segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

“Little” Scott, o mais jovem homem velho

O cantor de jazz “Little” Jimmy Scott (nascido em Cleveland, Ohio, em 1925) está entre os vários músicos populares interessantes que me foram apresentados por André Prada, médico e músico de Campinas.

Scott é um cantor de técnica excepcional. Mas, ao longo da carreira, suas particularidades físicas causaram indisposição. Os empresários achavam estranho aquele tipo raquítico, de voz feminina e não quiseram continuar investindo nele.


Devido à Síndrome de Kallmann, que paralisou o desenvolvimento de suas cordas vocais e seu crescimento, Scott sempre teve a voz de contralto muito, muito elevada.

Jimmy Scott aos 25 anos
Sua carreira passou por vários altos e baixos desde que começou a cantar profissionalmente nos anos 1950.

Até que no final dos anos 1960 desistiu de vez e foi trabalhar como ascensorista num hotel de sua cidade natal.

Em 1991, com 67 anos, soltou a voz no enterro de seu amigo, também músico, Doc Pomus, e todos que estava presentes ficaram de queixos caídos.


Lou Reed, que admirava Pomus e Scott, estava presente e levou o nanico para cantar em seu show Power and Gloria, de 1992...


Daí por diante as coisas começaram a clarear. Foi chamado para cantar a canção tema do seriado para TV Twin Peaks, de David Lynch. Cantou a canção Sycamore Trees, com letra de Lynch e música de Angelo Badalamenti.


No mesmo ano lançou o álbum All the way. Em 1994, lançou o álbum de jazz-gospel Heaven.


Outros álbuns se sucederam, mas seu grande sucesso foi Holding Back The Years, produzido por Lou Reed e David Bowie.

Jimmy Scott e os amigos Laurie Anderson, Lou Reed e David Bowie
No álbum canta composições de compositores mais recentes: Nothing Compares 2U (Prince), Jealous Guy (John Lennon), Almost Blue (Elvis Costello) e Sorry Seems To Be The Hardest Word (Elton John e Bernie Taupin).

Ouçam sua maravilhosa interpretação de Nothing Compares 2U:

 
Até hoje, com mais de 70 anos, parece uma criança de cabelos brancos.

Quando criança de fato, cantava ao lado da mãe, pianista, numa igreja. Sua paternidade é desconhecida. Aos treze anos, ficou órfão quando sua mãe foi morta por atropelamento.


Embora já tivesse mais de 20 anos quando gravou seu primeiro disco, por muito tempo foi conhecido como "Little” Jimmy Scott.


Como se fosse uma criança prodígio, tal como ocorreu com Steve Wonder.

Gravou seu vocal em Embraceable You, com Charlie Parker, do álbum One Night in Birdland, embora tenha sido creditada ao vocalista Chubby Newsome.


Mas o mercado foi se fechando, apesar do seu fraseado extraordinário e de ser o cantor favorito de outros artistas.


Em 1963, assinou contrato com a gravadora de Ray Charles, a Tangerine Registros. Sob a supervisão do próprio Charles, gravou um dos mais perfeitos álbuns de jazz de todos os tempos: Falling in Love is Wonderful.


Enquanto curtia a lua de mel com sua mulher, soube que o disco tivera de ser retirado das prateleiras por causa de um contrato com uma gravadora anterior que não havia se encerrado.


O álbum com a gravadora de Ray Charles só se tornou disponível para o público quarenta anos mais tarde.


Voltou a gravar o álbum The Source, em 1969, mas o problema se repetiu. O álbum só foi liberado em 2001.


A carreira de Scott parecia ter chegado ao fim.


Até que resolveu soltar a voz no enterro de Doc Pomus, em 1991.


Scott dedilha um cavaquinho brasileiro
Desde então o velhinho com cara de criança é considerado o principal cantor vivo da história do jazz e, por enquanto, não surgiu nenhuma perrenga contratual para lhe atrapalhar a vida.

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