sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Um filme do cão

Nos anos 1970, Brasília tinha um importante cineclube na Escola Parque, Asa Sul. Cineclube que mais tarde daria origem ao Festival de Cinema de Brasília.

Cinéfilos de todas as idades ali se reuniam para assistirem às séries muito bem organizadas e apresentadas pelo crítico Rogério Costa Rodrigues, também professor da Universidade de Brasília (UnB).


O fato de Brasília ser a capital federal, sede de embaixadas, facilitava as coisas.


Vimos tudo do cinema cubofuturista das primeiras décadas do século XX, inclusive filmes de propaganda bolchevique de Dzga Vértov e outros.


Até filmes de propaganda nazista vimos.

Vimos todo o expressionismo alemão. Todo o neorrealismo italiano. Todo Hitchcock. Etc.


Dentre um dos filmes mais marcantes que lá assisti pela primeira vez foi Um chien andalou (Um cão andaluz), de Luis Buñuel e Salvador Dalí.


Primeira cena do filme
Foi lançado em 1928 na França, como representante do cinema surrealista.

Entre 1920 e a data de lançamento do filme, ocorria o auge das vanguardas modernistas europeias...

O filme não tem uma história linear. Usa de muita metalinguagem e metáforas. Começa como fábula do tipo “era uma vez” e salta para imprevistos atrás de imprevistos.

A primeira cena mostra uma mulher que tem seu olho cortado com uma navalha por um homem. O homem com a navalha é interpretado pelo próprio Buñuel.


Buñuel e Dalí quando realizaram o filme
Formigas saem da mão do personagem conforme ele fica nervoso. Uma mão é lançada à rua. Uma moça a acolhe e logo é atropelada.

Um casal insinuante assiste. O homem tenta atacar a moça. Conquista e agressão parecem ter os mesmos fins.


A moça não aceita suas declarações furiosas.

Ele arrasta até ela dois pianos de cauda com cadáveres de burros em processo de putrefação amarrados em cima.

São como buquês para conquistá-la.

Ela foge.


Formas geométricas se sobrepõem.

Curiosos são associados as formigas que saem da mão do homem.

Imagens opostas: sensualidade e sangue.

Movimentos o tempo todo. Ora da cena, da dança, da câmara, da montagem.

O fundo musical: tango instrumental.

Muitos closes. Movimentos de cena associados à mecânica, como em Limite, de Mário Peixoto.

O filme utiliza a lógica dos sonhos, baseado em conceitos da psicanálise de Freud e o inconsciente das fantasias.


Imagens oníricas são encadeadas como se fossem um pesadelo, repleto de significados metafóricos.

Outra experiência de Buñuel com o cinema surrealista seria a sua película posterior, L'âge d'or (A idade do ouro), de 1930, também em parceria com Salvador Dalí.


Neste filme merece destaque a participação do pintor alemão Max Ernst (1891-1976), como líder de um grupo de bandidos.


Max Ernest
Buñuel causa escândalo com o filme porque trata de tabus da sociedade (como sadomasoquismo, prostituição), mas ridiculariza, principalmente, a toda poderosa Igreja Católica.

Buñuel influenciou fortemente a carreira do principal cineasta espanhol contemporâneo, Pedro Almodovar.


Antes da fazer cinema, fora companheiro de boêmia de Federico García Lorca e Salvador Dalí.


De uma família muito rica, era preparado para ser atleta. Mas as farras pelos bordéis acabou com tais pretensões.


Em 1925, foi viver em Paris, onde estudou cinema e trabalhou como assistente de vários produtores. Procurou passar pelas várias funções: fotografia, câmera, produção, iluminação, cenário.


Quando chegou de volta à Espanha, em 1928, sabia tudo de cinema. Era hora de fazer seu filme. Uniu-se ao colega de bebedeira Dalí para as primeiras experiências.

En 1930 viajou a Hollywood, contratado pela Metro Goldwyn Mayer como «observador», com o objetivo de se familiarizar com o sistema de produção norte-americano, ao qual nunca se adequou.


Ocasião em que conheceu outros dois grandes cineastas: Charles Chaplin (1889-1977) e Serguei Eisenstein (1898-1948).


Buñuel realizou 38 filmes de 1928 a 1977. Parte na Espanha, na França, no México e nos EUA.


Buñuel
Meus preferidos são: Um cão andaluz (1928), O anjo exterminador (1962), A bela da tarde (1967), O discreto charme da burguesia (1972) e o último, Esse obscuro objeto do desejo (1977).  

Assista aos cerca de vinte minutos de Un chien andalou:

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