segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Não faço letras, faço poesia

Entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1980 proliferou pelo país uma série de publicações culturais sobre literatura (principalmente poesia) e artes em geral.

Quase todas inspiradas em duas publicações anteriores vinculadas ao movimento de poesia concreta: as revistas Invenção e Noigandres.


Capa da Noigandres nº 2, de 1962

Clique aqui e veja o pdf do ensaio Noigandres e Invenção - revistas porta-vozes da poesia concreta, de Omar Khouri. 

Invenção (1962 - 1967) e Noigandres (1952-1962) contaram com a colaboração de poetas, artistas e teóricos, ambas idealizadas e dirigidas pelos fundadores da poesia concreta.

Invenção também foi o nome de um caderno do jornal Correio Paulistano, publicado entre 1960 e 1961 por José Lino Grunewald, com a colaboração de outros integrantes do movimento de poesia concreta.

A revista Invenção contou com colaborações de vários brasileiros e estrangeiros...

Dentre os quais:

Max Bense, Paulo Leminski, Mário Faustino, José Paulo Paes, Eugen Gomringer, Edwin Morgan, E. M. de Melo e Castro, Andrei Voznesensky, Pierre Garnier, Fukiko Kobayashi, Yevgeny Yevtushenko, Ian Hamilton Finlay e Manuel Bandeira.

Mas as duas revistas seguiam com rigor a linha programática expressa pela publicação Plano Piloto da Poesia Concreta (1958).


Todos que publicaram obras, ensaios ou artigos em ambas tinham algum vínculo com o movimento.

As revistas independentes posteriores foram de linhas editoriais mais abertas. Seu enfoque é na arte de vanguarda, inclusive a poesia concreta, mas também compreende questões comportamentais.


Como a internacionalização do rock e da cultura pop em geral, a liberação sexual, uso das drogas para a criação, a negação a um modo de vida enquadrado, careta.


Diferente da esquerda atual, com perfil mais liberal, a antiga era um tanto preconceituosa e até moralista quanto a essa presumível busca por uma nova consciência.


A moçada engajada, principalmente a vinculada ao movimento estudantil, tinha preconceito dessas publicações. Preferia os jornais O Pasquim, Opinião, Movimento, Em Tempo e outros vinculados a correntes ideológicas afins.

O Pasquim fazia um meio de campo entre as publicações de esquerda e as publicações independentes.


O certo é que várias das publicações chamadas “alternativas” fizeram um voo muito mais ousado no período do que as vinculadas às organizações de esquerda.


Existiram várias. Citarei apenas as que me ocorrem no momento:


Flor do Mal, Verbo Encantado, Presença, O Sol, Código, Qorpo Estranho, Almanaque Biotônico Vitalidade, José, Pólen, Samurai, Bondinho, Jornalivro, Tribo, Bissexta, Bric a Brac, Palco & Plateia...

Uma das edições da Bric a Brac, dos anos 1980
Duraram algumas edições, umas mais outras menos, e foram extintas por problemas financeiros dos que se propuseram a fazê-las.

Faltou grana, mas não gana. Todas foram viabilizadas – enquanto duraram – com muita luta por seus idealizadores, enfrentando dificuldades mil, inclusive riscos de serem presos pelo regime militar.


Não citei, de propósito, aquela que considero a mais importante: Navilouca, idealizada por Torquato Neto e Waly Salomão.
 


Caetano com capa de Oiticica em página da Navilouca, de 1972

Quem arrastou piano para montá-la com os precários recursos gráficos (e econômicos) da época foi a artista gráfica Ana Araújo, mulher de Torquato Neto.

Hélio Oiticica, que se encontrava em Nova York, ajudou a distância.


Luiz Otávio Pimentel, Óscar Ramos, Ivan Cardoso, Chacal e Rogério Duarte colaboraram mais diretamente.


O hoje cronista de humor José Simão, na época radicado no Rio, também fez parte do grupo.


A revista, além dos belos trabalhos veiculados, é um show de arte gráfica.


Navilouca e Bondinho foram as poucas publicações de vanguarda brasileiras com a ousadia gráfica de suas similares produzidas pelos movimentos cubofuturista russo e dadá.
Capa da Bondinho, do início dos anos 1970
A revista LEF, do movimento cuboturista, foi idealizada e produzida por um time de altíssimo nível: Maiakóvski, David e Vladimir Burliuk, Velimir Khlebnikov, Wassily Kandinski, Kazimir Malevitch, entre outros.

Quarta capa e capa da LEF de 1920
Outra publicação de vanguarda com produção gráfica da pesada foi a revista Merz, do poeta e artista plástico alemão Kurt Schwitters, vinculado ao movimento dadá.

Merz, de Schwitters, produzida entre 1922 e 1932
Navilouca, na verdade, era uma falsa revista. Ficou numa só edição porque era o que seu principal idealizador – Torquato Neto – pretendia.

Se alguém tivesse disposição de continuá-la teria de ser sem ele, pois o poeta se matou antes ver a publicação rodada. Sua concepção e os poemas gráficos nela incluídos são primorosos.


Torquato era assim. O que se há de fazer? Uma hora a vida, uma hora a morte.


Torquato em fotocolagem para a Navilouca
Proporcionou vida, muita vida, para todos nós que nos nutrimos da sua poesia,
das belíssimas canções compostas com Caetano, Edu Lobo, Gil, Jards Macalé, Carlos Pinto e outros.

Seu empenho em orientar as pessoas no período mais negro da ditadura por meio de sua coluna Geleia Geral, no jornal Última Hora, com a cabeça aos pancarecos, indo e saindo de internações, é admirável.

Nos proporcionou vida até o último instante. Então deu um basta nos demônios pessoais e fechou o ciclo de vez.


Nos seus últimos tempos, Torquato foi muito próximo de Waly Salomão e Hélio Oiticica. Tinha uma infinidade de amigos, mas com estes tinha um repertório mais afinado.


Fotocolagem de Hélio Oiticica para a Navilouca
Waly também foi um senhor poeta e letrista. De acordo com Torquato, o baiano era um dos poucos que devolvia magia às palavras mais saturadas, "uma das funções dos verdadeiros poetas".

Waly com Leminski (à esquerda) e com Macalé (à direita)
Torquato, Wally e Hélio Oiticica trocavam figurinhas o tempo todo.

Quando o primeiro se afogou no gás, em 1972, sobrou a incumbência a Wally e a Ana Araújo, a viúva do poeta, de destrinchar seu legado.


Do trabalho dos dois resultou um dos livros mais bonitos produzidos no país: Últimos dias de paupéria. Reúne poemas em versos, poemas visuais, textos, letras de canções e fotos de Torquato.

Por um bom tempo, a imagem que se tinha de Wally no país era de um cara muito louco que publicara um livro confessional anárquico chamado Me segura qu’eu vou dar um troço, de 1972. 


Mas ele foi muito mais que isso e até teve certa raiva do sucesso do livro que o estigmatizou. Como Torquato e Oiticica, sua formação convergiu para um repertório coincidente com o do concretismo.


Mas apenas como ponto de partida. Wally, como muitos poetas modernos, teve interesse especial pela poesia barroca.


O barroco - vejam no artigo Pérolas defeituosas - é uma vertente formalista das artes tão importante que persiste ativa, passados cerca de quatro séculos do seu surgimento.


A intimidade de Salomão com o barroco se deu pela via espanhola: Baltasar Gracián, San Juan de la Cruz, Unamuno, Ortega, Lorca, Miguel Hernández, Savater e José Bergamín.


Outro estereótipo relativo a Wally é associá-lo ao tropicalismo. Por dois motivos: era baiano e poemas seus foram musicados por Caetano Veloso.


Rogério Duarte é outro baiano confundido com o movimento, mas apenas fez os projetos gráficos dos primeiros discos de Gil e Caetano, e do próprio disco-manifesto Tropicália, porém seus rumos foram outros.


O carioca Hélio Oiticica é identificado ao movimento porque um dos seus penetráveis, antes do tropicalismo surgir, foi denominado Tropicália.


Penetrável Tropicália de Hélio Oiticica, de 1967
Hélio era neto de José Oiticica, anarquista e filólogo brasileiro. Não frequentou escolas, como bom neto de anarquista. Foi educado pela família.

Entre 1955 e 1956, fez parte do Grupo Frente, formado por artistas concretistas. A partir de 1959, participou do Grupo Neoconcreto, ao lado de artistas como Reynaldo Jardim, Amilcar de Castro, Lygia Clark, Lygia Pape e Franz Weissmann.


Na década de 1960, Hélio Oiticica criou o Parangolé, idealizado como uma pintura viva e ambulante.


O Parangolé é uma espécie de capa (ou bandeira, estandarte ou tenda) que só mostra plenamente seus tons, cores, formas, texturas, grafismos e textos quando vestida e manipulada.


Em 1965, Hélio foi expulso de uma mostra no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro por levar ao evento integrantes da Mangueira (escola de samba) vestidos com parangolés.


Rompeu com a moldura do quadro.
De outra forma, Marcel Duchamp fizera isso antes, quando desistiu da pintura e foi a campo batalhar por uma arte antirretiniana.

Mais que Duchamp, as referências de Oiticica são o holandês Piet Mondrian (1872-1944) e o russo Kasimir Malevitch (1879-1935).


Cartaz para exposição de Mondrian, com tela dele ao fundo
Oiticica era um artista pensador. Tudo o que produziu teve propósitos conceitualmente premeditados.

Era muito louco e tudo mais, mas um artista cerebral. Até o uso constante de drogas, de vários tipos, visavam resultados objetivos.


Seu pensamento era repleto de linhas e curvas. Não lhe interessava repetir obras. Seu objetivo maior era transformar estados de espírito por meio de sua arte.


Qual Joyce, trabalhava em “programs in progress”, ou seja, obras em processo de produção, dinâmicas.


Usou-se como cobaia, o tempo todo, para reelaboração sensitiva daquilo que idealizava.


Era artista por tempo integral. Como Gláuber Rocha, vulcão em constante erupção.


Mas tinha um lado pop, que o cineasta baiano detestava.

Como Andy Warhol, idealizou-se artista de massa. Talvez tivesse chegado lá, se um derrame não o derrubasse.


Dentro de um apartamento trancado por dentro agonizou por três dias. Os amigos vinham procurá-lo, tocavam a campainha e iam embora, achando que estivesse fora.


Quando arrombaram a porta encontraram seu corpo rijo, indicando que tentara se arrastar em busca de socorro.


Na época desenvolvia o projeto Crelazer, para parques e jardins de São Paulo. Voltado para as massas.


Paulo Amaral – arquiteto, tradutor de Engenheiro do Tempo Perdido, livro de Pierre Cabanne de entrevistas com Marcel Duchamp – morreu de forma similar, porém vitimado pelo diabetes.


O primeiro projeto gráfico do livro Me segura qu'eu vou dar um troço, de Waly, era de Hélio Oiticica.


Encontrava-se no apartamento do engenheiro Ronaldo Duarte, irmão de Rogério.


Os malucos dos serviços de segurança invadiram o apartamento do moço atrás de provas que pudessem incriminá-lo como militante político de esquerda e encontraram o projeto do livro.


Segundo Wally, a diagramação era geométrica, cubo-construtivista. Os agentes nada entenderam, mas suspeitaram que aquilo pudesse ser uma linguagem cifrada subversiva e sumiram com o projeto.


Wally e Torquato eram antiliteratos. Preferiam a proximidade com músicos, artistas plásticos, cineastas, do que com escritores.


Ambos não se diziam escritores, mas poetas. Vinham da escola poundiana, a qual acredita que o poeta deva ter uma atitude crítica e que "a linguagem é fundamental, a verdadeira lei".

Waly dizia que o poeta tem que trabalhar o triplo que qualquer professor, que só olha seus horários, honorários e presumível aposentadoria.


“Eu não tenho possibilidade de pensar em aposentadoria, pois sou um homem sem profissão como Oswald de Andrade”, dizia.


Foi um dos principais letristas de sua geração, mas se recusava a fazer letras para melodias já compostas.


“Sou poeta, não letrista. Os músicos que se virem para pôr melodias em meus poemas”, afirmava irredutível.


A verdade é que tinha uma excelente percepção musical. Suas letras ofereciam a régua e o compasso para os compositores.


Todas as suas parcerias, sobretudo com Jards Macalé e Caetano, foram a partir de poemas que antecederam as músicas que sobre elas incidiram.


Embora de origem humilde – era um interiorano filho de uma cabocla e de um comerciante sírio – flanava pela alta burguesia do Rio de Janeiro e era querido pelas madames.


Rogério Durate, sempre debochado, dizia que Waly comia os ricos para dar aos pobres.

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