sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Lir(hic!)a Paulistana

De 1979 a 1986, na rua Teodoro Sampaio, Pinheiros, São Paulo (SP), em frente à praça Benedito Calixto, existia um dos points onde rolavam as coisas em São Paulo.

Uma sala de espetáculos particular, mas cujos proprietários eram dispostos a abrir espaço para o que rolava de novo. Principalmente em música.


Quem quiser conhecer (ou rever) aquele período fértil da produção cultural, chegou aos cinemas Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista, de Riba de Castro, um documentário sobre esse espaço.


Assista ao trailer:



Na verdade se tratava de um porão adaptado, como outros dois points culturais aberto às coisas novas da cidade na época, o Madame Satã e o Carbono 14, ambos na Bela Vista.

Pelo Lira passaram Itamar Assumpção, o punk rock de Cólera, Patifes e Inocentes, o rock de Ultraje a Rigor, Ira! e Titãs, Ná Ozetti, Premeditando o Breque, Língua de Trapo, Rumo e outros grupos...


O documentário traz depoimentos de Arrigo, do seu irmão Paulo Barnabé (banda Patifes), Luiz Tatit (Rumo), Nelson Ayres, Ná Ozzetti, Clemente (Inocentes), Cida Moreira, Wandi Doratiotto (Premeditando o Breque) e outros.

Também de artistas que não eram músicos, mas que de alguma forma tiveram seus momentos no Lira: Fernando Meirelles, Marcelo Tas, Chico Caruso e Elias Andreato.


O Lira surgiu em 1979. Um período complicado para a música popular. Gravadoras falindo, muita gente fazendo coisas (bem diferentes entre si) e querendo mostrá-las.


Chegou a lançar selo próprio e gravou discos de alguns dos músicos que se apresentaram em seu palco. Dentre eles Itamar.
 

Sem menosprezo aos músicos e artistas de vários segmentos que passaram por lá, me detenho em três: Arrigo, Itamar e Luiz Tatit.

Foram parceiros de composições entre si. Tatit compôs músicas com Itamar e, mais recentemente, com Arrigo. Arrigo e Itamar, que foram muito amigos, tiveram várias parcerias.


Arrigo e Itamar já chegaram de Londrina formados. Sempre foram muito próximos. Alguns dos músicos que tocavam com um, tocavam com o outro.


Clara Crocodilo, primeiro disco de Arrigo, foi lançado em 1980. Beleléu, o primeiro de Itamar, é do mesmo ano.


As composições de ambos misturam elementos e procedimentos da música erudita do século XX.


Em Arrigo um pouco mais, sobretudo a instrumentação percussiva de Bártok e a música serial dodecafônica de Webern, Schöemberg e Berg.


Os dois era incisivos, às vezes agressivos. A começar pelos nomes das respectivas bandas. A de Arrigo, Sabor de Veneno. A de Itamar, Isca de Polícia.


Itamar seguiu tendências populares: funk, rock e samba, principalmente. Arrigo chegou a lançar peças eruditas.


Em 1984, Arrigo lançou Tubarões Voadores, baseado em uma história em quadrinhos de Luiz Gê.


Ao longo dos anos, Arrigo lançou dois discos de música contemporânea em homenagem a seu parceiro e companheiro de jornada: Gigante Negão (1998) e Missa in memoriam Itamar Assumpção (2007).


Itamar teve uma discografia maior: lançou 15 discos até um câncer o ter levado em 2003.


Arrigo compôs muitas trilhas sonoras para filmes, peças de teatro e, sobretudo, dança.


Atualmente, apresenta um programa na Rádio Cultura de São Paulo: o Supertônica.


Seu último trabalho com música popular é o show Pô, Amar é Importante, com a banda O Neurótico e as Histéricas, cujas instrumentistas são mulheres.

No show apresenta canções do compositor santista Hermelino Neder, que foi seu parceiro e amigo.


Veja uma mostra de duas canções de Neder com o grupo:



Entre 2011 e 2012, Arrigo produziu e apresentou um show satírico com duo de piano e violão sobre o compositor Lupicínio Rodrigues. Apesar de o som do vídeo a seguir não ser essas coisas, dá para ter ideia:


Itamar nasceu em Tietê (SP), mas sua formação se deu em Londrina.

Dentre seus vários parceiros estão os poetas paranaenses Paulo Leminski e Alice Ruiz.


Em 1994 lançou a série Bicho de Sete Cabeças (dois CDs), acompanhado por uma banda formada também por mulheres: Orquídeas Negras.


Em 1995 lançou um CD com músicas de Ataulfo Alves, novamente com a Isca de Polícia.


Gravou com vários outros intérpretes, dentre os quais Naná Vasconcelos (fizeram um disco em parceria), Cássia Eller, Zélia Duncan, Tom Zé, Rita Lee, Jards Macalé e outros.


Luiz Tatit foi um dos fundadores do Grupo Rumo, em 1980. Com o grupo gravou seis discos e sozinho, outros cinco.


Luiz Tatit
Concilia as atividades como músico com a carreira acadêmica. Caminho até a certa altura também seguido por Arnaldo Antunes. Mas Antunes deixou a carreira acadêmica e Tatit se manteve nela.

É pesquisador de linguística, porém estuda temas associados à canção popular brasileira.

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