sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Literatura dos extremos

Qualquer coisa que se escreva é pouco para esclarecer o que representa James Joyce (1882-1941) para a literatura e as artes em geral.

Assim como qualquer leitura do que ele próprio nos legou requer muito mais para entendê-lo.



James Joyce

Artistas muito especiais como Joyce, Marcel Duchamp e Raymond Roussel (sobre o qual há o texto CarRoussel nesta edição) são universos à parte.

Depois de ver o que fizeram e ler sobre eles, você tem a sensação de que o resto é o resto.


No caso de Joyce, qualquer literatura convencional, com princípio, meio e fim, soa óbvia depois de lê-lo...



Sua mulher Nora Barnacle era uma camareira de hotel quando a conheceu. Na velhice de ambos perguntaram se ela gostava de literatura.


“Não conheço nada de literatura. Nem nunca li um livro. Tenho cuidado do maior escritor de todos os tempos. Creio que já é o bastante.”


Toda prosa de Joyce soa poesia. E é. Diria Torquato Neto, sempre com muita autoridade no assunto: “A poesia é a mãe da artes.”


Em 1921, foi concluída a primeira grande revolução de Joyce na literatura: Ulysses.


Um romance sem enredo definido, cujas partes correspondem – não na forma de argumento, mas de formatos construtivos – a cada divisão da Odisseia, de Homero.

Começara a escrever o romance 11 anos antes, para tratar de fatos ocorridos em um só dia na sua cidade natal, Dublin. Aliás, fatos reais, por ele próprio vividos.


Antes de Ulysses, ele já havia publicado o livro de poemas Música de câmara (na verdade letras para canções), o livro de contos Dublinenses e o romance autobiográfico Retrato de um artista quando jovem.


O herói do Retrato – Stephen Dedalus – reaparece em Ulysses, porém no papel de filho adotado pelo personagem principal, Leopold Bloom, um judeu de origem húngara.


No decorrer do dia em que se passa o romance, Bloom anda de um lado para o outro e puxa o fio da história, juntamente com sua amante Molly.


O livro é uma avalanche de impressões semiarticuladas do personagem principal sobre o dia, em formatos muito rígidos.


Cada capítulo foi escrito num estilo. Sendo que o da maternidade engloba vários estilos correspondentes à história da literatura de língua inglesa, simbolizando o crescimento do feto no útero.


Ou seja, o feto da cultura crescendo no útero das nações de língua inglesa. 

Finnegans wake foi concluído em 1939, quando o autor se encontrava quase cego. Grande parte do livro foi manuscrita em grandes cartolinas para que o autor pudesse enxergar.


O empenho para não perder a visão começou cedo

O livro mostra a história humana como um sonho na mente do zelador H.C. Earwicker.

Passa-se em Dublin, como toda a literatura de Joyce.

Aqui os estilos utilizados são adequados ao sonho. A linguagem se desloca e muda o tempo todo. As palavras se aglutinam, se deformam, gerando novos significados.


Permeiam suas páginas personagens da história humana identificados à família de Earwicker: ele próprio, a mulher e os três filhos.


É, talvez, a mais experimental obra literária já realizada.


A cidade, onde tudo se passa, e a sociedade humana estão em constante mutação, sempre de forma circular, conforme o conceito de história de Giambattista Vico (1668-1744) e a metafísica de Giordano Bruno (1548-1600).

O tempo gira em torno de si mesmo, agregado a um rio que corre para o mar e, deste, em forma de chuva, volta à nascente.


É a vida se renova sempre.


Ulysses termina com um sim. Finnegans wake termina com uma frase inconcluída que remete ao início do livro, obedecendo a sua circularidade.


De família muito pobre, James Joyce estudou em bons colégios católicos irlandeses, graças a bolsas de estudo.


Embora não fosse religioso, uma das grandes influências em sua formação foi a filosofia de Tomás de Aquino (1225-1274).


Desde cedo estudou línguas. Com 20 anos lia fluentemente francês e italiano.


Sua primeira grande identificação literária foi com o dramaturgo norueguês Henrik Iben (1828-1906).


Henrik Ibsen

Exilou-se pela primeira vez em 1902, para tentar estudar medicina em Paris.

Dois anos depois, já casado com Nora, fugiu em difinitivo da Irlanda e nunca mais retornou. Fixou-se em Trieste (Itália), onde sobreviviu como professor de escola de línguas.


Mudou de residência e de país sucessivas vezes.


Em Paris, participa do movimento imagista, liderado por Ezra Pound (1885-1972), que se tornaria um dos principais batalhadores pela divulgação de sua obra ao longo dos anos.


Ezra Pound

Ulysses provém de um dos contos escritos para o livro Dublinenses, sobre um negociante de anúncios chamado Leopold Bloom.

A técnica narrativa em torno da qual se amarra o enredo do romance foi por ele denominada "fluxo de consciência".


Tudo gira em torno da estrutura da Odisseia. O Ulisses homérico é Leopold Bloom. Seu filho Telêmaco é Stephen Dedalus. E sua esposa Penélope, a cantora de cabaré e prostituta Molly.

O livro descreve a vida dublinense, com sua degradação e monotonia. Joyce afirmava que se Dublin fosse destruída por alguma catástrofe, poderia ser reconstruída tijolo por tijolo, usando como modelo sua obra.


O livro consiste em dezoito capítulos, cada um cobrindo aproximadamente uma hora do dia, começando por volta das 8h da manhã e terminando em algum ponto após 2h da madrugada seguinte.


Como já disse, cada um dos dezoito capítulos emprega seu próprio estilo literário.


Quando concluiu Ulysses, Joyce parou de escrever por cerca de dois anos e retomou as atividades em 1923 com um projeto complexo, chamado inicialmente de work in progress (trabalho em andamento).


Era Finnegans wake. Suas partes foram publicadas em diversas revistas, conforme as concluía.


Em 1930, seu trabalho empacou, devido a preocupação com a saúde mental de sua filha Lucia, dos problemas financeiros e da perda da visão.


Para a retomada do livro foi determinante o estímulo e apoio de um jovem escritor irlandês também exilado: Samuel Beckett (1906-1989).


Samuel Beckett

Os fluxos de consciência, alusões literárias e livres associações oníricas foram levados ao extremo em Finnegans wake.

Joyce abandonou todas as convencionais construções de enredo.


Além do uso frequente de neologismos e arcaísmos, muito dos jogos de palavras do livro enraízam-se no uso de trocadilhos multilíngues que conectam uma gama de idiomas.

A abordagem aproxima-se de Lewis Carroll, mas é muito mais elaborada que a do excritor e matemático inglês. Para começar, o livro de Joyce utilizou composições de palavras em mais de vinte idiomas.



Lewis Carroll
O papel de Beckett era reunir palavras desses idiomas em cartões para Joyce usar e, à medida que a visão do autor piorava, e escrever o texto enquanto ele ditava.

As traduções mais confiáveis sobre as duas grandes obras de Joyce no Brasil são a de Antônio Houaiss de Ulysses e a de partes do Finnegans wake pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos.

Os textos originais de Ulysses, Chamber music e Dubliners podem ser baixados por meio do site Domínio Público.

As principais leituras para entender Joyce são os livros:

Homem comum enfim, de Anthony Burgess, O castelo de Excel, de Edmund Wilson, e a biografia James Joyce, de Richard Elmann.

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