domingo, 1 de dezembro de 2013

Pantagruel sem profissão

“Casei e me descasei várias vezes, viajei até ficar pobre, minha obra literária está acima da compreensão nacional, me envolvi em brigas campais, fui preso treze vezes, sou pessimista (embora não muito sincero), fiquei doente e não tenho mais amigos.”

Esse é o autoperfil de um escritor brasileiro que deixou um dos legados mais ricos para a história da nossa literatura.

Oswald no final da vida
Romances (dois deles entre os mais inovadores já produzidos entre nós), poesias (idem), três peças de teatro (idem), manifestos filosóficos que influenciaram a produção cultural desde então, crônicas, memórias, confissões e polêmicas, muitas polêmicas.

Tal grandeza extrapola quaisquer definições. Muito embora nossos intelectuais brejeiros, montados nas academias e no esquerdismo tosco sejam consensuais em torcer os narizes para ele ainda hoje.


Oswald na juventude
O reconhecimento de Oswald de Andrade (1890-1954) ocorreu da forma como ele sempre quis: no quebra-pau das opiniões, umas contra as outras...

Nos últimos movimentos de vanguarda importantes – concretismo e tropicalismo – ele foi um dos principais nomes de referência.

Para o grupo Oficina, determinante para renovar o teatro brasileiro a partir da montagem de uma de suas peças: O rei da vela.
 
Renato Borghi na montagem de Rei da Vela pelo Teatro Oficina
O principal núcleo de crítica de arte de São Paulo das últimas décadas – formado por Antonio Cândido, Décio de Almeida Prado, Sábato Magaldi e Paulo Emílio Sales Gomes – o tinha como ponto de partida.

Antes de lançarem o concretismo, os jovens Haroldo de Campos, Augosto de Campos e Décio Pignatari foram visitá-lo seguidas vezes.

O diabetes corroera-lhe o corpo. Já não saía para as farras de que tanto gostava. Não podia mais beber vinho, uísque e cachaça copiosamente, como habitualmente fazia.

Mas a veia mordaz persistia.

Vinham trocar ideias com ele, colocando-o na condição de mestre. Oswald se cagava para esse papel e ficava a provocá-los, Décio em especial, que quase sempre perdia as estribeiras e discutia com ele.

As visitas dos três lhe traziam grande satisfação. Remetia-o aos bons tempos de “batalhas campais”.

Provocar os três era sua maneira de ensiná-los a não serem submissos, a seguirem os próprios rumos, como ele e Mário de Andrade fizeram no passado.
 
Numa das visitas Décio não pôde vir. Oswald ficou decepcionado. “Pô, cadê o magrinho nervoso?!” Afinal era com Décio com quem mais se deliciava.

Com Nelson Rodrigues ocorreu algo parecido.

O então dramaturgo iniciante escreveu uma carta a ele procurando estabelecer um contato cerimonioso. Oswald respondeu por meio de um artigo de jornal fazendo críticas debochadas ao jovem autor pernambucano.

Nelson publicou outro artigo num jornal do Rio, respondendo ponto por ponto e, no final, manifestou sua decepção com Oswald. Este publicou um segundo artigo espinafrando ainda mais o dramaturgo.

Nelson preferiu engolir a seco e não respondeu. Então recebeu uma carta de Oswald: “Nelson, por favor, escreva algo contra mim!”

O que Nelson não sabia é que Oswald usou-o para tentar sair do isolamento brutal.

Algo parecido se passou com o mais importante diretor da história do nosso cinema, Gláuber Rocha.

Este havia se indisposto com todos os colegas do cinema novo. Que o evitavam, pois se sentiam desconfortáveis por terem de submeter às suas críticas frontais.

Não importa a causa mortis que o derrubou. Gláuber morreu de dilaceração interior e sentimento de abandono.

Como Gláuber, Oswald era de temperamento instável. Ora era agressivo e mordaz, ora sentimental ao extremo. Era de uma generosidade também exagerada. O que, em lugar de cativar as pessoas, as assustava.

Filho único, recebeu grande herança, que foi toda dilapidada não só nas farras, mas para bancar as publicações por meio das quais deu um banho de inteligência na elite nacional na primeira metade do século XX.

Sua briga com Mário foi por causa de Tarsila do Amaral, então mulher de Oswald. Mário, embora homossexual, tinha uma paixão platônica por Tarsila.
 
Tarsila do Amaral
Oswald, que foi casado com Tarsila, quase a matou de desgosto com as inúmeras traições. Em especial com uma das protegidas da pintora, a linda Patrícia Galvão, vulgo Pagu.

Patrícia Galvão
Mário ficou do lado da amiga. Oswald ficou fulo com ele, que era tido como seu principal amigo.

Retrato de Mário feito por Tarsila
Não se falaram mais depois do episódio.

Mas, intelectualmente, continuaram aliados. Havia um tácito entendimento entre eles. Embora distantes um do outro, numerosas vezes Mário saiu em defesa de Oswald, e vice-versa.

Antes de o concretismo e o tropicalismo, ajudou no reconhecimento das novas gerações de escritores do modernismo. Dentre os quais Carlos Drummond de Andrade, Cassiano Ricardo, Vinícius de Moraes, Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Jorge Amado.

Apreciador de todas as artes, especialmente da música, foi durante muito tempo um dos poucos divulgadores da obra de Villa-Lobos no país.

Oswald seguiu caminho distinto dos principais intelectuais brasileiros – que se enquadram numa repartição pública ou em alguma universidade – e partiu para o embate por meio da imprensa e das vias criativas.

Quando perdeu todo patrimônio, tentou a carreira acadêmica para sobreviver. Mas sua tese sobre a poesia da Inconfidência foi ignorada por uma banca da Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP).

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