sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Negro luar do Raul

Em junho de 1989 o suplemento Carderno 2 do jornal O Estado de S.Paulo publicou matéria sobre Raul Seixas, anunciando uma “nova explosão” do roqueiro.

Agora em parceria com seu conterrâneo e ex-integrante da banda Camisa de Vênus, Marcelo Nova.

A dupla conversou com a então repórter Regina Echeverria – ela foi mulher de um dos mais importantes e criativos jornalistas brasileiros (Hamilton de Almeida Filho) – na sede da gravadora Warner, em São Paulo.

Marcelo respondeu a maior parte das perguntas.

Segundo a repórter, Raul falava baixinho, quase murmurando, segurando a barriga, com nítidas sensações de dores.

Marcelo Nova e Raul Seixas (muito doente) em 1989
Para se ter ideia, ele aparece na foto (não é a que está acima, mas é da mesma época) com um paletó do pijama, barba e cabelos em desalinho total, e o rosto bastante inchado.

Parece até que a entrevista fora concedida numa clínica de recuperação...

Mas quando se exprimiu foi com a lucidez de sempre:

“Faço uma transfiguração da linguagem livresca para a do rock, que é uma linguagem popular. Eu sempre tive facilidade de transgredir os limites das linguagens.”

O principal roqueiro brasileiro era, no início, um garoto míope que pouco saía de casa e vivia trancafiado na biblioteca do pai em Salvador. Nos estudos ia mal, mas lia muito.

As coisas pioraram na escola (repetiu três anos seguidos numa mesma série) quando descobriu Elvis Presley, Little Richards, Chuck Berry e Jerry Lee Lewis.

Quatro por quadro
Aqueles quatro gringos entraram na sua cuca e no seu corpo, como tantas vezes vira as entidades do candomblé entrando nas pessoas nos terreiros de sua Bahia.

Só que no caso dele as quatro "entidades" entraram para nunca mais sair.

Em Salvador criou o grupo de rock Os Panteras, com o qual chegou a gravar um disco.

Depois de ter tocado com Jerry Adriani numa apresentação na capital baiana, decidiu ir para o Rio.

Com a ajuda de Jerry, arrumou emprego na gravadora CBS, a mesma de Roberto Carlos e da maioria dos ídolos da jovem guarda na época.

E se deu bem.

Além de trabalhar como produtor em dezenas de discos, fez versões de sucessos internacionais (vários dos Beatles) e também compôs canções próprias para Jerry Andriani e outros.

Todas utilizando pseudônimos. O único próximo do seu nome era "Raulzito".

Mas nunca deixou os livros. Na época ainda usava óculos fundo de garrafa, que lhe davam mais o aspecto de um universitário CDF que de um roqueiro.

Até conhecer Sérgio Sampaio, ainda tinha dúvida se queria ser músico ou escritor.
 
Lia de tudo, principalmente filosofia, história e literatura. Nos colégios de padre onde estudara, em Salvador, adquirira inclusive bons conhecimentos de latim.

Muitos dos livros que leu foram citados mais tarde nas entrelinhas das canções que compôs.

A convivência com Sampaio, que também deixara Cachoeiro do Itapemirim (ES) para se lançar na vida, foi decisiva.

Os dois tinham muita coisa em comum.

Eram bem-informados sobre o universo do rock e do pop, coisa que pouca gente no país era naqueles tempos.

Não se identificavam com  nenhuma das tendências dominantes da música popular brasileira.

Para os padrões de ambos, até o tropicalismo era muito certinho, careta.

Detestavam sobretudo as correntes bossanovistas de esquerda.

Raul preferia mil vezes a turma da jovem guarda que Chico Buarque, Geraldo Vandré, Sidney Miller, os irmãos Valle e outros que disputavam o público dos festivais.

Escracho total
Raul e Sérgio também tinham questões espinhentas relacionadas aos respectivos pais, que ambos admiravam, mas com quem não se davam.

Raul herdou do dele o pendor pelas leituras. O engenheiro Seixas era um grande conhecedor de literatura e filosofia.

Sampaio adquirira do seu pai, que era maestro de banda, um vasto conhecimento sobre música popular de vários gêneros.

Mas as identificações morriam aí.

O maestro e compositor Raul Sampaio achava que músico de verdade tinha que ter estudado em conservatório, como ele.

Ambos eram muito cobrados pelos pais austeros devido ao uso de drogas, à maneira de se vestir e à vida pouco compromissada com os valores tradicionais.

Tanto o engenheiro Seixas quanto o maestro Raul eram católicos conservadores.

O pai de Raul, da alta classe média baiana, tinha horror de saber que o filho requebrava nos clubes da cidade para imitar um crioulo com trejeitos efeminados chamado Little Richards.

Há várias canções, tanto de Raul quanto de Sérgio, remissivas à rejeição paterna.

Tudo o que faziam parecia ir em sentido contrário ao que os pais esperavam deles.

O mais maluco é que para os dois parece que a importância do reconhecimento dos respectivos genitores era vital.

Acredito que o processo de autodestruição de ambos esteja associado a esse sentimento de rejeição paterna  – como esteve para o grande letrista e intérprete dos Doors, Jim Morrisson (1943-1971).

Apesar do alcoolismo cavalar no final da vida – a ponto de esconder vodca dentro de cocos verdes para enganar a mulher – Raul tinha preocupação com a educação não só dos próprios filhos, como dos filhos da empregada que trabalhava para a família.

Capengando de bêbado, parava tudo que estivesse fazendo para ajudar as crianças a fazer as lições de casa.

De certa forma se colocava no papel de seu pai, exigindo dos filhos a dedicação e responsabilidade que fora exigida dele próprio.

Nessa intrincada e complicada relação, o gosto pela leitura foi um elo importante que Raul conseguiu manter com o pai, embora poucas vezes se tenham visto depois que deixou Salvador.

Mesmo nos últimos tempos, com os rins e pâncreas aos frangalhos, e constantemente drincado, nunca deixou de ler.

Em 1971, ele e Sampaio protagonizaram a maluca produção do disco Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, do qual participaram também Edy Star e Miriam Batucada.

Aquele show foi uma declaração pública de ambos de que nunca voltariam atrás. Dali por diante iriam às últimas consequências, até onde desse, sem abrir mão do que acreditavam.

Ainda assim, a carreira solo de Raul só iria decolar, para valer, quando gravou Krig-há, bandolo! em 1974. A de Sampaio nunca decolou, embora tenha composto dezenas de lindas canções.

Com Paulo Coelho, que era também um doidão chegado aos livros e com sérios problemas familiares – chegou a ser internado à força em uma clínica psiquiátrica pelo pai – a identidade foi total no início.

As músicas mais populares de Raul vieram das parcerias com aquele que viria a ser um dos escritores brasileiros mais populares pelo mundo afora algumas décadas depois.

Mas o que pouca gente sabe é que muitas das canções foram feitas a quatro mãos.

Embora Coelho não fosse instrumentista, tinha bom ouvido e boa musicalidade.

Há canções da parceria que foram quase todas compostas por ele, assim como há letras que foram quase todas escritas por Raul.

As canções em parceria com Coelho sempre tinham por trás alguma referência aos livros.

Gita (1974), por exemplo, remete ao escritor ocultista inglês Aleister Crowley (1875-1947), que teve entre seus muitos admiradores o poeta português Fernando Pessoa.
 
Raul e Paulo Coelho
Mas o interesse por literatura mística em Raul veio muito antes de conhecer Coelho.

É provável até que ele tenha influenciado o parceiro a seguir essa vertente, na qual acabaria se consagrando como escriba popular.

O pai de Raul era engenheiro de ferrovias.

Como Gilberto Gil, cujo pai era médico, correu o sertão da Bahia ouvindo muita música regional, sobretudo os ritmos popularizados por Luiz Gonzaga: baião, xote e xaxado.

Dizem que Raul era como Brian Jones: qualquer instrumento que lhe botassem nas mãos, aprendia a tocar em minutos.

Tocava de tudo: acordeom, teclado, baixo, guitarra, bateria.

Ao velho rock norte-americano incorporou influências de todos os gêneros de música popular brasileira que conhecia.

Principalmente os que ouvia quando morou pelas cidades do sertão da Bahia.

Em seus 45 anos de vida teve uma produção impressionante: 17 álbuns de estúdio, 5 álbuns ao vivo e mais de 300 composições (com ou sem parceiros).

Sem contar as dezenas de versões e composições para artistas da jovem guarda (nem se sabe quantas), escondidas sob nomes fictícios.
Muitos Rauls
Dentre as estrelas que gravaram suas versões e composições da jovem guarda estão:

Jerry Adriani (que o ajudou a vir de Salvador para o Rio), a dupla Leno e Lilian, Ed Wilson, Renato e seus Blue Caps, Diana e, mais tarde, Odair José.

É um dos artistas brasileiros cuja popularidade mais se mantém firme, década após década.

Tem fãs por todo o país, seja nas grandes cidades ou em cidades do interior. É difícil encontrar quem não saiba cantarolar uma música de Raul.

Os Mutantes é o grupo nacional de rock mais conhecido no exterior. Mas mesmo Rita Lee considera Raul quem melhor encarnou o rock no Brasil e seu mais legítimo representante entre nós.

Clique aqui para ler a letra e ouvir a autobiográfica Rock’n’roll, composta por ele e Marcelo Nova para o disco Panela do Diabo, ao qual os dois se referiam na entrevista para Regina Echeverria, em 1989.

Ao ouvir esta pauleira, lembre-se de que Raul estava no bico do corvo e morreu dois meses depois de ter realizado a gravação.

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