sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Vanguarda reduzida à fome, à miséria e aos fuzilamentos

A trajetória de vida de Kazimir Malevitch (1878-1935) – um dos principais pintores do século XX e influência preponderante na arte moderna em geral, inclusive para o neoconcretismo brasileiro – conta a evolução do poder soviético na Rússia.

Em outras palavras, a ascensão e queda do bolchevismo, a predominância do estalinismo, a centralização do poder, o terror, a permanência de uma classe dominante militarizada, violenta e corrupta que ainda hoje domina o país.


O fim do sonho do socialismo e sua queda simbólica: a derrubada do muro de Berlin em 1989.

Kazimir Malevitch
Se esse pano de fundo foi altamente representativo para todo contexto político internacional, o que dirá para um artista detestado pelo regime, como Malevitch, que viveu em território soviético.

Voltando um pouco atrás...


Ele e um grupo de artistas russos diversos (outros pintores, poetas, prosadores, cineastas, gente de teatro, dança, etc.) criou o movimento moderno de vanguarda mais consistente do século XX.

Até uma elite de estudiosos de linguagens havia por trás: o formalismo, que abrangeu várias áreas do conhecimento, não só as artes.


Esses artistas e estudiosos apoiaram a revolução. Foram por ela atraídos e, depois, traídos...


A maioria lutou e trabalhou por ela. Malevitch fez cartazes, campanhas de propaganda governamentais, grandes telões enaltecendo os feitos obtidos.

Foi cenógrafo de Meyerhold em montagens de peças educativas sobre temas voltados às políticas sociais de saúde, saneamento, habitação.


Maiakóvski desenhava cartazes, produziu poemas de apoio ao Exército Vermelho. Declamava para os soldados nas frentes de luta contra o Exército Branco, contrarrevolucionário.


Dzga Vértov e Eisenstein foram para as ruas produzir filmes a serviço do novo regime.

Trabalhava-se com o que tivesse. Para ganhar nada. A fim de que a revolução triunfasse. E triunfou.


Num primeiro momento, pintores e escultores fundaram museus e galerias e organizaram escolas de arte com programas baseados no que acreditavam.

O suprematismo, movimento ao qual Malevitch pertencia, defendia a arte abstrata.

Foram abertos novos museus e novos teatros sob a coordenação de artistas de vanguarda. E a arte abstrata passou a ser exibida em alta escala.


Suprematismo (1915)
Os vanguardistas podiam ser vistos em cargos do governo ligados ao Comissariado para a Educação do Povo, órgão que regulamentava também as artes.

O próprio Malevitch assumiu a direção do Departamento de Artes e ajudou a decorar ruas, trens, barcos, salas de reuniões e outros locais públicos com suas figuras geométricas.


O suprematismo era, então, visto por toda a parte e associado à revolução socialista.

Mas Lênin, o líder máximo do partido, cujas palavras eram sentenças inquestionáveis para o regime, decidiu que a função da arte era ser simples porta-voz dos interesses bolcheviques.


Segundo ele, a revolução precisava de uma arte a serviço da comunicação de massas. Nada de propósitos estéticos. Nada de pesquisas de linguagem. Nada de invenções.

Uma arte simples, acessível a todos. Queria fatos, não ideias. Mais realidade e menos imaginação.

Malevitch e seus colegas dos movimentos de vanguarda não engoliram.

Que as opiniões do líder máximo da revolução fossem questionadas.
Era preciso considerar o alcance das transformações formais empreendidas pelas vanguardas.

Uma mudança de tal ordem que, qual a revolução bolchevique fizera no plano político, colocava em xeque a própria noção de arte.

Exigiam, portanto, que o camarada Lenin ouvisse os representantes dos movimentos de vanguarda para reavaliar seu juízo sobre a produção artística. 

Da noite para o dia foram lançadas campanhas contra toda a arte de vanguarda.

De repente sindicatos passaram a reclamar que os quadros dos suprematistas não os agradava e que os poemas de Maiakovski, outrora recitados em estádios, para públicos numerosos, eram incompreensíveis para a massa.

Se a arte de vanguarda não agradava aos operários, não agradava ao partido e não agradava aos dirigentes da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Lênin, como mais tarde ocorreu com Che Guevara em Cuba, manteve sua postura conservadora e ignorante.

Declarou guerra contra as obras consideradas difíceis. E a pintura abstrata foi tachada de elitista, desinteressante para a revolução.


Mas coisas piores estavam por vir.


Quando Lênin morreu, em 1924, o caminho estava aberto para Stálin, seu sucessor na direção do partido comunista.


O novo dirigente implantou uma política muito mais dura. Passou a considerar os artistas de vanguarda como seus inimigos.

Qual ocorria com líderes bolcheviques que discordavam dele, Stalin deu início a expurgos e exílios aos artistas de vanguarda.


Antigos aliados que fizessem críticas ao regime, mesmo que construtivas, eram eliminados.

Por fim instituiu como política de Estado para as artes um dos movimentos mais conservadores e retrógrado da cultura da humanidade: o realismo socialista.


Uma doutrina de homens que não eram artistas com o objetivo orientar a criação artística.

Stalin, qual Hitler, decretou que o partido deveria tornar-se, definitivamente, a única fonte de inspiração para as artes.


Antes da revolução, em 1917, ainda no período czarista, Malevitch já tivera problemas políticos quando expôs o quadro Quadrado Negro, que representou, simbolicamente, o lançamento do suprematismo.
 

Quadrado negro
Um dos pressupostos do suprematismo era não representar as coisas como são vistas, não reproduzir a natureza.

Os quadros de Malevitch, aparentemente, eram quadrados, círculos, cruzes e outras figuras geométricas dispostas em diferentes cores para combinarem entre si.


Ele foi um dos mais visados nessa caça às bruxas. Mas fizera parte do governo e não era fácil mandá-lo para o paredão, como fizeram com outros menos conhecidos.


Insistiu em continuar na Rússia, mas teve de suportar todo tipo de restrições às suas obras, aos seus escritos e aos seus projetos de estudo.

Tentou se defender por meio das publicações existentes, mas estas não publicavam seus artigos.

Nesse período se dedicava ao chamado suprematismo aplicado: objetos e maquetes com caráter geométrico.

No fim de 1926, perdeu seu cargo e sua escola foi fechada. Como vários artistas já haviam desaparecido e outros se encontram exilados na Sibéria, em 1927 pediu autorização para viajar à Alemanha.


O regime concedeu o pedido, esperando que fosse e não retornasse. Reuniu vários quadros e escritos e, junto ao pedido, registrou que seu objetivo era expô-los em Berlin.

Mas, diferente do que supunham os dirigentes, Malevitch voltou, porém sem os quadros e escritos.

Foi detido e submetido a extenso interrogatório sobre a ideologia de sua obra e o que fizera com tudo que levara e deixara na Alemanha. Solto, conseguiu lecionar apenas em círculos mais amadores.


Vencido, fez algo maluco: começou a pintar nos estilos que antecederam ao surgimento do suprematismo. Remissivo a escolas e técnicas anteriores que ele próprio estudara.


Foi realizando obras em estilos cada vez mais antigos da história da pintura, mostrando que, quanto mais voltava no tempo, mais fazia uma arte representativa da natureza, ao gosto dos dirigentes do Partido Bolchevique.


Para tentar provar que o regime queria voltar no tempo, para instituir uma arte de três ou mais séculos antes.


Em 1933, acamado com câncer, retratou a si mesmo, à sua mulher e aos amigos em estilo renascentista.


O artista assinou estes quadros, ironicamente, com um discreto quadrado negro, na margem direita inferior da tela, representando a marca simbólica do suprematismo.


Em 1934, o regime negou autorização para que fosse tratar do câncer em Paris.


Em março de 1935, sem condições de escrever, ditou uma última carta suplicando auxílio médico e comida a um amigo com cargo no governo.

A ajuda não chegou a tempo, Em 15 de maio de 1935, Malevitch e sua mulher morreram de fome.


Na sua ida à Alemanha, em 1927, deixara com amigos mais de 100 pinturas, desenhos, manuscritos e diagramas.


Além de mostrá-los aos artistas da vanguarda alemã, seu objetivo era proteger as obras e guardá-las num lugar seguro.


Durante a 2ª Guerra a casa onde parte de sua obra estava, desabou. Só em 1953, durante os trabalhos de recuperação de Berlim, foi que se descobriu que, milagrosamente, o pacote com as obras de Malevitch permanecera intacto.


Nele estavam manuscritos, livros de anotações, desenhos e fotos.


Uma outra parte das obras de Malevitch, guardada em outro local, dispersou-se para museus de outros países ou foi vendida a colecionadores.

Em 1957, todas as obras desta leva foram reunidas no Museu Stedelijk, em Amsterdã (Holanda).

Clique aqui e veja a obra que pôde ser reunida de Kazimir Melevitch.

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