segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Pérolas defeifuosas

Mais ou menos é esse o sentido da palavra barrueco em espanhol: pérola inchada, de forma imprecisa.

Vem, segundo se sabe, da cultura muçulmana, que se implantou por longo período na Europa, sobretudo na Espanha.

Um dos profetas esculpidos por Aleijadinho (1738-1814)

Surgiu como oposição às regras e harmonia impostas pelo Renascimento.

No sentido literal para o nosso português velho de guerra, também cabem associações: barro oco, cerâmica. Ou
seja, forma a ser preenchida com algo.

Assim foi (e é) esse movimento formalista das artes que persiste ativo, passados mais de quatro séculos...




Sua base inicial de propagação – as novas vertentes missionárias do catolicismo – foi poderosa.


Razão pela qual se deu a partir da Espanha, Itália e demais nações predominantemente católicas.

No Brasil, Paraguai e Argentina se efetivou principalmente com as missões jesuítas.

Mas é claro que foi muito mais que um movimento artístico religioso. Tanto que embora combatido pela contrarreforma – por razões essas, sim, político-religiosas – se propagou também pela Alemanha e Holanda.


Capa do ensaio de Benjamin sobre o drama barroco alemão
 No Brasil vai muito mais longe que o estilo arquitetônico manuelino importado para as igrejas espalhadas por várias cidades históricas do país, sobretudo no Nordeste e em Minas Gerais.

Vai além de Aleijadinho e da música sacra mineira, de Gregório de Mattos e de padre Antônio Vieira.


É estilo que se entranhou em nosso inconsciente e vem se refazendo ao longo dos séculos.


Na arquitetura e nas artes plásticas substitui as massas pelas linhas. Está, portanto, efetivo na arquitetura contemporânea do marxista Oscar Niemeyer.

Dentro das ordens religiosas por meio do qual se propagou mundo afora, representou o inesperado, o primitivo, a busca da lógica pela crença, a busca da ordem pelo caos, a distorção do que se mostra sedimentado.


O discurso paradoxal dos tropicalistas – que leva os paulistas cartesianos a dizerem preconceituosamente: “coisa de baianos” – vem desse lastro.


Como quando Gilberto Gil afirmava e, ao mesmo tempo negava, o que dizia: “A cultura, a civilização... elas que se danem. Ou não.”
 

Os Sermões, de Antonio Vieira, estão repletos desses paradoxos.

O barroco é uma carapaça de estilos. Forma que se preenche em algo. Obra aberta por excelência – vide Umberto Eco.
 

Ezra Pound era apaixonado pelo mais importante dos poetas barrocos, Luís de Camões. Nas passagens sobre a usura, no seu poema Cantos, há referências explícitas a Os Lusíadas.

Você lê um dos mais perfeitos romances do século XX – Paradiso, de Lesama Lima – e lá está a marca incidental da pérola defeituosa.


Idem na obra James Joyce – proveniente de um país católico, a Irlanda, onde o barro oco também se entranhou no inconsciente coletivo.

Lezama Lima
 O próprio sebastianismo, mote de Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, tem seus pés fincados na indefinição messiânica, ilusionista, que se sacra como tal.

Cartaz do filme de Gláuber feito por Rogério Duarte

Lá está o troço na bela poesia de Néstor Perlongher, argentino que para o Brasil veio em busca de preenchimento para o vazio interno.


Néstor Perlongher

Mesmo com o puto de um vírus conhecido lhe minando as forças, Perlongher conseguiu estender por aqui seu enorme talento.

Barroco é o cão, meu irmão. Ao mesmo tempo que se disseminou por intermédio da igreja, redefiniu-se mundano para dar liga às alegorias do Carnaval.


Primeiramente em Veneza, depois nos sambódromos da vida pelos brasis afora.

O que vemos hoje nos quatro dias de desfile teve origem nas procissões alegóricas de Minas Gerais, durante o período colonial, quando os negros desfilavam representando seus senhores com fantasias, máscaras e estandartes.


Claro que em lugar de homenagear os senhores, debochavam deles ao representá-los. Tanto que essa tradição passou a ser proibida na época da Inconfidência.

Não há nada de estranho o fato de os mexicanos carnavalizarem sua farra exibindo caveiras. Barroco é exotismo da pesada, está também na literatura grotesca, gótica e de horror.

Barroco traz a busca pelo exagero. Pode ser kitsch por excelência. Rococó.


Desde cedo se modulou como sensualidade, busca pelo êxtase. Vejam lá atrás em San Juan de La Cruz e em sóror San Juana de La Cruz.


Nesse mesmo sentido, porém de modo mais explícito, mais recentemente vem o cubano Severo Sarduy (1937-1993) com uma escrita do corpo, expondo-se a nu, inclusive como arquétipo de si mesmo.

Severo Sarduy (à esq.) e o mexicano Octavio Paz

Sarduy militou pela revolução de Fidel Castro e chegou a fazer parte do governo. Foi dele afastado e teve de se exilar devido às perseguições aos homossexuais, em especial por um grupo de elite liderado por Che Guevara.

Inscrita dentro da estética do neobarroco, a obra de Sarduy, que pode se apresentar utilizando métrica ou verso livre, ou prosa, cultua uma lírica do bizarro, explorando a relação entre o corpo e o texto.


Sarduy é notavél poeta e romancista. Seu primeiro romance Gestos (1963) prenuncia uma certa ruptura na literatura de língua castelhana.


A qual se aprofundaria em De donde son los cantantes (1967), pastiche em que se conjugam as três culturas, a espanhola, a africana e a chinesa, que conformaram a vida da Cuba atual.


Em Cobra (1972) investigou a aproximação entre Oriente e Ocidente, e o tema teve certa continuidade em Maitreya (1978), essa a sua obra mais aclamada, mesclando o barroquismo e o humor.


Posteriormente, foram publicados Colibri (1984), um relato de fugas e vinganças, e Cocuyo (1990).


Quando Hélio Oiticica criou seus parangolés, seus penetráveis – obras cujos sentidos estão estritamente relacionados ao corpo, às sensações – remetia a essa busca por algo que sempre se complementa em algo.


Não quero dizer com isso que tudo venha do barroco e se faça em função dele.


O gosto atual pelo espetáculo e pelo ilusionismo, pela multimídia e interatividade, e pelo "princípio da abolição da moldura", que leva a forma a extrapolar limites convencionais, é típico do barroco.


Enfim, o barroco não se foi.


Ele ainda é, continua presente em quase todas as manifestações da cultura brasileira e latino-americana, da arquitetura à pintura, da comida à moda, passando pelo futebol e pela admiração ao corpo feminino.

É o futebol dos craques, que preferem a curva misteriosa no chute e a exuberância da finta, do que a racionalidade burra dos técnicos.


Garrincha, o mais incontrolável dos nossos craques: até os joelhos eram curvos
O barroco sacramenta o improviso.

Tem aversão às regras e à premeditação.

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