sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Elo entre culturas medievais

Literatura de verdade não é aquela das gôndolas dos mercados, nem a das listas dos mais vendidos que proliferam pelas livrarias e sites de venda.

Menos ainda aquela parcamente pincelada pela Wikipedia.

Permeia o subconsciente dos escritores, leitores mais criteriosos e, sobretudo, eruditos.


Não disse jornalistas ou professores universitários. Eruditos de fato. Que costumam ser raros e discretos.

No século XIV a Europa passou por uma crise sem precedentes, com o fim do sistema feudal. Crise econômica, política, cultural e, sobretudo, de identidade.


Sucedem-se problemas diversos: revoltas camponesas, guerras civis e a proliferação da peste negra.


Ilustração da peste negra de 1411

Em meio a tudo surge uma nova classe governante: a burguesia...



No então poderoso reino da Espanha acentuam-se os conflitos entre a nobreza e a monarquia.


Com o surgimento de uma elite pré-capitalista, rompe-se também a harmonia entre as três culturas que dominaram o período: a cristã, a islâmica e, em menor grau, a judaica.


Nesse ambiente pesado, prolifera uma literatura de crítica social, próxima da literatura de esquerda engajada dos nossos dias, que colaborava para aumentar a sensação de insegurança geral.


Sem Tob, um dos grandes poetas desse período confuso, ainda é o pouco conhecido entre nós. Viveu nas regiões de Carrión e Soria, na Castela.


Além de judeu, tinha bom trânsito entre os representantes das culturas islâmica e cristã. Sua obra mais conhecida, Proverbios Morales, reflete isso.


É constituída por uma coleção de observações e reflexões sobre as culturas judaica, muçulmana e cristã.  Seu tema principal é a relatividade do mundo e das coisas.


Dele vem a máxima de que o mundo não é bom nem mal, o homem é que o faz assim.


Como na letra de Chico Brito, de Geraldo Pereira, gravado por Paulinho da Viola no excelente disco Zumbido: “Se o homem nasceu bom e bom não se conservou/A culpa é da sociedade que o transformou...”


Ouçam para conferir:


Para os católicos, a poesia didática e alentadora de Tob representava muito. É tido como “el santo judío”.


Seus conselhos eram também levados com grande consideração pelos últimos representantes muçulmanos ainda presentes na Europa.

Foi um dos primeiros autores judeus a publicar em espanhol.


A principal obra de Tob, no entanto, foi escrita em hebraico: O debate entre o cálamo e a tesoura.


Segundo Zipora Rubinstein tratava-se de uma obra de entretenimento destinada ao deleite de letrados e eruditos.


Também combinava aspectos das três culturas dominantes da Idade Média, mas com construção próxima da literatura moderna.


Foi projetada no estilo dos magamas árabes: narrativa rimada intercalada por poemas metrificados.

Diferente dos magamas tradicionais, o narrador se assumia-se como personagem, envolvendo-se na trama e protagonizando várias ações. Algo comum nos nossos dias com a chamada metalinguagem.


Também antecipou aspectos do barroco, que se expandiria pela Europa e América dois séculos mais tarde.


Ainda beirou a literatura burlesca de François Rabelais, que surgiu mais de um século depois.

Formado em meio à elite islâmica, Sem Tob tinha grande pendor pelas iluminuras e caligrafia.


Iluminura

Alguns exemplos da arte de caligrafia árabe:




O debate entre o cálamo e a tesoura traz uma linda dissertação sobre a brancura do papel, em contraste com o negror da tinta e a beleza da escritura.
 

Haroldo de Campos, com o apoio da falecida professora Zipora Rubinstein, versou para o português trechos da obra.
 

Zipora foi professora de língua e literatura hebraica da USP e da Universidade de Campinas. 

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