sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Tire o verde desses oios di riba d’eu

A razão da briga entre Mário e Oswald de Andrade no final dos anos 1920 nada teve a ver com o ideário modernista, muito menos com  a linda canção Kalu, de Humberto Teixeira, cujo verso intitula este artigo.

Clique aqui para ver a letra e e ouvir a canção na voz de Chico Buarque

Além de ótimo compositor, Teixeira foi o principal letrista de Luiz Gonzaga.

Vide Assum Preto, Asa Branca, Paraíba e tantas outras.

Quanto a Mário e Oswald, a rinha dos dois não teve mesmo nada ver com o modernismo, até porque nesse âmbito os dois continuaram fiéis um ao outro.

Mas teve a ver com uma mulher que lembra muito o verso de Teixeira.

O que os levou ao desentendimento foi uma garota de Santos, protegida pela esposa de Owald, a pintora Tarsila Amaral.

Uma certa Zazá...
Zazá na flor da idade
Dezessete aninhos. Bonita como só ela. Olhos verdes, iguais aos de Kalu do Teixeira. E danada de sapeca!

Os seios quase à mostra sob a blusa transparente eram um escândalo para a época...

Fumava em público. Cheirava cocaína no Carnaval (isso na época em que a coca era pura e vendida nas farmácias). Dizia palavrões e estava sempre no meio dos homens.

Não deu outra: o mulherengo Oswald só tinha olhos para Zazá.

Mário, muito amigo de Tarsila (dizem até que tinha uma queda hétero por ela) ficou indignado com a indiscrição de ambos.

Não demorou e Oswald estava descendo a estrada de Santos atrás das curvas de Zazá.

Na época em que Oswald se casou com ela
Daí Zazá passou a ser vista nos polêmicos eventos do movimento antropofágico, uma cisão mais radical do modernismo, junto com Oswald e Raul Bopp.

Os três faziam uma farra danada pelas noites paulistanas.

Bopp apelidou-a Pagu. Uma quase junção das duas primeiras sílabas do seu nome e do primeiro sobrenome: Patrícia Goulart.

O apelido pegou e Zazá virou Pagu.

Em 1930, a estrita e conservadora sociedade paulistana ficou indignada quando veio a público que Oswald deixara a famosa pintora Tarsila pela moleca santista.

Houve também a consecutiva cisão entre os dois Andrades: Mário, como se sabe, ficou do lado de Tarsila e os dois nunca mais se falaram.

No mesmo ano Pagu deu a luz a Rudá de Andrade, o segundo filho de Oswald.

Ou seja, os dois já vinham fazendo certas coisas bem antes dele se separar da mulher.

Pagu, que era militante comunista, nem bem se recuperou do parto, levou o marido para uma reunião do Partido Comunista Brasileiro (PCB).

As convicções comunistas de Oswald eram só de fachada. Na prática ainda era um dos homens mais ricos de São Paulo, herdeiro de um grande patrimônio imobiliário.

Mas as de Pagu eram verdadeiras e Oswald, que outrora levara Tarsila às lágrimas por falta de convicções matrimoniais, viveu maus bocados com Pagu.

Para início de conversa, ela passou a servir mais ao partido que ao marido.

Em 1933 foi presa por ter ajudado a organizar uma greve de estivadores em Santos.

Aquela seria apenas a primeira de uma série de 23 prisões. Prisões que, ao longo das décadas, foram destroçando sua saúde e beleza.

Mas isso levou anos e nem o câncer que a matou em 1962 tirou em definitivo seus traços de diva.

Veja abaixo uma foto após um dos períodos de prisão. Pode ser facilmente confundida com as mais belas estrelas de Hollywood da época.

Já conhecida como Pagu e marcada pelas prisões
Pagu passou a viajar muito para o exterior, ora como repórter ora como militante. Cabia a Oswald criar Rudá sozinho, pois sua mulher ou estava presa ou viajando. Era vista em sua casa poucos dias por ano.

Numa das viagens introduziu, clandestinamente, as primeiras sementes de soja no Brasil, após ter ido à China entrevistar Mao Tsu Tung e Chu En-Lai.

Em 1933 publicou seu primeiro romance, Parque Industrial, sob o pseudônimo de Mara Lobo.

Oswald então passou por um período de quase dois anos sem vê-la e sem saber onde ela se encontrava.

Conseguiu localizá-la quando, em 1935, foi presa em Paris como militante comunista estrangeira.

O reencontro foi de muitas brigas. Oswald jogou a toalha e pediu a separação.

Logo em seguida, Pagu foi presa pela ditadura de Getúlio Vargas.

Durante cinco anos padeceu de presídio em presídio, tendo sido torturada e violentada várias vezes.

Por ser de uma família da alta burguesia santista, foi praticamente abandonada pelos companheiros comunistas enquanto esteve presa.

Era visitada com frequência pelo então jornalista Geraldo Ferraz, que acabou por se tornar seu segundo marido.

Quando saiu da prisão, em 1940, rompeu com o PCB e se tornou trotskista.

Passou a integrar a redação do jornal A Vanguarda Socialista, junto com Ferraz, o crítico de arte Mário Pedrosa e Edmundo Moniz.

A partir da década de 1950 formou uma companhia de teatro em Santos, com a qual montou textos de vários autores então inéditos no país.

Dentre os quais o romeno Eugène Ionesco (1909-1994) e o espanhol Fernando Arrabal (nasceu em 1932).

Sua companhia revelou muitos dramaturgos e atores. Dentre os quais Plínio Marcos.

Gilberto Mendes, que mais tarde integrou o movimento concretista como compositor, também trabalhou como músico na companhia.

Pagu tinha múltiplos talentos. Era também desenhista e ilustradora. Costumava escrever e ilustrar as matérias que escrevia para os jornais e revistas.

Fim da militância política, início da militância cultural
Escreveu contos policiais, sob o pseudônimo King Shelter, publicados originalmente na revista Detective, dirigida no Rio de Janeiro pelo dramaturgo Nelson Rodrigues.

Por sinal, Rodrigues apadrinhou no Rio de Janeiro ao iniciante dramaturgo Plínio Marcos a pedido de Pagu.

Depois, Nelson Rodrigues passaria a ter uma relação de pai para filho com Marcos. Mesmo quando o santista o criticava, ele o enaltecia e dizia que era seu único sucessor. 

Além de vários textos dramáticos importantes, Pagu traduziu pela primeira vez entre nós obras de James Joyce, Dylan Thomas, Tristan Tzara, Lautreamont, Octavio Paz, entre outros.

Seus conflitos com os brucutus do PCB tiveram início por sua resistência à submissão dos artistas às causas políticas.

Passou a ser tida pelos camaradas como “revisionista” – chavão estanilista em voga para desclassificar os militantes que não seguiam as diretrizes tiranas do partido.

Sua obra foi inseparável de sua vida. Fez uma literatura dinâmica, de aventura, correspondente a cada momento que viveu.

Teve relevante importância para a cultura brasileira na primeira metade do século XX e foi uma das mulheres mais bonitas, inteligentes e ousadas do seu tempo.

Em 1982, o poeta Augusto de Campos publicou Pagu - Vida e Obra.

É o melhor livro para conhecer e entender quem foi a garota que virou a cabeça de Oswald de Andrade no seu auge como escritor e conquistador.

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