sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Existe Tom, existe Tom Zé, existe Koellreutter

Pouca gente sabe disso, mas por trás da formação do compositor e arranjador Tom Jobim e dos músicos baianos que criaram o tropicalismo há um denominador comum, além da bossa nova.

Esse denominador chama-se Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005), um dos mais importantes formadores de músicos do país.

Koellreutter chegou ao Brasil na década de 1930, fugindo do regime nazista na Alemanha.

Pertencia à conhecida Escola de Viena, surgida no vácuo das ideias de Arnold Schöenberg (1874-1971), Anton Webern (1883-1945) e Alban Berg (1885-1935).

Sua formação na antiga Áustria começou com o grande educador da música Paul Hindemit (1895-1963).
 Hans-Joachim Koellreutter
O motivo da vinda de Koellreutter para o país foi dos mais absurdos: traição familiar.

A Alemanha vivia a euforia da ascensão do nacional socialismo. Sua família era hitlerista.

O jovem Koellreutter namorava uma moça judia e seus próprios familiares o denunciaram à Gestapo, polícia política do regime.

Aportou no Rio de Janeiro e foi morar na pensão da mãe de Tom Jobim, onde conheceu o futuro principal compositor da bossa nova com apenas 13 anos e se tornou seu professor particular de piano.

Tom Jobim jovem
Na mesma época, conheceu e ficou amigo de Heitor Villa-Lobos e Mário de Andrade...



Depois passou a lecionar no Conservatório de Música do Rio de Janeiro, onde formou uma geração de músicos e arranjadores.

Em 1939, criou com Egídio de Castro e Silva o grupo Música Viva, que assumiu o dodecafonismo como estética e técnica de composição.

O próprio Koellreutter, já com português perfeito, passou a editar a revista Música Viva, porta-voz do movimento.

Em 1940, fundou o Quinteto Instrumental de São Paulo e passou três meses preso na cidade sob suspeita de espionagem.

Era um período de caça aos simpatizantes do nazismo no Brasil e todo sujeito que tivesse sobrenome alemão era um potencial suspeito.

Passou a produzir programas sobre música contemporânea na Rádio MEC e ajudou a fundar a Orquestra Sinfônica Brasileira.

Lecionou, simultaneamente, em várias instituições de ensino, inclusive em um conservatório do Uruguai.

Naturalizou-se brasileiro em 1948.

Teve entre seus alunos de composição Cláudio Santoro, Guerra Peixe e Edino Krieger. Em 1948 Santoro e Guerra Peixe romperam com o antigo mestre e passaram a criticá-lo.

Em 1950 ocorreu a maior polêmica na qual Koellreutter esteve envolvido, quando Camargo Guarnieri publicou a Carta Aberta aos Músicos e Críticos do Brasil, criticando-o indiretamente, bem como sua pedagogia musical.

Em 1954, criou a Escola de Música da Bahia, fundamental para a formação dos futuros compositores do tropicalismo, principalmente Tom Zé.


Tom Zé

Depois do golpe militar de 1964, se ausentou do Brasil por um período e passou a lecionar música na Índia e no Ceilão.

Trabalhou também no Japão e na Coreia, de onde trouxe técnicas de composição associadas ao zen-budismo, o que o aproxima de John Cage.

Regressou ao Brasil em 1975 para coordenar o Instituto Goethe. Lançou suas composições em discos e sua produção teórica em livros nas décadas seguintes.

Além das técnicas tradicionais europeias, Koellreutter incorporou outras influências dos locais onde esteve.

Da Índia trouxe conhecimentos sobre a música microtonal, que utilizou em várias de suas composições.

Também soube misturar a tecnologia eletrônica, o serialismo e a harmonia acústica aprendida com Paul Hindemith às influencias da música brasileira, criando um estilo de composição próprio.

Interessante que sua filosofia de ensino de música é idêntica ao que Ezra Pound propunha para a formação de novos escritores. Sustenta-se nos seguintes pressupostos básicos:

O professor tem de aprender com aluno o que ensinar.

Não há valores absolutos, só relativos.

Não há erro em arte, o importante é inventar o novo.

Não acredite em nada que o professor disser, em nada que você ler e em nada que você pensar.

Pergunte-se sempre o por quê.

Koellreutter ensinou e influenciou, durante toda sua vida, uma legião de músicos populares e eruditos.

Entre eles:

Djalma Corrêa, Caetano Veloso, Tom Zé, Moacir Santos, Gilberto Mendes, Marlos Nobre, Tim Rescala, Clara Sverner, Denis Mandarino, Gilberto Tinetti, Marcelo Bratke, Nelson Ayres, Paulo Moura, José Miguel Wisnik, Diogo Pacheco, Júlio Medaglia, Isaac Karabtchevsky, David Machado, Carlos Eduardo Prates, Haroldo Mauro Jr., Roberto Sion, Carlos Alberto Pinto Fonseca, Afrânio Lacerda, Jayme Amatnecks, Janete El Haouli, Teca Alencar de Brito, José Roberto Branco - Maestro Branco e Severino Filho (Os Cariocas).
 
Sem Koellreutter a música brasileira (popular e erudita) dos últimos 60 anos seria bem pobrezinha.

Aliás, ele, sim, terminou pobre. Nos últimos anos de sua vida morou no centro da cidade de São Paulo, sofrendo do Mal de Alzheimer.

Morreu no dia 13 de setembro de 2005 em consequência de uma pneumonia.

Seu acervo está preservado na Fundação Koellreutter, da Universidade Federal de São João del Rei, onde lecionou.

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