sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Poesia de amor e guerra

Os grandes momentos coletivos da poesia – não de autor mas de grupos de autores afins – são raros na história da literatura.

De trás para frente, cito de letra os que me ocorrem.


Na era moderna, apenas o cubofuturismo russo, com dezenas de poetas de alto calibre como Vladimir Maiakóvski, Vielimir Kliebnikov, Boris Pasternak , David Burliuk e outros reunidos no mesmo time.



Boris Pasternak
De meados do século XIX em diante, o simbolismo de Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud, Laforgue e outros.

No século XVII, a poesia metafísica inglesa com John Donne, George Herbert, Richard Crashow, Thomas Traherne e demais grandes autores ingleses.


A poesia metafísica foi continuidade de um dos principais momentos da poesia coletiva de todos os tempos, do mais alto nível técnico: o barroco do século XVI, com grandes poetas na Itália, Espanha e Portugal.


E também no Brasil, sobretudo com Gregório de Matos (1636-1696) e padre Antônio Vieira (1608-1697).

Cinco séculos antes do barroco, houve a grande escola de trovadores provençais – em uma região que abrangia o sul da França, parte da Espanha e também parte da Itália –, cuja poesia ainda hoje é muito influente...



Tratava-se de poesia de tradição oral. Para ser cantada ou recitada, sempre acompanhada por músicos.

Parte significativa da poesia provençal chegou até nós por meio de iluminuras (tipo de pintura decorativa frequentemente aplicado às letras capitulares no início dos capítulos dos códices de pergaminhos medievais) ou de notações musicais da época.


Desenho de trovador se apresentando
A literatura provençal foi preponderante na Europa do século XI ao século XIII. Foi fortemente influenciada pela cultura moura dos invasores. Muitos dos seus valores são encontrados na literatura persa e na literatura árabe.

Para quem não a conhece, e para quem a conhece apenas superficialmente, nesta e nas próximas edições darei pinceladas sobre alguns dos seus principais poetas.

Tal apresentação não será feita em ordem cronológica.


Encerrarei o ciclo, daqui a umas tantas edições, com o mais técnico dos poetas provençais, Arnaut Daniel, que influenciou o poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321).


Dante era profundo conhecedor da poesia provençal
O provençal é uma língua românica.

Tem mais similaridades com o português, o galego e o catalão do que com o francês moderno – muito embora a maior parte da região abrangida por sua cultura esteja no sul França.

Sua influência é preponderante na literatura de língua portuguesa – oral e escrita –, tanto é que até hoje temos trovadores nos estados do Nordeste brasileiro.


Herança da arte dos trovadores na cultura nordestina
A literatura na linguagem provençal iniciou-se no século IX quando alguns padres e monges começaram a traduzir orações, hinos, contos e lendas religiosas para o então dialeto provençal, a fim de aproximar o povo da Igreja.

No século XII começou a afirmar-se a lírica provençal, com nomes como o poeta guerreiro Bertran de Born, sobre quem me deterei nesta edição.


As origens da poesia provençal se relacionam a artistas ambulantes cujos espetáculos incluíam diversões com animais, cantigas, récitas, declamações e representações de farsas (gênero de teatro satírico improvisado).


A partir da evolução desses espetáculos, os melhores trovadores teriam tido acesso às cortes, refinando e aristocratizando suas formas de composição.


No contexto do lirismo provençal, o amor afirmava-se como um culto, quase uma religião.


O trovador, na corte e na literatura, comportava-se em relação à sua dama como o vassalo para com o seu senhor, prestando-lhe homenagens, servindo-a com fidelidade e combatendo por ela, se necessário.


Não se tratava de uma relação sentimental a dois mas de uma aspiração em relação a alguém inatingível.


Isso é patente também na obra capital de Dante Alighieri, a Divina commedia, na idealizada paixão do poeta por Beatriz, e no amor também idealizado de Petrarca por sua Laura.


Desenho do poeta guerreiro Bertran de Born, do séc. XII
Além disso, o trovador obedecia a todo um código de comportamento, no qual se prescrevia, por exemplo, a manutenção da identidade da amada em segredo.

As cantigas dos trovadores refletem o sistema feudal então vigente no sul de França, no qual as filhas dos senhores casavam-se por motivos políticos e econômicos.


Os trovadores, geralmente de classe social inferior, prestavam-lhes homenagem amorosa, situando esta relação, contudo, num plano de contemplação platônica.


Tratava-se, portanto, de um amor em que a poesia, a inteligência, a imaginação e os rituais de comportamento regidos por códigos desempenhavam um papel determinante.


A influência da poesia provençal foi tão determinante em Portugal, que um dos seus reis, D. Dinis (1261-1325), foi um importante trovador.


D. Dinis estabeleceu até regras para diferenciar a lírica provençal, de alto nível técnico, das popularescas cantigas de amor portuguesas:


“Proençaes soen mui ben trobar/e dizen eles que é con amor;/ mais os que troban no tempo da frol/ e non en outro, sei eu ben que non/ an tan gran coita no seu coraçon.”


Imagem de D. Diniz, o rei trovador
A literatura provençal é muito rica em formatos e gêneros.

Existiam canções de gesta, canções de "mal dizer" (satíricas), “romances” de aventuras, biografias de santos e, entre outras formas menos significativas, o gênero dramático.

Todas em versos e estrofes com variados modelos de composição e marcações rítmicas.
O declínio da literatura provençal se deu por razões políticas.


Nos reinos pelos quais se expandiu preponderaram tendências religiosas contrárias à Igreja Romana do Ocidente, o que levou a serem atacados por uma série de cruzadas.


Bertran de Born foi um dos poucos poetas provençais de origem nobre. Era filho do senhor de Autafort, que morreu sob traição em 1178.


Ele assumiu o reino do pai atacando os senhores vizinhos que o teriam traído. Depois entrou em guerra contra seu irmão Constantino.


Sua poesia é bombástica, instigadora e dominada por temas políticos. Parece-se muito com a poesia de dois principais poetas modernos: Vladimir Maiakóvski e Ezra Pound.


A respeito de Pound, é compreensível, porque o grande poeta norte-americano foi um dos principais estudiosos, tradutores e divulgadores da cultura provençal dos tempos modernos.


No Brasil, os principais estudiosos e tradutores de poesia provençal foram o professor Segismundo Spina e o poeta concretista Augusto de Campos.


O primeiro trabalho datável de Bertran de Born foi um sirventês (canção política ou satírica) de 1181. Mas se sabe que nesta data ele já era poeta de grande reputação.


A exemplo de Maikóvski, que recitava poemas para estimular o exército bolchevique na luta contra a guerrilha antirrevolucionária, Bertran declamava seus poemas inflamados nas frentes de batalha para dar coragem aos seus homens.


Isolado pelo regime soviético, Maiakovski
suicidou-se com um tiro em 1930
Bertran fez da guerra a razão de sua vida. Em 1182, estava na Inglaterra para lutar ao lado de um senhor feudal local contra seu adversário.

Dois anos depois, encontrava-se próximo dos Alpes italianos, em outra guerra.

Quando não estava nas frentes de batalha, estava compondo canções para incitar exércitos rivais.

Estudiosos da cultura provençal, dentre os quais Pound, sugerem que Bertran se tornou um grande criador de cizânias entre os senhores feudais.


Pound foi trancafiado num hospício dos EUA por mais
de 10 anos por ter apoiado Mussolini na 2ª Guerra
Bertran não via a menor graça nos armistícios. E quando um exército massacrava o outro, compunha lindas canções fúnebres, algumas das quais chegaram até nossos dias.

Por fim, Bertran acabou por perder seu próprio reino. Mas criou um exército de mercenários, que ora estava a serviço de um reino, ora a serviço de outro.


Sua última canção datável foi escrita em 1198.  Pelos registros da época, foi morto – em batalha – em 1215.


Bertran é citado no Inferno (Divina commedia), por Dante Alighieri.


A seguir, meu poema Amarte (neologismo criado por Torquato Neto, reunindo o verbo amar com Marte, deus da guerra), no qual procuro reproduzir o clima de incitação e, ao mesmo tempo, lírico-amoroso da poesia de Bertran de Born:


amarte

amo porque meu corpo quer mulher
as pessoas quando se gostam
tornam-se idiotas
não há mais grata estupidez no mundo
do que esse gostar sem fim
entre pessoas afins
tonto sei que sou
por ter me dado a ela
ela tonta tanto é
que me tem dado o que quero
ontem estivemos no condado com Bertran
ele arma a discórdia onde há acordo
homens desalmados se armam
e ele grava com seu sangue
os mais belos versos de guerra da Provença
Bertran padece no canto 28 do Inferno
soa como Maiakóvski nos cantares de Pound
Bertran resplandece nos círculos de Vico
o dia todo batalha
esgrima, resiste, retalha
para que nunca cessem a luta
muda de sucessivos condados
e por onde passa novas desavenças se avultam
o aço do rancor jamais trespassa seu peito
quando o armistício é assinado
ele sobe nas árvores e grita ensimesmado:
“Audiart-vos!”  “Audiart-vos!”
o tempo é algoz
o tempo desnuda tudo
põe a nu o que nos gesta ao gostar
finda o amor para alguém do par
uma pessoa não se encontra na outra
a outra se desgasta por não ser gostada
quem nunca amou jamais verá o amanhã
jamais verá a primavera consagrando o dia
nem saberá o quanto é boa
a felicidade boba dos que se gostam
quando cessa o amor
viceja a idiotice
o rei quer matar o filho predileto
a irmã quer por fim à vida do irmão amante
o pai dos teus filhos deseja que teu útero apodreça
depois do amor
nenhum bem será maior que o mal
depois do amor
a morte

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