sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Do prostíbulo à ópera

Kurt Weill (1900-1950) já era um compositor consolidado. Um dia foi tomar umas e outras num cabaré de Berlin.

Uma cantora de voz estridente se apresentava.


Weill se desconcentrou da conversa dos amigos e ficou a observá-la.

No final do número, seu veredito: “Que cantora magnífica!”


Lotte Lenya e Kurt Weill
Os amigos ficaram estupefatos. Chamaram-no de louco. Como podia dizer isso daquela magrela feiosa com voz de taquara rachada?

Mas estava convicto: “Ainda não é uma grande cantora. Mas será!”


Nos anos seguintes se empenhou não só em transformá-la em uma das principais cantoras populares da Alemanha, como se casou com sua protegida e a pôs no estrelato da companhia de seu parceiro Bertolt Brecht (1898-1956).


Lotte Lenya (1898-1981) era o nome dela...




As grandes composições de Kurt Weill com Bertolt Brecht são, hoje, indissociáveis da voz de Lenya. É sua maior intérprete e realmente se tornou uma cantora “magnífica”.


Sua carreira se estendeu para os EUA, para onde se mudou com Weill.


Dentre vários papéis, interpretou por lá a agente da KGB Rosa Klebb, no filme 007 – Ordem para matar, dirigido por Terence Young e estrelado por Sean Conney.

Lotte Lenya nasceu num subúrbio de Viena, Áustria. A infância e a juventude foram difíceis. O pai era alcoólatra e o ambiente familiar, péssimo.


Prostitui-se a partir dos 14 anos para ajudar a sustentar os irmãos.


Em 1924, como cantora de prostíbulo, conheceu Kurt Weill em Berlin.


Sua estreia no grupo de Brecht foi em 1928, como uma das cantoras e intérpretes da peça Ascensão e queda da cidade de Mahagony.


Nos anos 1980, esta mesma peça seria o principal espetáculo montado, no Brasil, pelo ótimo grupo Ornintorrinco, formado então por Cacá Rosset, Luiz Roberto Galizia, Maria Alice Vergueiro, entre outros.


Galizia (á esquerda) em Mahagony

Weill descreve sua mulher como cantora em poucas palavras: “Não sabe ler uma pauta, mas quando canta a atenção do público se volta para ela é como se um Caruso estivesse no palco.”

Em 1933, com a ascensão de Hitler, o “triunvirato” Weill-Brecht-Lenya emigra para os Estados Unidos após uma breve passagem pela França.

Weill, de origem judia, inicia uma nova carreira. É requisitado pela Broadway. Trabalha incessantemente até triunfar com o musical Lady in the Dark em 1941.

A morte de Weill, em 1950, marca profundamente Lotte Lenya. Brecht e Helena Weigel já haviam retornado para a Alemanha, mais exatamente para Berlim Oriental, do lado comunista.


Bertolt Brecht
Nos EUA, Lotte participa de uma montagem de Ópera dos três vinténs, de Brecht/Weill, e depois fica no ostracismo por quase uma década.

Hollywood a descobre nos anos 1960. Participa de vários filmes a partir de então, dentre eles o citado 007.


Dedicou-se, até o fim da vida, a divulgar a obra de Weill e Brecht pelos EUA, Europa e países americanos.


Uma pequena mostra de Lenya cantando Weill/Brecht:





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