terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Marceneiro, com muita honra

Diferente dos EUA e Inglaterra, cuja música popular é integrada e se renova ora de um lado ou do outro do oceano, Brasil e Portugal mantêm tradições distintas.

A música popular portuguesa, muito rica para um país de tão diminutas dimensões territoriais, tem maior intercâmbio com as ex-colônias africanas, sobretudo a pujante Cabo Verde.


Nesta os intérpretes e compositores também incorporaram influências da música popular brasileira, sobretudo a urbana do Rio de Janeiro.

O fado, principal gênero da música popular portuguesa, é tradicionalmente interpretado com certa afetação.


Esse exagero lhe é inerente.

Alfredo Marceneiro
Ao cantar um fado o intérprete parece jorrar tudo que tem de recalcado para fora.


As próprias letras trazem esse impulso d’alma.

Até o instrumento tradicionalmente utilizado – a guitarra portuguesa, que tem seis pares de cordas – soa com tal latência.

A simplicidade da estrutura melódica do fado valoriza a interpretação vocal.


Com forte pendor evocativo, a poesia do fado apela à comunhão entre intérprete, músicos e ouvintes.

Em quadras glosadas, quintilhas, sextilhas, decassílabos e alexandrinos, sua poesia popular evoca os temas ligados ao amor, à sorte e ao destino individual, à narrativa do cotidiano da cidade...


Um dos seus grandes intérpretes é Alfredo Marceneiro, que me foi apresentado por André Prada.


André é médico e músico. O falecido poeta Décio Pignatari, pai de seu amigo e também músico Dante, foi quem lhe indicou o grande fadista.

A voz de Marceneiro é inconfundível.  Tem um timbre só dele. Também destoa dos demais intérpretes pela criteriosa escolha do repertório.

Qual Macalé no Brasil, o português pinça do grande acervo de composições do gênero aquelas com diferenciais construtivos, sobretudo quanto às letras.

Como Moreira da Silva, dividiu-se entre a música e outra profissão.


Era marceneiro de estaleiros. Fazia móveis para navios. Não só adotou a função como nome artístico, como se anunciava nos shows: “Marceneiro, com muita honra...”

Figura alegre, divertida, suas apresentações eram repletos de histórias e anedotas.


Boêmio costumaz, o público costumava provocá-lo com alusões às farras, brigas e demais aprontações das quais notoriamente teria participado.

Das muitas músicas por ele gravadas, destaca-se a Casa da Mariquinha, de autoria do jornalista e poeta Silva Tavares.


A música ficou tão conhecida na voz do cantor, que Tavares criou outras três canções de continuidade.

Ouça a seguir a canção original com Marceneiro. Na foto aparece o cantor com uma maquete por ele próprio construída da fachada da casa descrita pela letra.


Casa da Mariquinha é puteiro.

A canção narra, de forma ora debochada ora elogiosa, os arranjos ornamentais que as prostitutas fazem na casa para receber seus visitantes.

Nascido nos contextos populares da Lisboa oitocentista, o fado surgiu de forma espontânea, como todos os gêneros de canções populares.


De início em ambientes mundanos nas esperas das touradas, ruas e vielas, tabernas populares e “casas da Mariquinha”.

Em sua primeira fase, estava associado à marginalidade e transgressão, em ambientes portuários frequentados por prostitutas e marujos.

Seus compositores e cantores pioneiros são descritos como tipos rufiões de voz áspera e rouca, ostentando tatuagens, hábeis no manejo da navalha, recorrendo às gírias e aos termos do seu meio.

Essa associação do fado às esferas mais marginais da sociedade está vinculada à rejeição inicial por parte da intelectualidade portuguesa.


Isso também ocorreu com o samba, o blues, o tango e outros gêneros, que foram assimilados pela elite na marra.

As primeiras letras de fado eram, na sua maioria, anônimas, sucessivamente transmitidas pela tradição oral.

O teatro de revista, surgido em Lisboa em meados do século XIX, descobriu as potencialidades do fado e passou a integrá-lo nos seus quadros musicais, ampliando seu público.

Com refrões e orquestrado, o fado veio a ser cantado por famosas atrizes. Surgiu com o teatro de revista também o fado para ser dançado, sem letra.

A partir das primeiras décadas do século XX o gênero passou a ter aceitação de diferentes camadas sociais, consolidando sua aceitação.

Surgiram as primeiras companhias de fadistas, acompanhadas por vários instrumentistas.


Algumas tinham até dançarinos, como fazem os cantores populares atuais. Uma dessas companhias foi a de Alfredo Marceneiro.

Amália Rodrigues, mais conhecida intérprete de fado no Brasil, não foi a única grande estrela do gênero.


Há vários intérpretes tão populares quanto ela, como Fernando Farinha, Hermínia Silva, Berta Cardoso, Deolinda Rodrigues, Raul Nery e Jaime Santos.

O fado tornou populares letristas como Henrique Rego, João da Mata, Gabriel de Oliveira, Frederico de Brito, Carlos Conde e João Linhares Barbosa.

Um de seus principais guitarristas foi Armando Augusto Freire (1891-1946), compositor de inúmeros fados.

Um dos principais nomes atuais do fado é António Zambujo, que flerta com outros gêneros, dentre os quais a bossa nova brasileira e o jazz.


Zambujo é compositor, intérprete e também instrumentista (clarinetista). Seus shows são frequentes no Brasil.

A seguir, com Zambujo a canção Quase um fado, dele próprio:



Como o grande intérprete cubano Bola de Nieve, Zambujo começou a carreira como instrumentista: participava do grupo Clube do Fado.


Ele tem boa proximidade com músicos brasileiros, dentre os quais Caetano Veloso e Roberta Sá.

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