera acesso ao filme, e quis publicá-lo em um grande jornal carioca, que logicamente não aceitou.


Além do que se conhece de sua produção de roteiros, teatro e literatura, sabe-se que muita coisa do que escreveu ele próprio destruiu.


Peixoto vivia esse dilema existencial profundo com tudo que fazia.


Embora fosse vaidoso – vide a mancada com o episódio do artigo em nome de  Eisenstein – parece que nem lhe ocorrera de exercer alguma influência.

Mas seu filme (por meio da edição organizada por Saulo Pereira de Mello ou do que restou dos fotogramas montados) é cada vez mais visto no Brasil e por gente de cinema no exterior, como uma pérola defeituosa de grande qualidade.


Limite tem maior proximidade com as sequências e enquadramentos do cinema de outro russo: Dziga Vertov (1896-1954).


Como Peixoto, Dziga Vertov gostava de pilotar a câmera

Ambos fizeram cinema mudo. Detalhe: Peixoto investiu num projeto caríssimo, revolucionário, mas numa época em que ninguém mais fazia filmes mudos.

Ou seja, lixava-se para as tendências de mercado. Sua ênfase toda era na linguagem e nos seus resultados estéticos. O resto, incluindo o público, era o resto.

Leiam o artigo de Luiz Henrique da Costa intitulado A estranheza de Peixoto, na página 18 da revista eletrônica Erratica, dirigida por André Vallias.


Cliquem aqui e vejam algumas sequências preservadas de Limite, embora sem o som (trilha sonora).

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