segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Mestre do escracho

François Rabelais (1494-1553), criador das extraordinárias histórias sobre o gigante Pantagruel e seu pai, Gargântua, foi uma das maiores expressões da literatura francesa do século XVI.

E tem sido uma das principais influências para a literatura mundial desde então.


Retrato caricatural de François Rabelais
Uma das principais obras do modernismo brasileiro, Macunaíma, de Mário de Andrade, veio no vácuo das obras de Rabelais.

Outras duas tão importantes ou mais: Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande. As duas de Oswald de Andrade, sobre quem "falarei" noutro artigo, idem... 


Sua importância é próxima da de James Joyce em nosso tempo.
 

Seus seis livros capitais, qual o Ulysses de Joyce, mesclam vários estilos: prosa, verso, histórias pistorescas e muito divertidas, discursos científicos parodiados, alegorias, cartas, descrições realistas, diálogos, monólogos, cenas burlescas, etc.

O texto original de Ulysses encontra-se no site Domínio Público. Pesquise pelo nome do autor (James Joyce) e achará entre as obras disponibilizadas pelo site governamental.

A exuberância construtiva da obra de Rabelais é notável. Só comparável, mesmo, à obra de Joyce.


Outro escritor que produziu importante obra no vácuo das obras de Rabelais foi Gustave Flaubert, com o excelente romance não concluído Bouvard et Pécouchet.
 

Mais um livro cujo texto original pode ser acessado pelo site Domínio Público.

Outro autor altamente influenciado por Rabelais foi Alfred Jarry, com sua série de textos dramáticos escatológicos sobre o personagem Rei Ubu.

Franciscano, Rabelais levou vida errante a serviço da igreja. Fixou-se quando passou a exercer a medicina.

Como clérigo, serviu em reinos de línguas francesa, alemã, italiana e espanhola. Dominava fluentemente os quatro idiomas, além do grego e do latim.
 

A vivência em diferentes culturas europeias lhe proporcionou subsídios para enriquecer as histórias do seu gigante comilão.
 
Mas era também um homem de ciências. Foi importante tradutor de obras da Grécia antiga sobre medicina.

As histórias sobre Pantagruel e seu pai Gargântua situam-se além do verossímel e do sério.


São elas:


Os horríveis e espantosos feitos e proezas do mal-afamado Pantagruel

Prognósticos pantagruélicos

A vida inestimável do grande Gargântua, pai de Pantagruel

O terceiro livro dos fatos e ditos heróicos do nobre Pantagruel 

Tem mais...

Condenado pelo tribunal dos que não sabem rir, Rabelais escapou de ter a cabeça decepada por um carrasco, em situação similar à vivida por Dostoiévski, que teve a condenação à morte perdoada no último instante.

Mas Rabelais foi condenado a parar de escrever depois de sua obra, em conjunto, ter sido condenada por um tribunal de doutores da Sourbonne.

Também não pôde continuar a exercer a medicina. Voltou então à vida errante e publicou, clandestinamente, os dois últimos volumes da série:

O quarto livro de Pantagruel

O quinto livro de Pantagruel
 
Um dado curioso: jura que escreveu suas histórias burlescas com o propósito de aliviar o sofrimento dos doentes que tratava.


Defendia a função curativa do riso. A mesma que é posta em prática, no Brasil, pelos Doutores da Alegria, ONG formada por médicos que se vestem de palhaços e divertem os pacientes com propósitos terapêuticos.


Sabe-se, hoje, que uma boa risada estimula a produção de adrenalina e endomorfinas, que propiciam sensação de bem-estar e consecutiva melhora da imunidade.


Na verdade, o que complicou a vida de Rabelais não foram os propósitos científicos, mas os deboches e ironias a nomes de poderosos da política e da igreja de sua época.


Mesmo que não saibamos detalhes das pessoas e das cenas aos quais remetem, são muito divertidas. Leiam para conferir!

O acesso à sua obra quase completa de Rabelais – em francês e em versão para inglês – encontra-se também no site Domínio Público.

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