sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O apetite sexual do camarada Bertolt Brecht

Quando o poeta, dramaturgo e diretor alemão Bertolt Brecht (1898-1956) chegou aos EUA, nos anos 1940, foi cerimoniosamente recepcionado pelos artistas comunistas norte-americanos.


Fotomontagem sobre imagem de Bertolt Brecht
Não eram poucos na ocasião. Dentre eles estavam muitos roteiristas de filmes comerciais de Hollywood, atores e escritores, como o popular romancista policial Dashiell Hammett.

Hammett era um dos escritores comunistas dos EUA
Com base em sua poesia e teatro engajados, os comunas da gringolândia esperavam receber um colega austero, como muitos alemães que já haviam imigrado para lá em fuga do nazismo ou em fuga das atrocidades do camarada Stalin, na URSS...


O próprio Brecht tentara primeiramente ir para a URSS, mas temeu pela própria pele quando descobriu que muito dos artistas que admirava, dentre os quais o diretor de teatro Vsevolod Meyerhold, tinham sido dizimados pelo regime.

Fugiu, sucessivamente, para países tidos como capitalistas: Suíça, Noruega, Dinarmarca e, por fim, os EUA, onde pretendia brilhar como roteirista de cinema e, ao mesmo tempo, continuar a fazer seu teatro.

Não fez uma coisa nem outra. Portas lhe foram abertas, mas Brecht simplesmente não se adaptou a nenhuma das oportunidades e acabou voltando para a Europa, logo que o armistício foi assinado.

Mas na sua chegada aos EUA, em 1940, seu prestígio era imenso.


Afinal, se tratava do mais importante poeta e dramaturgo comunista. Para os artistas norte-americanos de esquerda era o êxtase tê-lo em seu país.

O estranhamento com o camarada ilustre começou pela turma que chegou com ele: a mulher Helene Weigel, seus dois filhos e três moças bonitas que não eram suas parentas.



Ao lado de Helene, que era também sua principal atriz

Eram atrizes? Não. Suas assistentes? Também não. Quem eram, afinal das contas? Suas amantes.

Além da mulher oficial (Helene), ele tinha cinco amantes fixas. Naquela momento, tentava levantar grana para trazer as outras duas que haviam ficado na Europa.

Um belo harém. E cada uma de uma nacionalidade.

Tudo bem. Se esse era o costume do camarada, era preciso respeitá-lo. Certamente eram jovens desamparadas, como tantas pelo continente europeu naquele período, e ele as estava salvando das agruras da guerra.


Os camaradas norte-americanos, alguns muito bem de grana, quiseram saber no que poderiam ajudar para proporcionar a ele um bom ambiente criativo na América.

Brecht passou uma lista de pedidos. Para ele e seu harém. Incluindo as marcas de charutos carésimos que fumava e litros e mais litros de cervejas.

Mas para os comunistas norte-americanos, provenientes de uma cultura conservadora, os costumes sexuais de herr Brecht começaram a encucá-los.

Ele não só satisfazia às três amantes e à esposa, como tentava traçar parcela significativa das camareiras do hotel no qual sua comitiva se encontrava hospedada.

Um camarada norte-americano quis questioná-lo a respeito.


Disse que as mulheres sempre querem, inclusive as casadas. Se os maridos saem de casa, recorrem aos criados, aos choferes ou aos intelectuais como ele. Portanto, estava apenas seguindo o instinto natural.

As coisas ficaram mais complicadas quando a gerência do hotel passou a enviar camareiros para o apartamento dos Brecht e, da mesma forma, alguns foram incluídos no rol dos seus casos sexuais.

De modo que depois de um curto período de convivência, os comunistas da gringolândia acharam melhor guardar a devida distância do ilustre camarada.


Do contrário alguns deles poderiam ser dobrados por seu charme, como já havia ocorrido com dezenas de homens e mulheres.

Quando Brecht desistiu de vez de se dar bem nos EUA e foi para Paris reestruturar sua companhia Berliner Esemble, de onde partiu para a Alemanha Oriental, os camaradas norte-americanos se sentiram aliviados.

Nenhuma de suas filhas, filhos, esposas e nem eles próprios corriam mais riscos.

Brecht nasceu na Baviera, no extremo sul da Alemanha, onde se formou em Medicina. Era filho de um industrial conservador e católico.

Na década de 1920, conheceu o diretor de teatro e cinema Erich Engel (1891-1966), com quem trabalhou até o fim da vida.


Engel co-dirigiu os principais espetáculos de Brecht 
Antes de criar a Berliner Esemble, trabalhou com o importante diretor de teatro político Erwin Piscator (1893-1966).

Erwin Piscator
Seus textos e montagens posteriores o fizeram conhecido mundialmente.

Brecht revolucionou a teoria e a prática da dramaturgia e da encenação.

Também procurou mudar completamente a função e o sentido social do teatro, usando-o como instrumento de consciencialização e politização.

Algumas de suas principais peças:


Um homem é um homem, Mãe coragem, Galileu Galilei, O senhor Puntila e seu criado Matti (escrita na fase de exílio), A resistível ascensão de Arturo Ui, O círculo de giz caucasiano, A boa alma de Setzuan, Santa Joana dos matadouros e Ópera dos três vinténs (na qual se baseia a Ópera do malandro, de Chico Buarque e Ruy Guerra).

Era prático e ágil. Recriou suas peças em várias oportunidades, para aperfeiçoá-las em função dos seus propósitos teóricos.

Além de dramaturgo e diretor, Brecht foi responsável por aprofundar o método de interpretação do teatro épico, uma das grandes teorias de interpretação do século XX.

Uma das grandes influências no desenvolvimento desta forma de interpretação foi a arte do ator chinês Mei Lang-Feng, que Brecht conheceu pessoalmente em Moscou em 1935.

A produção poética e cênica de Brecht foi muito influenciada por James Joyce, pela poesia cubo-futurista de Vladimir Maiakóvski e pelo cinema construtivista de Sergei Eisenstein.

Brecht também escreveu as letras de cerca de 100 canções populares, sobretudo em parceria com o compositor Kurt Weill (1900-1950), que eram apresentadas nos seus vários espetáculos.


O compositor Kurt Weill
Brecht foi um dos principais poetas do século XX, ao lado de Ezra Pound e Maiakovski.

Não só era chegado a sexo, muito sexo, como escreveu deliciosos contos eróticos, cuja publicação só ocorreu a partir da década de 1980, com a abertura do mundo comunista.

Escritos sob a forma de monólogos, esses contos foram produzidos justamente no período do exílio, quando teve mais tempo para a fornicação.

Durante a guerra fria, seus camaradas obstruíram a publicação desses contos para não revelar esse outro lado daquele que foi um dos principais escritores declaradamente comunista.

Nenhum comentário:

Postar um comentário