sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Lupicíni© Rodrigues

Houve tempo que a esquerda brasileira quis banir a poesia concreta do cenário cultural.

Até hoje o chamado concretismo, passado mais de meio século do seu surgimento, é um tabu.


O curioso é que entre os artistas identificados com a poesia concreta – poetas propriamente, músicos populares e eruditos, artistas plásticos, gente de cinema, gente de teatro, etc. – nunca houve um único direitista.


O problema não era ideológico. O ódio vem da histórica antipatia à arte de vanguarda, não só no Brasil, que tradicionalmente coloca no mesmo time de opositores a ela direitistas e esquerdistas.



Para a esquerda, esse senhor com mais de 80 anos ainda é um maldito

No tocante à produção cultural mais avançada, a caretice e o reacionarismo prepondera nos dois extremos.

Enquanto guerreavam entre si, na década de 1940, os governos soviéticos e nazistas mandavam para o paredão seus respectivos artistas de vanguarda.

No Brasil, há muito sob presumíveis governos de esquerda – primeiro PSDB, depois PT – os 80 anos do poeta Augusto de Campos, em 2011, logicamente passaram despercebidos.


Augusto de Campos é o mais importante poeta brasileiro vivo. Mas para Lulas, Dilmas, FHCs, Serras e outros bolhas, continua ignorado.


Para a esquerda de todos os matizes só importa a chamada “cultura popular”, ou seja, a porcaria populista apoiada pelas claques pró-governo que essa brejeira Marta Suplicy promete, à frente do Ministério da Cultura, transformar em “padrão Fifa”.

Deus do céu...



Augusto de Campos, nos idos 2011, em seu 80º aniversário, foi homenageado pela Bienal de Lyon (França) e pelo Festiva de Artes Europalia (Bélgica).


Por aqui, graças a iniciativa dos músicos Cid Campos e Adriana Calcanhotto, houve o show Poemúsica, em referência à obra de Augusto ou de poetas e demais artistas que foram projetados pelos seus preciosos ensaios ao longo de mais de meio século.


O repertório do show ecoou o que para Augusto é o suprassumo da produção artística mais diferenciada, seja ela popular ou erudita:


Schöenberg e Webern, John Cage, Maiakovski, o trovador provençal Arnaut Daniel, Rimbaud, John Donne, João Gilberto, Noel Rosa, Cole Porter, Pedro Kilkerry, Oswald de Andrade, Sousândrade, Lewis Carroll e, entre tantos...

Lupicínio Rodrigues.


Lupicínio Rodrigues
Não é por acaso que para a obra do compositor gaúcho convirja não só Augusto de Campos, como outros artistas de vanguarda brasileiros.

Dentre os quais Caetano Veloso (que gravou várias músicas do compositor gaúcho), Jards Macalé e Arrigo Barnabé, que protagonizou no mesmo ano o show Caixa de ódio, só com músicas dele.



Ao lado de Paulo Braga, ao piano, e de Sergio Espíndola no violão e no baixolão, Arrigo cantou 18 músicas do compositor reunidas num DVD.

Macalé, em 1987, gravou o excelente disco Quatro batutas e um coringa, no qual interpreta canções de Lupicínio Rodrigues, Nelson Cavaquinho, Geraldo Pereira e Paulinho da Viola.


Querem ouvi-lo? Cliquem aqui.

No caso de Arrigo, sua admiração por Lupicínio tem uma feliz coincidência:


O compositor gaúcho inventou suas canções “dor de cotovelo” no mesmo período em que, na Europa, explodia o atonalismo radical (de Schöenberg, Webern e Berg) que inspirou o próprio compositor paranaense a produzir seus discos Clara Crocodilo e Tubarões Voadores, na década de 1980.

“Em Lupicínio tudo é verdadeiro, e o ódio é difícil de fingir”, brincou a Arrigo em uma entrevista na ocasião do lançamento do show.

Lupicínio Rodrigues nasceu na Ilhota, vila pobre do bairro Cidade Baixa em Porto Alegre (RS), em 1914, e faleceu, por insuficiência cardíaca, na mesma cidade em 1974.


Como Adoniran Barbosa, nunca tocou um instrumento.

Mas é óbvio que ambos, poetas populares de alto nível (nada a ver com a cultura popular "padrão Fifa" da esnobe petista dondoca Marta Suplicy) conheciam música muito bem.


Curiosamente, na família de Lupicínio todos tocavam algum instrumento. Justo ele que não tocava nenhum se tornou o compositor do clã Rodrigues.


Compunha assobiando e fazendo ritmo com uma caixa de fósforos.


Construiu uma obra rica, com letras que, em sua maioria, abordavam relacionamentos amorosos. Mas com recursos inventivos e sofisticação construtiva próximos do excelente Noel Rosa.


Segundo as pessoas que lhe foram próximas, Lupicínio compôs cerca de 600 músicas, das quais “apenas” 150 foram gravadas.


Começou a carreira nos anos 1930 como compositor de marchas para Carnaval. Muitas das quais fizeram sucesso na capital das marchinhas, Rio de Janeiro.


Durante sua infância, o que mais gostava de fazer era jogar futebol, paixão essa que o levou, anos depois, em 1959, a compor o hino oficial de seu time predileto, o Grêmio.


Mas como seu tornou o compositor símbolo do Rio Grande do Sul, para não deixar os torcedores colorados enciumados, compôs também o hino do Internacional.


Seu primeiro grande sucesso no gênero “dor de cotovelo” veio em 1938: Se acaso você chegasse.


Era também cantor. Apesar de negro de origem pobre, tinha grande admiração por um cantor branco da elite carioca que cantava baixinho e suave: Mário Reis
, um dos precursores da bossa nova, que também influenciou João Gilberto.


Lupicínio, como cantor, se inspirava em Mário Reis

Boêmio profissional, teve várias casas noturnas e restaurantes em Porto Alegre. Dizia que não eram para ganhar dinheiro, mas reunir amigos.

Entre eles estavam o Jardim da Saudade, o Clube dos Cozinheiros, O Batelão, o Galpão do Lupi, o Vogue e o Bar Vingança.


Nos anos 1960 sua produção diminuiu e entrou num período de obscuridade. Suas músicas não tocavam mais nas rádios, agora invadidas pela bossa-nova, pela jovem guarda e pelo rock.


Lupicínio passou a escrever uma coluna todos os sábados para o jornal Última Hora, na qual abordava temas sobre a cultura popular boêmia.


Na década seguinte, Lupicínio foi redescoberto e suas canções voltaram a ser regravadas por vários intérpretes.


Quem mais gravou canções de Lupicínio foi o puxador de sambas carioca Jamelão.




Jamelão: principal intérprete de Lupicínio

Lupicínio criou as canções “dor de cotovelo” na linha do tango, mais ao sul, na Argentina, porém em tom de sutil sarcasmo aos exageros dos apaixonados.


Um exemplo disso é Loucura, dirigida àqueles que criticavam sua música. Coloca-se em sacrifício no lugar de Cristo para salvar o amor:


Como é que existe alguém
Que ainda tem coragem de dizer
Que os meus versos não contêm mensagem
São palavras frias, sem nenhum valor
Oh! Deus, será que o senhor não está vendo isso
Então, porque é que o senhor mandou Cristo
Aqui na terra para semear amor
E quando se tem alguém
Que ama de verdade
Serve de riso pra humanidade
É um covarde, um fraco, um sonhador
Se é que hoje tudo está tão diferente
Porque não deixa eu mostrar a essa gente
Que ainda existe o verdadeiro amor
Faça ela voltar de novo pro meu lado
Eu me sujeito a ser sacrificado
Salve seu mundo com minha dor


Na década de 1940, em plena 2ª Grande Guerra Mundial, utiliza o assunto preponderante do dia a dia dos jornais como metáfora sobre a relação entre os casais na canção Dona divergência:

Oh! Deus
Se tens poderes sobre a terra
Deves dar fim a esta guerra
E aos desgostos que ela traz
Derrame a harmonia sobre os lares
Ponha tudo em seus lugares
Como balsamo da paz
Deves encher de flores os caminhos
Mais canto aos passarinhos
À vida maior prazer
E assim, a humanidade seria mais forte
O mundo teria outra sorte
Outra vontade de viver
Não vá, bom Deus, julgar que a guerra que estou falando
É onde estão se encontrando tanques, fuzis e canhões
Refiro-me à grande luta em que a humanidade
Em busca da felicidade
Combate pior que leões
Aonde a dona divergência com o seu archote
Espalha os raios da morte
A destruir os cais
E eu, combatente atingido
Sou qual um país vencido
Que não se organiza mais


A seguir, vídeo com Lupicínio explica como fez Nervos de aço e canta trecho da canção:



Lupicínio canta Vingança:


Lupicínio apresenta poupurri de suas canções:



Gal, no auge de sua beleza e sensualidade, canta Volta, de Lupicínio:


São numerosos os exemplos da diversidade de recursos inventivos nas letras de suas canções

Lupicínio não era um intuitivo. Escrevia muito bem (basta ler suas crônicas). Tinha entre amigos de copo vários bambas de literatura gaúcha, dentre os quais o grande tradutor e poeta portalegrense Mário Quintana (1906-1994).

Bares de Lupicínio sempre tinham garrafas
do conhaque preferido do amigo Quintana 

Nenhum comentário:

Postar um comentário