terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Um homem, bummm!!!, chamado Strindberg

Anos 1980 em São Paulo.

Rolava a música de vanguarda no Lira Paulista e em outros espaços de São Paulo. Não só lá, no Lira, ressaltei isso em artigo postado na edição anterior.

E também havia outras feras, além das da música, que buscavam seus elos de vanguarda no período. No teatro, os grupos Ornintorrinco, XPTO, Verdadeiros Artistas e outros.

Grupo Ornintorrinco

Um pouco antes, mas ainda em atividade no período – inclusive nos palcos paulistas  –  havia o bom Asdrúbal Trouxe o Trombone do Rio.

Assisti em São Paulo a uma ótima montagem gaúcha de O que mantém o homem vivo, com trechos e músicas de várias peças de Bertolt Brecht (1898-1956) organizados por Renato Borghi e Esther Góes.

Teatro político, sim, mas sobretudo ótimo teatro e não porcarias panfletárias.

Provavelmente essa montagem bolada por Renato e Esther inspirou Rumo a Mahagony, do Ornintorrinco, que também é um apanhado de coisas de Brecht, sobre a qual trata o vídeo a seguir.



Os grupos de vanguarda daquela época batalhavam solidários uns com os outros, sem prepotência, sem estrelismo brejeiro, sem concorrência.

Havia constante trocas de informações. Uns iam aplaudir aos espetáculos dos outros...


Lembro-me de uma das apresentações de Curva da Tormenta, do Verdadeiros Artistas – grupo do qual fazia parte – quando Paulo Contier, um dos nossos atores, se acidentou gravemente no auge do espetáculo.

Saiu ensanguentado, direto para o hospital. Decidimos em segundos que o espetáculo não podia parar.


Estávamos quase em pânico, por não saber exatamente o que tinha ocorrido com Contier, e ainda teríamos de improvisar.

Na plateia estavam colegas de outro grupo que já tinham visto ao espetáculo.


Suas contagiantes risadas, claro que propositais, nos puxaram para cima e puxaram a simpatia do público a nosso favor num momento muito difícil.

Nos dávamos com José Roberto Galizia, do Ornintorrinco. Havíamos lido seu estudo sobre um cara que adorávamos: Bob Wilson.

Galizia entrava nos bares rebolando.


Quando nos via, interrompia por alguns minutos a bichice debochada e vinha nos dar toques sobre coisas novas relativas ao teatro. Assistam isso! Leiam aquilo!

Depois prosseguia sua performance de exibição.

Era muito gente fina. Ele, Paulinho Yutaka. Adilson Barros e tantas outras belas figuras cujas vidas a medicina da época não foi capaz de manter entre nós.

Uma pena. Teriam feito um bocado de coisas legais se a Aids não os tivesse levado.

Um dos nossos elos de papo com nossos conhecidos do Ornintorrinco era o sueco Johan August Strindberg (1894-1912).


Strindberg ao violão
Maria Alice Vergueiro havia montado algo dele, que resultara num vídeo ao qual assistimos, meio que por acaso, porque um amigo nosso o estava editando.

Na minha cabeça já era muito claro, a essa altura, que a revolução da dramaturgia pós-romântica resultara desse trio que viera do frio:

Strindberg da Suécia, Henrik Ibsen (1828-1906) da Dinamarca e Anton Tchechov (1860-1904) da Rússia.


Houve outros, claro. Mas Strindberg, em especial, foi determinante para a literatura dramática do século XX.


Strindberg quando jovem
Naturalismo, expressionismo, surrealismo, teatro de síntese do futurismo, drama político, o chamado teatro do absurdo e dezenas de outras tendências que o sucederam beberam da incrível capacidade criativa do sueco.

Nosso principal dramaturgo, Nelson Rodrigues, tinha Strindberg e Ibsen entre seus favoritos.


Nelson Rodrigues

Incrível como um homem de vida tão atormentada, com tantas atribulações para meramente conseguir sobreviver, conseguiu produzir obra tão vasta e diversa.

Era filho de um pequeno agente comercial e de uma empregada doméstica. Família paupérrima, como a de James Joyce, o principal prosador moderno.

Começou com um livro autobiográfico sobre a profissão da mãe: A empregada.

Fez medicina até quase se formar, mas teve de abandonar a universidade para trabalhar e ajudar a família.

Passou por vários empregos antes de se tornar escritor: professor, ator, enfermeiro, jornalista, bibliotecário...

Mas de vero é que as questões relativas ao constante sufoco por falta de grana o levaram à piração e à degradação física..

Ainda assim, nunca parou de escrever e de avançar na literatura,
até seus últimos momentos.

Aos 20 anos, em 1869, escreveu seis dramas contra o que restava do romantismo. Mas não conseguiu viabilizar a montagem de nenhum.

Demorou dez anos até que Mestre Olof chegasse aos palcos. Em 1879, período no qual se dividia entre duas atividades profissionais: era jornalista e bibliotecário.

Nesse mesmo ano conseguiu publicar seu primeiro romance, A sala vermelha (1879), uma sátira às instituições suecas.


Durante o período que trabalhou como bibliotecário, estudou o idioma e a literatura chinesa. Fez inclusive algumas traduções de poemas chineses.


Com os filhos: muito trabalho e privações econômicas
Além disso, descolava alguns trocados com free lance, escrevendo obras para publicações populares, misto de ficção e reportagem.

Viagem de execuções de Pedro, o sortudo (1882) e Esposa do cavaleiro Bengt (1882) foram algumas delas. Anteciparam o new journalism norte-americano, que surgiria quase um século depois.

Publicou em 1883 Poemas e uma série de estudos históricos provavelmente produzida por encomenda para algum editor: Destinos & aventuras suecas (1882-1883).

Teve sucessão de três casamentos interrompidos.

O primeiro com uma esposa conterrânea, depois com uma austríaca e, por fim, com uma atriz norueguesa. Teve filhos com duas delas.

Casamentos insustentáveis foram tema de várias de suas peças.

E exemplo de Darcy Ribeiro – veja o artigo Quando as esquerdas eram inteligentes –  manteve bons relacionamentos com suas três ex-mulheres, das quais recebeu apoio em vários momentos difíceis.


Strindberg idoso e doente
Estabeleceu-se em Paris no final dos anos 1980, onde escreveu o romance Noites sonâmbulas (1883).

Influenciado pelo pensamento de Nietzsche, escreveu o livro de histórias Tschandala (1889) e o romance As ilhas (1890).

Nos quais apresenta a humanidade como cruel, basicamente voltada à luta pela vida.

É o que o grande escritor uruguaio/argentino Horacio Quiroga (1978-1937) apresentava em suas histórias sobre a natureza humana, violenta e altamente competitiva, aqui na América do Sul.


Horacio Quiroga
A produção de Strindberg se divide duas fases, a naturalista e a expressionista.

Obviamente isso não foi planejado pelo autor, cujos interesses iam muito além de demarcar território entre escolas literárias.

Entre as obras da fase naturalista, estariam as tragédias Pai (1887), O mais forte (1889) e Senhoria Julia (1889). Esta narra a violência sexual entre um servo e a filha do seu senhor.

Após uma das crises pessoais arrastá-lo ao limiar da loucura, Strindberg começou a se interessar por estudos de magia e ocultismo.

Mas mantém à parte seus estudos sobre literatura. Período em que dedica à obra do líder religioso e grande escritor inglês Emaneul Swedenborg (1588-1772).

Strindberg se identificou com o inglês porque, como ele, era também um cientista amador, apaixonado pela química.


O sueco era fotógrafo e chegou a trazer inovações para o sistema de revelação de filmes então existente.

No seu período mais pirado, encafifou-se com a alquimia medieval e explodiu acidentalmente o quarto no qual residia numa pensão de Paris.

Esta fase confusa de sua vida está contida na segunda parte de sua autobiografia, intitulada Inferno (1897).

Seu trabalho, a partir deste momento, deixa de ser realista e incorpora influências do expressionismo e do simbolismo.

Regressa à Suécia, onde escreve seis dramas históricos: Gustaf Vasa (1899), Erik XIV (1899), Gustavo Adolfo (1899), Charles XII (1901), Cristina (1903), e Gustavo III (1903).

Produz, ao mesmo tempo, obras sob a estética simbolista: Brottochbrott (1899), O sonho (escrito em 1901, mas representada em 1907) e Sonata de espectros (1908).

Há várias menções sobre a mitologia oriental nos seus textos simbolistas, sobretudo hindu, o que lembra o extraordinário conto , do russo Velímir Khlebnikov (1885-1922), sobre mitologia egípcia, escrito em 1903.

Strindberg escreveu na maturidade seus dramas mais importantes: O pelicano e A dança da morte.

O primeiro é de grande violência verbal.


Em uma casa gelada, mãe, filho, filha, genro e empregada remoem suas angústias e vociferam verdades dolorosas, tornando a convivência familiar numa sessão contínua de troca de insultos.

É nítida a influência desta peça sobre a dramaturgia de Nelson Rodrigues.

O enredo e o tratamento entre os personagens de Álbum de Família, de Nelson, têm muito em comum com O pelicano.

Strinsberg liberta o teatro europeu do início do século XX das convenções realistas estabelecidas por Émile Zola (1840-1902).

Prepara os palcos para os movimentos de vanguarda que viriam dali a vinte e trinta anos, como o “teatro da crueldade” de Antonin Artaud (1896-1948).


Antonin Artaud

E até para movimentos mais recentes, de meados do século XX, como o teatro do absurdo de Fernando Arrabal, Samuel Beckett e Eugène Ionesco.

Strindberg deixou a maior parte de sua obra – mais de 70 peças, romances, muitos contos, poemas, sátiras, livros de história e de viagens – inédita.

Relativo à sua prosa, o Inferno, um dos livros prediletos do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, clama o leitor a experimentar com ele e a sair do convencional.

É um mergulho nos subterrâneos de seu tumultuado mundo psíquico, no qual a vontade individual parece estar submetida ao poder de forças inconscientes, que transformam o homem num joguete atormentado.

Foi escrita em francês, em Paris, de 1896 e 1897, no sul da Áustria e na Suécia.

Traz não só a mania perseguição de Strindberg, a religiosidade supersticiosa, a misoginia, a misantropia e outras características de sua complexa personalidade, mas também uma linguagem espiralada, muito bem elaborada.


A luta desesperada pela sobrevivência e, ao mesmo tempo, para manter a produção literária, levou Strindberg ao colapso mental. 

É nítida a influência da sua linguagem e gêneros híbridos sobre a literatura autobiográfica de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), com sua rebuscada linguagem coloquial-irônica.

Louis-Ferdinand Céline

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