terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Di-Glauber: obra-prima proibida

Um dos mais longos casos de censura a uma obra de arte no Brasil teve início no dia 26 de outubro de 1976.

Quando soube da morte do pintor Di Cavalcanti (1897-1976), o cineasta Glauber Rocha emprestou uma câmera do colega Cacá Diegues, chamou o ator Joel Barcelos e foi ao funeral homenagear o amigo.

O registro resultou no documentário Di-Glauber.

O filme estreou juntamente com o longa Cabeças cortadas, em 11 de março de 1977, na Cinemateca do MAM.

Logo após a primeira sessão, a filha adotiva do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti, iniciou sua batalha para proibi-lo.

Em 1979, a 7ª Vara Cível concedeu liminar a um mandado de segurança impetrado por Elizabeth, vetando a exibição do filme. A decisão vale até hoje.

Felizmente, o filme pode ser visto pela internet:


Di-Glauber resultou de um acordo entre Di e Glauber.

Na década de 1970, num encontro em Paris, os dois combinaram que quem morresse primeiro registraria a imagem do outro.

Se Glauber batesse as botas, seria pintado por Di, se este fosse primeiro, como ocorreu, seria filmado pelo cineasta.

Quando soube da morte do amigo, o cineasta o cumpriu à risca: registrou as últimas imagens do artista plástico...


O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, em 1977, antes que a Justiça proibisse sua exibição.

Para a família, a obra de Glauber foi desrespeitosa à memória de Di.

O cineasta chegou ao velório com apenas com uma câmera e o ator Joel Barcelos.

Trouxe consigo um poema que escrevera pouco antes ao amigo e passou a lê-lo enquanto dirigia as filmagens. As cenas são performáticas. Glauber, ao mesmo tempo, dirige e atua ao lado de Barcelos.

Mas o que ocasionou indignação de fato à família foi o destaque dado no filme à modelo mulata Marina Montini, que era amante do pintor.

Às reclamações dos familiares, esta foi a justificativa de Glauber:

"Filmar meu amigo Di morto foi um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes. Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipocritotrágica condição".

Di Cavalcanti muito jovem foi ilustrador de revistas no Rio de Janeiro, onde nasceu.

Em 1916, mudou-se para São Paulo para fazer direito e tornou-se amigo de Mário e Oswald de Andrade.

Foram por ele criados o catálogo e o programa da Semana de Arte Moderna, realizada em 1922 no Teatro Municipal de São Paulo.

Foi para a Europa em 1923, tendo exibido sua obra em várias cidades: Londres, Berlim, Bruxelas, Amsterdã e Paris.

Conheceu Pablo Picasso, Fernand Léger, Matisse, Erik Satie, Jean Cocteau e outros intelectuais franceses.

Retornou ao Brasil em 1926 e ingressou no Partido Comunista. Seguiu fazendo ilustrações.

Fez nova viagem a Paris e criou os painéis de decoração do Teatro João Caetano no Rio de Janeiro.

Mulatas de Di Cavalcanti, de 1927

Os anos 1930 encontram Di Cavalcanti imerso em dúvidas quanto à sua liberdade como homem e artista e quanto aos dogmas partidários comunistas.

Em 1932, fundou, em São Paulo, com Flávio de Carvalho, Antonio Gomide e Carlos Prado, o Clube dos Artistas Modernos.

Foi preso em 1932 e em 1936 por ser militante comunista.

Em 1937, escapou da prisão e fugiu para Paris, onde permaneceu até 1940.

Com a iminência da Segunda Guerra, deixou Paris e retornou ao Brasil, fixando-se em São Paulo. Um lote de mais de quarenta obras despachadas da Europa não chegaram ao destino, extraviando-se.

Passou a combater abertamente o abstracionismo através de conferências e artigos.
Em 1946, retornou a Paris em busca dos quadros desaparecidos.

Em 1954, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro realizou exposição retrospectiva de seus trabalhos.

Em 1956 participou da Bienal de Veneza e recebeu o I Prêmio da Mostra Internacional de Arte Sacra de Trieste.

Na construção de Brasília, recebeu a incumbência de Oscar Niemeyer para a criação de imagens para tapeçaria a ser instalada no Palácio da Alvorada.

Também na capital federal pintou as estações para a via-sacra da Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida.

Em 1965, lançou seu livro Reminiscências líricas de um perfeito carioca.

A modelo Marina Montini, principal causa dos conflitos que levaram à proibição do documentário de Glauber Rocha, foi a musa do pintor dos anos 1970 até sua morte.

Glauber Rocha, bem, não foi só o principal cineasta brasileiro.

Foi um dos mais importantes diretores de filmes de arte da história do cinema, ao lado de maiorais como Sergei Eisenstein, Federico Fellini, Orson Welles, Alfred Hitchcock e Jean-Luc Godard.

Como no Brasil santo de casa nunca faz milagres, pelo menos ouçam ao depoimento de Martin Scorcese sobre Glauber, a seguir, para terem ideia da importância do diretor baiano:


A seguir, o genial filme de Glauber O dragão da maldade contra o santo guerreiro legendado em francês:


O "formidável" poema citado no início de Di-Glauber é do grande poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914):

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Nenhum comentário:

Postar um comentário