sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Obra-prima em 24 horas

O Brasil é um país de cultura cartorial, burocrática, com tudo muito certinho, centrado no senso comum ou no conhecimento acadêmico.

Este, oficialesco, é de um peleguismo sem fim. Afinal, a suposta elite pensante é uma das que mais se nutre das benesses do poder político.

Cada vez menos pessoas têm algum interesse por literatura.


Ezra Pound advertia: desconfie da capacidade de discernimento das épocas em que a literatura fica em segundo plano.

Sabem quem foi este cara?

Quais nossos principais escritores?

A academia diria: Machado de Assis e mais alguns cartas brancas, a respeito dos quais não possa haver qualquer tipo de questionamento...



Baiano, Jorge Amado. Alagoano, Graciliano. Gaúcho, Érico Verissimo.

Assim por diante.

Paulo Coelho, de jeito nenhum. É escritor para o povinho mais ignorante.

Se pelo menos alinhasse sua abordagem mística com um discurso à esquerda, até que poderia ser considerado um "dos nossos".


Quase tudo que é demandado ou determinado por essa cultura dos donos da bola da vez tem uma natureza burra de dar no pau.

Amado e Veríssimo foram excelentes contadores de histórias. Dos melhores. Nesse porém, tão comerciais quanto Paulo Coelho.

Graciliano nem foi bom contador de histórias. Mas seu estilo pinçado de Eça de Queiroz, do texto em si, no sentido da precisão e prazer da art pour l'art, é dos maiores.
Eça foi jornalista, excelente contista e um bom romancista
Em outros aspectos nunca foi páreo para Guimarães Rosa, Oswald de Andrade de Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande e Mário de Andrade de Macunaíma.

Mas estes jamais serão considerados pela academia e muito menos pelo senso comum como os melhores.

Dyonélio Machado (1895 - 1985) passou a ser referência recente, desde que seu principal romance, Os ratos, foi incluído na lista de leituras para o vestibular.

Era tão comunista e jornalista quanto seu colega Veríssimo. Mas muito melhor. Aliás, foi Veríssimo quem o estimulou a escrever Os ratos.

Psiquiatra, passou grande parte da vida segurando as pontas dos internos do hospital psiquiátrico do qual foi diretor.

Seu pai, Sylvio Rodrigues Machado, fora assassinado quando era criança por motivos políticos.


Fez até apostas de jogo do bicho para ajudar no sustento de casa. Na marra, formou-se em medicina.

Dividiu-se entre a psiquiatria, a literatura e o jornalismo.


Seu primeiro livro, de contos, Um pobre homem (1927), era alinhado ao realismo socialista do então Partido Comunista Brasileiro, do qual era militante.


Em 1035, numa tacada escreveu Os ratos para um concurso, a pedido do seu compadre Érico Veríssimo.

Enredo simples, até porque não podia complicar muito as coisas pois não havia tempo para amarrar um argumento mais complexo. 

Trata de um dia na vida do funcionário público Naziazeno Barbosa.

Um cidadão comum que acorda com um problema: o leiteiro ameaça cortar-lhe o fornecimento de leite caso ele não pague, na manhã seguinte, a dívida de 53 mil réis (dinheiro da época).

Durante o dia, perambula pelo centro de Porto Alegre em busca de algum dinheiro para saldar a dívida.


A trama se passa em aproximadamente vinte e quatro horas, mais ou menos o tempo que ele teve para escrever o romance.


Como disse: trama simples, trivial.
No entanto, uma das obras-primas da moderna literatura brasileira.


Seus romances posteriores: O louco do Cati, Deuses econômicos, Endiabrados, Fada, Ele vem do fundão e O estadista.

Todos produzidos com tempo hábil para obras mais elaboradas, com inúmeras correções, até chegar ao texto final.


No entanto, nenhum deles é melhor que Os ratos. O que mais se aproxima em qualidade é O louco do Cati.

Isso já ocorreu com outros escritores. Franz Kafka (1883-1924) produziu sua obra mais perfeita, o conto Metamorfose, também em tempo recorde.

Kafka escreveu Metamorfose numa noite
As posições ideológicas de Dyonélio custaram-lhe dois anos em prisões políticas.

Em 2007, o jornal Folha de S.Paulo entrevistou Décio Pignatari. O repórter perguntou quem ele achava que eram os cobras disso e daquilo no Brasil. Inclusive da prosa.


Resposta do poeta:
 

“Aqui, Guimarães Rosa em primeiro, Dyonélio Machado em segundo, e depois vêm todos os nordestinos. José Lins do Rego, Graciliano Ramos, os bons...

"Mas Guimarães sabia quem era Joyce, quem era Camões, quem era Euclides da Cunha. Um importante diferencial.”

Clique aqui e veja, na íntegra, a entrevista concedida por Pignatari à Folha em 4 de agosto de 2007.

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