terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Modéstia em cultura é deplorável

Quando criança, na zona rural, não tínhamos nada.

Morava numa casa de sítio com a família. Não éramos pobres. A zona rural brasileira é que era assim. Não tínhamos Natal, feriados, presente de aniversário, nada do nada.

O único meio de comunicação mais ou menos constante era o rádio (de pilha). Ainda não havia energia.
A televisão chegou com a energia, lá pelos anos 1970. Mas eu já me encontrava fora.

Vez em quando meu pai ia à comarca, de onde trazia gibis, revistas, jornais, romances populares e as poucas novidades que encontrava por lá.

A comarca era também uma cidadezinha mirrada.

Havia um vilarejo rural próximo de casa – a cerca de um quilômetro do sítio – aonde ia ouvir os papos furados dos bebuns.

Não bebia, claro. Ainda não! Ficava por lá assuntando as conversas maliciosas dos pingaiadas. Era o que havia, para mim, de mais avançado naquela época.

Meu pai e meu avô também eram ótimos contadores de histórias. Adorava ouvi-los. Repetiam causos que eu já conhecia, mas sempre com uma nova versão.

Ouvi dezenas de vezes meu pai contar a história de uma onça que ele supostamente teria matado. Cada vez era um enredo diferente. Essa onça decerto nunca existiu, a não ser na imaginação dele.

O livro ora publicado – O homem que sabia ouvir – traz muitas das histórias que ouvi naquela época, lógico que formatadas com alguma sofisticação narrativa, condizente com a estrutura e linguagem propostas.



Mas, basicamente, o livro é isso: literatura escrita proveniente de literatura oral...

Muita literatura escrita se originou assim.

A começar pelos livrões religiosos antigos: a Torá (Velho Testamento), a Bíblia, o Corão, a Ilíada, a Odisseia, etc..

Mas há muitas obras da era da escrita que procederam da literatura oral.

Dentre as quais dois dos principais romances brasileiros modernos: Grandes sertões: veredas (Guimarães Rosa) e Macunaíma (Mário de Andrade).

Leia-os e confirmarão o que estou afirmando.
 
O homem que sabia ouvir foi elaborado e escrito para proporcionar leitura fluente, fácil. É para se digerido numa tacada – inclusive porque é bem magrinho (em torno de 160 páginas).

Mas há detalhes que a mera passada de olhos para entretenimento não revela.
 
É impossível captar o que uma obra representa com apenas uma leitura.

Não pretendo, com esse livro, seguir a bosta do preceito do cidadão de classe média que honra os deveres: ter filhos, plantar árvore, escrever um livro.

Não creio em Deus, não creio na família, não creio no Estado, muito menos nos partidos políticos, e não nutro simpatia por cidadãos bem-realizados.


Acomodados folgados.

Acho, sim, que temos obrigação de tentar realizar coisas, sempre, na medida do nosso esforço e capacidade. Quando se alcança algum objetivo, é hora de já começar a pensar em outro.


Meu desejo é colaborar com a obra maior, que é a literatura de todos os povos, de todos os tempos, de todas as culturas e línguas, feita por pequenos, médios e grandes escritores.


Não quero ser O cara. Mas também não quero ser o bostão que produz para honrar as obrigações.

Sem essa de modéstia.

Quem se mete a produzir algo, que seja macarrão caseiro ou minhocas para isca, tem de ter ambição. Do contrário, é melhor nem tentar.


Como dizia John Cage: o mundo está repleto de sujeitos com boas intenções que, a cada passo, só tornam as coisas piores.

Sobretudo na política.

Quando conseguir agendar o lançamento em fevereiro próximo, aviso.

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