sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Lâmina que não se aLima

Há vários exemplos de grande literatura irregular.

Dentre os quais os clássicos Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes (1547-1616), e Fausto, de Wolfgang Goethe (1749-1832).


As primeiras e as segundas partes de ambos, escritas com diferença de décadas, são completamente diferentes.


Mas são duas grandes obras descontínuas de máxima grandeza.

Fiódor Dostoievski (1821-1881) produziu seus principais romances por encomenda, para jornais e revistas. O número de páginas era pré-estabelecido antes mesmo de ter os temas e as tramas.

É óbvio que para chegar aos calhamaços contratados o escritor russo teve de encher muita linguiça.


Idem para o nosso Nelson Rodrigues (1912-1980). Seus romances eram folhetins, publicados em espaços  delimitados dos jornais. Por isso os capítulos têm quase o mesmo número de caracteres.


Como durava mais de ano escrevendo e publicando-os, isso enquanto trabalhava com várias atividades simultâneas de jornalismo e teatro para continuar tocando a vida, é evidente que cometeu inúmeros lapsos.


Em um deles, um dos personagens começa com um nome e termina com outro.

Graciliano Ramos tem uma particularidade curiosa: sua obra produzida enquanto foi preso político é mais coesa, pois dispunha de mais tempo para produzi-la.

Torna-se mais descontínua quando ganha a liberdade e tem de se dividir entre dois empregos, por quase 12 horas de trabalho diárias, para sustentar a família.

A partir daí seu tempo e fôlego para produzir literatura se tornam exíguos. E é lógico que isso se reflete no resultado dos seus contos e romances, escritos à noite ou de madrugada, no limite do cansaço.

Ainda assim, alguns trechos de sua obra no período estão entre os mais perfeitos da literatura de língua portuguesa.

Um dos grandes escritores brasileiros com produção bastante irregular foi Lima Barreto (1881-1922).


Lima Barreto
Motivos não lhe faltaram para isso...


No seu caso, dada as agruras e dificuldades, é impressionante que tenha produzido tanto, com tal qualidade, diversidade e brilho.

Foram vinte livros, incluindo romances, excelentes contos, crônicas e textos críticos.

Isso em apenas 41 anos de vida!

Sobre suas imensas dificuldades, para início de conversa era filho de ex-escravos. Seu pai exerceu, enquanto a saúde mental permitiu, a função de tipógrafo. Razão pela qual muito jovem Barreto se tornou jornalista.

Embora negro num país pós-escravocrata, teve boa formação, por ter sido apadrinhado pelo Visconde de Ouro Preto, para quem seu pai trabalhava.

Mas teve de abandonar o curso superior de engenharia mecânica pela metade para trabalhar e sustentar a família, depois de o pai ter passado por transtornos mentais.

Dividia seu tempo entre o trabalho, como funcionário do Ministério da Guerra e colaborador de vários jornais e revistas, e as horas de leitura na Biblioteca Nacional.

Em 1911 editou com amigos a revista pré-modernista Floreal, que conseguiu sobreviver apenas até à segunda edição, mas despertou a atenção dos críticos mais avançados.

Recordações do escrivão Isaías Caminha foi seu primeiro livro publicado, em 1909.

Mostra uma contundente crítica à sociedade brasileira, por ele considerada preconceituosa e profundamente hipócrita.

Até mesmo os bastidores dos jornais para os quais colaborava foram alvo de seus comentários mordazes. Com isso, perdeu espaço em alguns deles e, por consequência, diminuíram suas fontes de renda.

Em 1911 começou a publicar no Jornal do Commercio, em formato de folhetim, sua mais importante obra, Triste fim de Policarpo Quaresma.

Anos mais tarde (1915) o livro foi editado em brochura e considerado pela crítica especializada como o romnce mais importante do período pré-modernista.

Entre os leitores as duas obras alcançaram algum êxito, o que não impediu que o autor sofresse severas críticas de outros escritores da época, sobretudo os da dominante escola parnasiana.


Tais críticas se baseavam no fato de Lima fugir, embora conscientemente, do padrão empolado de escrever da época.

Era chamado de “relaxado” por não usar o português castiço e utilizar uma linguagem mais coloquial, da qual vinte anos depois Oswald e Mário de Andrade esbanjariam em suas obras capitais.

Mário de Andrade foi um dos seus muitos admiradores

Seu isolamento se consolidou quando aderiu ao minoritário movimento anarquista, o qual definhava naquele momento com a insurgência do movimento comunista internacional.

Lima passou a editar um pequeno jornal anarquista e a grande imprensa para a qual prestava serviços, altamente conservadora, fechou-lhe de vez as portas.

Sua vida passou, cada vez mais, a a ser atribulada pelo alcoolismo e por internações psiquiátricas, ocorridas durante severas crises de depressão.

Apenas em 1993 foram descobertos e publicados seus principais textos confessionais desse período, o Diário íntimo e o Diário do hospício. Exemplos do quanto é descontínuo e caótico o mercado editorial brasileiro.

Embora internado em sanatórios que mais se assemelhavam a prisões para afastar os pirados do convívio social, os textos do Diário do hospício são coerentes e bem organizados.


Em um dos trechos há o esboço do romance Cemitérios dos vivos, que o autor não teve tempo de escrever.


Lima Barreto foi o crítico mais agudo da época da República Velha no Brasil, rompendo com o nacionalismo ufanista que manteve os privilégios de famílias aristocráticas e dos militares.


Foi um escritor de transição entre o romance realista e naturalista do final do século XIX para o modernismo.


Resgatou as tradições cômicas, carnavalescas e picarescas da cultura popular presentes na obra do escritor maranhense Aluísio Azevedo (1857-1913).

Aluísio Azevedo, autor de O cortiço, foi também caricaturista
Também queria que a sua literatura fosse militante, como desejou o modernista Oswald de Andrade na segunda fase de sua obra.

Lima Barreto escrevia com a finalidade de criticar o mundo circundante para despertar alternativas renovadoras dos costumes e de práticas que, na sociedade, privilegiavam pessoas e grupos.

Gosto de toda sua obra. É mais valorizado como romancista, mas o prefiro como contista. Mário de Andrade adorava seu conto O homem que sabia javanês.

Meu preferido é o livro Os bruzundangas, coletânea de contos e crônicas satíricas publicada no ano da Semana da Arte Moderna, em 1922, da qual Lima Barreto foi um dos principais precursores.

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