segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Pantagruel sensível

Uma das mais belas e populares canções brasileiras – Manhã de Carnaval foi escrita por um mulato gordo com inteligência bem acima da média, excelente cronista, que se matou de tanto comer.

Antônio Maria a compôs com Luíz Bonfá, em 1959. Foi gravada na trilha sonora do filme Orfeu Negro. Tornou-se tradicional nos meios de jazz e é tocada regularmente também por muitos artistas internacionais.

Considerada uma das mais importantes canções no mercado do jazz brasileiro nos EUA, ajudou a estabelecer o movimento da bossa nova no final da década de 1950.

Antônio Maria como comentarista de futebol em rádio

Quando teve o infarto que o fulminou, aos 43 anos, o pernambucano Antônio Maria (1921-1964) jantara numa churrascaria e fizera um segundo round noutra.

Até que seu coração foi a pique...


Formava um trio inseparável com Ivan Lessa e Paulo Francis, a quem chamava por “Francês”.

Ele e Francis brigavam muito, por motivos quase sempre banais. Mas faziam as pazes tão rápido quanto se desentendiam.


Tiveram uma sequência de brigas de soco, para valer, sempre muito bêbados, dessas de deixar marcas na cara, nariz sangrando, lábios partidos, dente quebrado e tudo mais.


Mas todas em locais públicos, para que pudessem ser providencialmente apartados se um estivesse levando muita vantagem sobre outro.


Saíam para beber juntos e, pelas tantas, se desentendiam e iam às vias dos fatos outra vez.


De meados do anos 1950 para os anos 1960, Antônio Maria foi um dos mais populares cronistas do Rio de Janeiro, ao lado de Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Sérgio Porto e Nelson Rodrigues.


Sua popularidade era tal que Samuel Weiner – apesar de Maria ter lhe roubado Danuza Leão por um período – o contratou para escrever uma página diária do jornal Última Hora.



Danuza e Samuel Weiner
O que lhe exigia um esforço excepcional.

Mas era um jornalismo de outros tempos, sem a ditadura da objetividade de agora, com os repórteres forçados a cobrir trocentos assuntos por dia para trazer pílulas de notícias para as redações.

Escrevia sobre o que mais gostava: música popular, cinema (sobretudo Federico Fellini), anedotas, casos divertidos, comida, literatura, futebol e até política (para ridicularizar os crápulas da época).


Suas esculhambações aos políticos lhe renderam vários processos e até ameaças de morte.


Mas Maria, como o também pernambucano Nelson Rodrigues, era apolítico e tinha absoluto desprezo ao que se pensava à esquerda ou à direita.

Antes de Millôr Fernandes, criou minicontos em sua página. Literatura em drops. Como também fazia Rodrigues no mesmo período.


Sua página tinha uma seção chamada Romance dos pequenos anúncios. Pegava um classificado pessoal e criava em cima uma história, cheia de humor e malícia.


Com pouco tempo, Maria se tornou o jornalista mais popular do Última Hora. E olha que o jornal só tinha figurões.


Ele e Francis tinham o hábito de escrever um contra o outro, mas tudo combinado, qual a “polêmica” musical entre Noel Rosa e Wilson Baptista.


Maria manteve por um período um caso com uma aeromoça de Nova York.


Da mesma forma que o romance de Tarso de Castro com a atriz norte-americana Candice Bergan, os dois só se entendiam na cama, pois ele não falava inglês nem ela português.

A amante começou a exigir que o relacionamento progredisse para laços mais estáveis e “Francês” foi chamado ao hotel para intermediar como tradutor.


Paulo Francis teve de explicar à moça que Maria era casado, tinha filhos. O romance acabou ali.

Paulo Francis
Embora parecesse o gigante saído das páginas de Rabelais, tinha bom relacionamento com as mulheres e as defendia com unhas e dentes.

Se alguém falasse mal das mulheres perto dele em mesas de bar, dava encrenca na certa.

Sua vida era trabalho, muita comida (era capaz de matar duas feijoadas completas numa tacada), muitos amores e muitos porres.


Nenhum amigo sabia explicar o que tanto as mulheres viam naquele gordo feioso, embora de talento proporcional ao seu tamanho e peso.

Mas viam! Não foi só Danusa Leão que deixou os lençóis burgueses de Weiner para encarar seu corpanzil num hotel barato.


A namorada de Sérgio Porto, por quem o futuro compositor do Samba do crioulo doido era apaixonado, também.

Sérgio Porto assinava seus sambas como Stanislaw Ponte Preta
Consta que Porto passou a noite na rua diante do hotel onde estavam, andando de um lado para o outro como um possesso.

Era um homem alto e forte. Os recepcionistas do hotel estavam preparados para assistir a um crime ou a uma briga das mais violentas.


Quando o “casal” desceu, a namorada de Porto, ao vê-lo, saiu correndo. Maria foi na direção do cronista. Mas não houve crime nem briga.


O que conversaram, ninguém ouviu. Sabe-se que passaram o dia juntos. Almoçaram, jantaram e, por fim, tomaram um porre.

Coisas do coração.


Aliás, o de Porto também pifou antes dos cinquenta anos.

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