sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Mais um bom poeta que ninguém conhece

Quase ninguém sabe quem foi Henrique do Valle.

Poeta barra pesada que se foi em 1981, com apenas 23 anos. 

Nasceu no Rio de Janeiro, mas sua formação se deu na Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul.
 

Viveu pouco, mas teve produção madura precoce.
 
Uma das poucas imagens de Henrique do Valle

Com apenas 14 anos, em 1972 publicou em Buenos Aires La espesa verdad. Em 1979, já em Porto Alegre, mais dois livros: Vazio da carne e Anotações do tempo.
 

Filho do jornalista de esquerda João Moura Valle e sobrinho de João Goulart, cresceu no exílio.
 

Mas seu exílio não era político, era interno. Os impulsos autodestutivos o levaram muito cedo.

Como Torquato Neto, vivia num entra e sai de internações em hospitais e clínicas psiquiátricas...

Torquato esteve do “lado de dentro” poucas vezes. Valle, pelo que consta, foi internado mais de dez vezes.

Henrique do Valle era conhecedor de vários idiomas. Traduziu, entre outros, Antonin Artaud, Allen Ginsberg e Giuseppe Ungaretti.

Escrevia crítica cultural para publicações de esquerda, mas mesmo nestas foi perdendo espaço, devido às considerações sempre muito ácidas.
 

Sobre Cecília Meirelles: “Velha decrépita.”
 

Sobre a política cultural governamental: “Só existe para manter status e aparência de que faz alguma coisa.”
 

Gostava de modo especial de Baudelaire, Shakespeare, Fernando Pessoa, Drummond, Mario Quintana, Artaud, Rilke e Rimbaud.
 

Dependente químico, alquímico e de tudo que se possa pensar, escreveu uma novela sobre o mundo dos viciados da capital gaúcha: Uma canção do absurdo.
 

Circulava a cidade normalmente no período noturno, se drogando pelos becos.

À sua namorada, também dependente química e, segundo consta, uma linda mulher, chamava ironicamente de "Misericórdia".

Em Buenos Aires trabalhou na extinta revista Crisis, na época em que o uruguaio Eduardo Galeano era redator.
 

Por meio de sua poesia agressiva denunciava a estupidez do autoritarismo e a arrogância dos que se arvoram a donos do mundo e da verdade.
 

Depoimento de Caio Fernando Abreu sobre o poeta em vida:
 

“Ele é incrível, incrível mesmo. Nunca vi ninguém mais drogado. Tem marcas de picadas nas veias dos tornozelos. Mas ele é muito muito muito bom. E dói olhar para ele, porque está se matando e sabe disso.”
 

Henrique, claro, se matou mesmo. Veja os versos do seu poema Suicídio:

Morrer
apagar a miséria
que te queima o ombro

Morrer
destruir a mágoa
que te consome

Morrer
penetrar no nada
sem resolver nada

2 comentários:

  1. Onde encontro as obras que ele escreveu completas? Nunca acho na internet ou em livrarias tradicionais.

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